Capítulo 1: "Cuide dos meus
cordeiros"
Texto original: Pr. Joab Duarte
Nem os melhores da igreja são bons
demais para esta obra. Não pense que, por você já ter outro trabalho para
fazer, não deva se interessar por esta espécie de trabalho santo; ao contrário,
com toda bondade, de acordo com suas possibilidades, disponha-se a ajudar os
pequeninos e alegrar aqueles que têm o chamado para cuidar deles. Para todos
nós vem a mensagem: "Cuide de meus cordeiros" (nvi), "Apascente
os meus cordeiros" (ara). Para o pastor e para todas as pessoas que
conheçam as coisas de Deus, é dada a comissão. Cuide bem das crianças que estão
em Cristo Jesus. Pedro era um líder entre os crentes, contudo, ele devia
alimentar os cordeiros.
Os cordeiros são os mais novos do
rebanho. Por isso, devemos cuidar de modo especial daqueles que são novos na
graça. Podem ser velhos em anos, mas ainda assim serem bebês na graça quanto à
idade de sua vida espiritual, e por isso precisarem da tutela de um bom pastor.
Assim que uma pessoa é convertida e acrescentada à igreja, ela deve tornar-se
alvo do cuidado e da bondade de seus irmãos na fé. Ela acabou de chegar entre
nós e não tem amigos conhecidos entre os santos, portanto, devemos ser
amigáveis com essa pessoa. Mesmo que seja para deixar nossos amigos mais
antigos, precisamos ser bondosos para com aqueles que são recém-escapados do
mundo, e que vieram encontrar refúgio no Todo-Poderoso e no seu povo.
Vigie com cuidado incessante por
esses bebês recém-nascidos que são fortes em desejos, mas em nada além disso.
Eles acabam de sair das trevas, estão engatinhando, e seus olhos quase não
agüentam a luz; sejamos sombra para eles até se acostumarem com a intensa
claridade diurna do evangelho. Entregue-se, "vicie-se", no trabalho
santo de cuidar dos fracos e abatidos. O próprio Pedro naquela manhã deve ter
se sentido como um recruta, pois, em certo sentido, ele havia dado fim à sua
vida cristã ao negar sua fé diante de seu Senhor e seus irmãos; e, por isso,
porque foi levado dessa forma a se simpatizar com recrutas, ele foi comissionado
para agir como um guardião deles. Os novos convertidos são tímidos demais para
pedir a nossa ajuda; por isso mesmo eles nos são apresentados pelo nosso Senhor
que, com uma palavra enfática de comando, diz: "Cuide dos meus
cordeiros." E esta será a nossa recompensa: "O que vocês fizeram a
algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram".
Por mais novo que um crente seja,
ele deve fazer uma confissão aberta, uma confissão pública da sua fé e ser
arrebanhado para fazer parte do rebanho completo de Cristo. Não estamos entre
aqueles que desconfiam da piedade jovem. Jamais podemos duvidar daqueles que se
arrependem enquanto têm pouca idade tanto quanto daqueles que se arrependeram
tarde na vida. Dos dois, achamos estes últimos mais para serem questionados do
que os primeiros: pois é maior a probabilidade que o medo egoísta de castigo e
o temor da morte produzam uma fé falsa do que a mera infantilidade. Quanta
coisa a criança deixou de ver que poderia tê-la estragado! Quanto ela não
conhece que, se Deus quiser, esperamos que ela nunca conheça! Ah, quanto há de
brilho e confiança em crianças quando convertidas a Deus que não é visto em
convertidos mais velhos! Nosso Senhor Jesus era profundamente solidário com as
crianças, e pouco se parece com Cristo quem as olha como sendo um estorvo no
mundo, e quem as trata como se fossem pequenos enganadores ou tolos e
simplórios. Você que leciona em nossas escolas tem esse privilégio alegre de
descobrir onde estão os cordeiros verdadeiros que realmente são os cordeiros do
rebanho de Cristo — e é para você que ele diz: "Cuide dos meus
cordeiros"; isto é, dê instrução àqueles que são verdadeiramente cheios de
graça, mas novos na idade.
É significativo que o verbo usado
aqui para "cuide de meus cordeiros" é muito diferente do usado no
preceito "cuide de minhas ovelhas". Não vou preocupá-los com palavras
gregas, mas no segundo caso "cuidar" significa exercer o ofício de um
pastor, governar, regulamentar, dirigir, orientar, fazer tudo que um pastor tem
de fazer com um rebanho; mas no primeiro caso, cuidar não tem todos esses
significados, mas sim o de alimentar, e dirige professores a uma
obrigação que eles talvez possam negligenciar , ou seja, a de instruírem
crianças na fé. Os cordeiros não precisam tanto de ser mantidos em ordem como
nós, que temos tanto conhecimento e, no entanto, sabemos tão pouco, que achamos
que estamos tão avançados que julgamos uns aos outros e brigamos. As crianças
cristãs necessitam principalmente aprender a doutrina, o preceito e a vida do
evangelho; precisam que a verdade divina lhes seja ensinada com clareza e
convicção. Por que as doutrinas mais altas lhes devem ser negadas, as doutrinas
da graça? Estas não são como dizem alguns, puros ossos; ou, se são ossos, estão
cheios de tutano e cobertas de gordura. Se há alguma doutrina difícil demais
para uma criança, é antes por culpa do conceito que o mestre tira dela, do que
por falta de capacidade do pequeno para recebê-la, contanto que a criança
esteja realmente convertida a Deus.
Compete a nós tornar a doutrina
simples; essa será a parte principal de nosso trabalho. Ensinar aos pequenos a
verdade inteira e nada senão a verdade; pois a instrução é o grande desejo da
natureza da criança. Uma criança não só tem de viver como nós, como também tem
de crescer; portanto, tem dupla necessidade de alimento. Quando os pais dizem
de seus meninos "Que apetites eles têm!", devem lembrar-se de que nós
também teríamos grandes apetites se não tivéssemos apenas que manter o
funcionamento, mas também de aumentar o seu tamanho.
As crianças na graça têm que
crescer, aumentando a capacidade de saber, ser, fazer e sentir, para chegar a
um maior poder recebido de Deus; portanto, acima de tudo, precisam ser
alimentadas. Precisam ser bem alimentadas ou instruídas porque correm o risco
de que sua fome seja satisfeita com erros, perversamente. A juventude é
suscetível à má doutrina. Quer ensinemos a verdade ou não aos jovens cristãos,
o diabo com certeza lhes ensinará o erro. Eles o ouvirão de algum modo, mesmo
que sejam vigiados pelos mais cuidadosos guardiões. O único meio de evitar que
o joio entre na pequena caneca de medidas da criança é enchê-la até transbordar
de trigo bom. Ah, sim, que o Espírito de Deus nos ajude a fazer isso! Quanto
mais for ensinado aos jovenzinhos, tanto melhor; pois isso evitará que sejam
desencaminhados.
Somos exortados especialmente a
alimentar os pequenos, mesmo porque esse trabalho é muito proveitoso. Por mais
que façamos com indivíduos convertidos com idade avançada, nunca podemos fazer
muito por eles. Ficamos contentes com eles, mas aos 70 anos, o que lhes resta,
mesmo que vivam outros dez anos? Instrua uma criança, e ela poderá ter 50 anos
de serviço santo à sua frente. Ficamos contentes de receber aqueles que entram
na vinha à décima primeira hora, mas quase nem empunharam sua ferramenta de
poda e sua enxada antes do pôr-do-sol e já seu curto dia de trabalho termina.
O tempo gasto com treinamento
daqueles que se convertem tardiamente é maior do que o tempo que o futuro
reserva para o seu trabalho. Mas tome-se uma criança convertida e ensine-a bem.
Como uma piedade cedo na vida muitas vezes chega a se tornar uma piedade em
alto grau, e essa piedade eminente se estica por longos anos em que Deus pode
ser glorificado e outros abençoados, tal trabalho é por demais proveitoso. Esse
trabalho é também muito benéfico para você mesmo. Nós sabemos que exercita
nossa humildade e nos ajuda a permanecer mansos e humildes. Também treina nossa
paciência; que aqueles que duvidam disso façam a experiência; pois mesmo cristãos
jovens põem à prova a paciência daqueles que crêem neles e que estão ansiosos
por eles justificarem sua confiança. Se você quer homens ou mulheres de alma
grande, de coração dilatado, procure por eles entre aqueles que estão muito
ocupados entre os jovens, suportando suas tolices e condoendo-se com suas
fraquezas por amor a Jesus.
Capítulo 2: Não impeçam as
crianças
Vamos ver de que forma as crianças
são impedidas de virem ao Salvador. A primeira coisa a ser observada é que o
culto, muitas vezes, não oferece nada para as crianças. O sermão passa por cima
de suas cabeças, e o pregador não acha que isso seja defeito; na verdade, ele
quase se alegra por isso ser assim. Há algum tempo, uma pessoa que quis,
suponho eu, fazer com que sentisse minha própria insignificância, me escreveu
para dizer que havia se encontrado com alguns negros que tinham lido meus
sermões com grande prazer; e essa pessoa acreditava que eram muito adequados
para eles. Sim, minha pregação era justamente o tipo de coisa para esses homens.
O remetente nem sonhava que me dava um prazer muito sincero; pois se sou
compreendido por pessoas pobres, por empregadas, por crianças, estou certo de
que posso ser entendido por outros.
Ambiciono pregar ao mais humilde,
ao mais simples e desprezado. Nada é mais importante do que ganhar o coração
dos despretensiosos, como também ganhar o coração das crianças. As pessoas, às
vezes, falam à respeito de alguém: "Ele só serve para ensinar crianças:
pregador ele não é." Pois eu lhes digo, à vista de Deus, não é pregador
quem não se importa com as crianças. Deveria haver pelo menos uma parte de cada
sermão e culto que agradasse aos pequenos. É um erro aquilo que permite que
esqueçamos disso.
Os pais também pecam quando omitem
a religião da educação de seus filhos. Talvez a idéia seja que suas crianças
não podem ser convertidas enquanto são crianças, e então acham o lugar onde
eles estudam nos seus tenros anos inconseqüente. Mas isso não é verdade. Muitos
pais esquecem-se disso até quando suas meninas e meninos estão nos últimos anos
da escola. Mandam-nos para outros países, a lugares com toda sorte de perigo
moral e espiritual, com a idéia de que lá poderão completar os estudos
elegantemente. Em quantos casos eu vi essa instrução completada, e ela produziu
moços que são consumados libertinos, e moças que só sabem flertar. Conforme se
semeia, se colhe. Vamos esperar que nossos filhos conheçam o Senhor. Que desde
o início combinemos com seu "ABC" o nome de Jesus. Que leiam suas
primeiras lições da própria Bíblia. É notável o fato de que as crianças não
aprendem a ler de nenhum outro livro tão rapidamente como do Novo Testamento;
há um encanto no livro que atrai a mente infantil. Mas nunca sejamos culpados,
como pais, de esquecer o treinamento religioso de nossas crianças; porque, se
deixarmos isso esquecido, poderemos ser culpados do sangue de suas almas.
Outro resultado é que a conversão
de crianças não é esperada em muitas de nossas igrejas e congregações. Ou seja,
não se espera que as crianças sejam convertidas enquanto crianças. A teoria é
que, se podemos estampar sobre a mente das crianças bons princípios que lhes
possam ser úteis em anos vindouros, já fizemos o suficiente; mas converter
crianças enquanto crianças e considerá-las como sendo tão crentes como adultos,
é visto como absurdo. A esse suposto absurdo, eu me agarro de todo o coração.
Creio que das crianças é o Reino de Deus, tanto na Terra como no céu.
Outro problema é que não se
acredita na conversão de crianças. Certos indivíduos desconfiados sempre afiam
seus dentes quando ouvem falar de uma criança recém-convertida: querem avançar
para tirar um naco dela se puderem. Insistem, corretamente, que essas crianças
sejam examinadas com cuidado antes de serem batizadas e admitidas na igreja;
mas estão errados em insistir que só em casos excepcionais devem ser recebidas.
Concordamos com eles quanto ao cuidado a ser exercido; mas deve ser o mesmo em
todos os casos, nem mais nem menos nos casos de crianças.
É muito freqüente as pessoas
esperarem de meninos e meninas a mesma solenidade de comportamento de pessoas
mais velhas! Seria um bem para todos nós se nunca tivéssemos deixado de ser
meninos e meninas, e tivéssemos acrescentado a todas as excelências de uma
criança as virtudes de um homem. Certamente, não é necessário matar a criança
para fazer o santo! Os mais severos pensam que um pequeno convertido deve ficar
vinte anos mais velho em um minuto. Certa vez, um indivíduo muito solene me
chamou do playground e me admoestou sobre a impropriedade de eu jogar
uma brincadeira de armadilha, bastão e bola com os meninos. Ele disse:
"Como você pode brincar como os outros, se você é um filho de Deus?"
Respondi que eu tinha a responsabilidade de conduzir as pessoas aos assentos na
igreja, e fazia parte de minhas obrigações participar dos passatempos dos
garotos. Meu crítico venerável achou que isso alterava bem o assunto; mas
estava claro que sua visão era que um menino convertido nunca deveria brincar!
As pessoas não esperam das
crianças uma conduta mais perfeita do que elas próprias demonstram? Se uma
criança crente tem um acesso de raiva, ou age mal em algum caso pouco
importante por esquecimento, ela é condenada na hora como sendo um pequeno
hipócrita por aqueles que estão longe de ser perfeitos. Jesus diz: "Cuidado
para não desprezarem um só destes pequeninos." Cuidado para não dizerem
nenhuma palavra cruel contra seus irmãos pequenos em Cristo, suas irmãzinhas no
Senhor. Jesus valoriza tanto seus preciosos cordeirinhos que ele os leva em seu
seio; e eu encarrego vocês que seguem seu Senhor em todas as coisas a mostrarem
ternura semelhante aos pequenos da família divina.
"Alguns traziam crianças a
Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam. Quando
Jesus viu isso, ficou indignado." Ele não ficava indignado com freqüência,
certamente. E quando ficou, sabemos que o caso era sério. Indignou-se por essas
crianças serem empurradas para longe dele, uma vez que essa atitude era
contrária ao seu pensamento sobre elas. Os discípulos fizeram mal às mães;
eles repreenderam os pais por fazerem um ato materno--por fazerem, de fato,
aquilo que Jesus amava que fizessem. Levavam seus pequenos a Jesus por respeito
a ele; valorizavam uma bênção que viesse de suas mãos mais do que ouro; tinham
certeza de que uma bênção de Deus viria, com o toque do grande Profeta. Podem
ter esperado que um toque da mão de Jesus tornasse a vida de seus filhos alegre
e feliz. Embora possa ter havido algo de fraqueza no pensamento dos pais, mesmo
assim o Salvador não podia julgar duramente aquilo que surgiu de reverência
pela sua pessoa. Por isso, ele indignou-se bastante ao pensar que aquelas boas
senhoras, que quiseram prestar-lhe honra, fossem rudemente impedidas.
Fez-se também um mal às crianças.
Os doces pequeninos! O que eles tinham feito para serem repreendidos por virem
a Jesus? Não tencionavam atrapalhar. Pobrezinhos! Teriam caído a seus pés em
amor reverente para com o Mestre de doce voz que encantava não só homens, mas
crianças também, com suas palavras ternas. Os pequenos não tencionavam mal, e
por que levariam a culpa?
Além disso, também havia o mal
feito a ele próprio. Poderia deixar as pessoas pensando que Jesus era durão,
reservado e auto-suficiente, como os rabinos. Ora, se pensassem que ele não
podia condescender a crianças, teriam caluniado tristemente o bom nome de seu
grande amor. Pois seu coração era um grande porto onde muitas embarca-çõezinhas
poderiam ancorar. Jesus, o homem-criança, nunca esteve mais à vontade do que
com crianças. Jesus, a criança santa, tinha afinidade com crianças. Seria ele
representado pelos seus próprios discípulos como alguém que fecharia a porta
para as crianças? Isso prejudicaria seu caráter. Portanto, entristecido pelo
mal triplo que feriu mães, crianças e a si mesmo, ele ficou indignado. Qualquer
coisa que fazemos para impedir uma querida criança de vir a Jesus desagrada ao
nosso querido Senhor. Ele exclama: "Abram espaço. Deixe-os em paz. Que
venham a mim, e não os impeçam."
Outra coisa: isso era contrário ao
seu ensino; pois ele prosseguiu para dizer: "Quem não receber o Reino de
Deus como uma criança, nunca entrará nele." O ensino de Cristo não era o
de que existe algo em nós que nos capacita para o Reino; e que um certo número
de anos poderá nos tornar capazes de receber graça. Seu ensino era todo em
outra direção, ou seja, de que nós não devemos ser nada, que quanto menos somos
e quanto mais fracos, melhor; pois quanto menos temos do eu, mais espaço há
para a graça divina dele. Você pensa chegar a Jesus subindo a escada do saber?
Desça; você se encontrará com ele ao pé dela. Pensa alcançar Jesus subindo o
morro íngreme da experiência? Desça, meu caro escalador; ele está na planície.
"Ah! mas quando eu for velho, então estarei preparado para Cristo."
Fique onde você está, jovem; Jesus o encontra na porta da vida; você nunca
esteve mais preparado para se encontrar com ele do que justamente agora. Ele
nada pede de você a não ser que não seja nada, e que ele possa ser tudo em tudo
para você. Este é o ensinamento dele, e mandar afastar a criança porque ela não
tem isto ou aquilo é resistir abertamente à bendita doutrina da graça de Deus.
Mais uma vez, impedir os pequenos
era bem contrário à prática de Jesus Cristo. Ele os fez ver isso; porque
"tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou".
Durante toda a sua vida, nada houve nele que se parecesse com rejeição e
recusa. Ele disse verdadeiramente: "Quem vier a mim eu jamais
rejeitarei." Se ele rejeitasse quaisquer pessoas por serem novas demais, o
texto seria declarado falso de imediato, mas isso nunca acontecerá. Ele recebe
todos que vêm a ele. Está escrito: "Este homem recebe pecadores e come com
eles." Toda a sua vida poderá ser desenhada como um pastor com um cordeiro
em seu seio: nunca como um pastor cruel atiçando seus cães atrás de cordeiros e
tirando-os de perto, juntamente com suas mães.
Capítulo 3: Os discípulos e as
mães
Os discípulos imediatos de nosso
Senhor foram um grupo de homens altamente honrosos. Apesar de seus erros e
deficiências, eles devem ter sido grandemente adoçados por viverem próximo de
alguém tão perfeito e tão cheio de amor. Suponho, então, que, se esses homens,
que eram a nata da nata, censuraram as mães que levaram seus filhos pequenos a
Cristo, isto deve ser uma ofensa bastante comum na igreja de Deus. Temo que a
geada paralizadora desse erro seja sentida em quase toda parte. Não farei
nenhuma afirmação pouco generosa; mas acredito que se fosse feita uma pequena
investigação pessoal, muitos de nós poderíamos descobrir sermos culpados nesse
ponto, e poderíamos ser levados a exclamar com o copeiro de faraó: "Hoje
me lembro das minhas faltas." Será que temos nos esforçado pela conversão
de crianças tanto quanto temos nos esforçado pela conversão de adultos? Acham
que estou sendo sarcástico? Vocês se derramam pela conversão de alguém? O que
preciso lhes dizer? É terrível que o espírito de Caim entre no coração de um
crente e o faça dizer: "Sou eu o responsável por meu irmão"? É
chocante que nós mesmos comamos a gordura, bebamos o doce e deixemos as
multidões famintas a perecer. Mas, me digam, se vocês não cuidaram da salvação
de almas, não achariam um tanto trivial começar com meninos e meninas? Sim; e
seu sentimento é compartilhado por muitos. A falha é comum.
Creio, no entanto, que esse
sentimento, no caso dos apóstolos, foi provocado por zelo ao Mestre Jesus.
Esses bons homens pensavam que levar as crianças ao Salvador causaria uma
interrupção, pois ele estava envolvido em um trabalho muito melhor: ele agia
confundindo os fariseus, instruindo as massas e curando os doentes. Seria
correto amolá-lo com os pequenos? As crianças não entenderiam seu ensino, e
elas não precisavam de seus milagres — por que deveriam elas ser introduzidas
para perturbar seus grandes feitos? Assim, os discípulos praticamente disseram:
"Levem suas crianças de volta, boas senhoras. Ensinem a elas a lei vocês
mesmas, e instruam-nas nos Salmos e Profetas, e orem com elas. Não dá para toda
criança ter as mãos de Cristo postas nela. Se deixarmos vir um grupo de
crianças, teremos toda a vizinhança aglomerando-se à nossa volta, e o trabalho
do Salvador será muito interrompido. Vocês não enxergam isso? Por que agem tão
sem pensar?" Os discípulos tinham tanta reverência por seu Mestre que
queriam mandar embora os tagarelas para que o grande rabino não parecesse ser
um mero professor de bebês. Isso pode ter sido zelo por Deus, mas não era
segundo a sabedoria. Desse modo, nos dias atuais, alguns irmãos não gostam de
receber muitas crianças na igreja, com medo que se torne uma sociedade de
meninos e meninas. Se essas crianças entram na igreja em grande número, a
igreja pode sofrer críticas! O mundo lá fora a chamará de uma mera Escola
Dominical. Lembro-me de que quando uma mulher de má fama foi convertida em uma
de nossas cidades da comarca, houve objeção entre certos professores de que ela
fosse recebida na igreja como membro, e certos rapazes mais obscenos chegaram a
escrever nas paredes que o ministro batista tinha batizado uma prostituta. Eu
disse ao meu amigo que considerasse esse fato uma honra. Assim também, se
alguém nos critica por receber crianças novas na igreja, usaremos a crítica na
lapela como insígnia de honra. Crianças santas não têm nenhuma possibilidade de
nos causar mal. Deus nos enviará pessoas suficientes de idade e experiência para
dirigir a igreja com prudência. Não receberemos ninguém que não produza prova
do novo nascimento, qualquer que seja sua idade; mas não excluiremos nenhum
crente por mais novo que possa ser. Deus nos livre de condenarmos nossos irmãos
cautelosos, mas, ao mesmo tempo, desejaríamos que sua cautela aparecesse onde é
mais necessário. Jesus não será desonrado pelas crianças: temos muito mais
razão para temer os adultos.
A repreensão que os apóstolos
fizeram sobre as crianças deve-se em parte por ignorarem a necessidade das
crianças. Se alguma mãe naquela aglomeração tivesse dito, "Preciso levar
meu filho ao Mestre porque ele é muito afligido com um demônio", nem
Pedro, nem Tiago, nem João, teriam feito objeções, mas, ao contrário, teriam
ajudado a levar a criança possessa ao Salvador. Ou, suponhamos que outra mãe
tivesse dito, "Minha filha tem uma doença que a faz definhar, está só pele
e osso; permitam-me levar minha queridinha para que Jesus ponha suas mãos sobre
ela", os discípulos todos teriam dito: "Abram caminho para essa
mulher e seu fardo infeliz." Mas por que esses pequenos de olhos vivos, de
línguas soltas e pernas saltitantes, deveriam ir a Jesus? Esqueceram-se de que
nessas crianças, com toda sua alegria, saúde e inocência aparente, havia uma
necessidade grande e grave da bênção da graça de um Salva dor. Se você cede à
idéia dos tempos de que seus filhos não precisam de conversão, de que
crianças nascidas de pais cristãos são um tanto superiores a outras, e tem o
bem dentre eles que só precisa de desenvolvimento, uma grande motivação para
sua sinceridade devota deixará de existir.
Creia-me, suas crianças precisam
que o Espírito de Deus lhes dê novo coração e espírito reto, porque, do
contrário, irão se perder como outras crianças. Lembre-se de que por mais novos
que sejam, há uma pedra dentro do peito mais jovem; e essa pedra precisa ser
tirada, ou, então, será a ruína da criança. Há uma tendência para o mal mesmo
onde não é desenvolvida em ato, e essa tendência precisa ser vencida pelo poder
divino do Espírito Santo, que atua fazendo com que a criança nasça de novo. Ah,
que a igreja de Deus lance fora a velha idéia judaica, ainda tão forte à nossa
volta — que o nascimento natural traz consigo privilégios da aliança!
Ora, mesmo sob a Velha Dispensação
houve sugestões de que a semente verdadeira não era nascida segundo a carne, e
sim segundo o espírito, como no caso de Ismael e Isaque, e de Esaú e Jacó. Será
que nem a igreja de Deus sabe que "O que nasce da carne é carne, mas o que
nasce do Espírito é espírito"? "Quem pode extrair algo puro da
impureza?" O nascimento natural comunica a impureza da natureza, mas não
pode transmitir graça. Sob a nova aliança nos é comunicado expressamente que os
filhos de Deus "não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da
carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus".
Sob a antiga aliança, o nascimento
segundo a carne produzia privilégio; mas para entrar de qualquer modo na
aliança da graça é preciso nascer de novo. O primeiro nascimento nada lhe traz senão
uma herança com o primeiro Adão; é preciso nascer de novo para se colocar sob a
chefia do segundo Adão.
Mas está escrito, diz alguém, que
"a promessa é para vocês e para seus filhos". Nunca houve uma
desonestidade mais grave do que a citação deste texto conforme é geralmente
citada. Já a ouvi sendo usada inúmeras vezes para provar uma doutrina que está
bem longe do que ela ensina claramente. Se pegarmos parte da frase de uma
pessoa, sem considerarmos o resto, podemos fazer com que ela diga o oposto daquilo
que quis dizer. O que você acha que o texto realmente diz? Veja Atos 2.39:
"A promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão
longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar." Essa declaração
grandiosamente ampla é o argumento no qual está fundada a exortação:
"Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado." Não é uma
declaração de privilégio especial de ninguém, e sim uma apresentação da graça
que tanto é para todos que estão longe como para eles e seus filhos. Não há nenhuma
palavra no Novo Testamento para mostrar que os benefícios da graça divina são
em qualquer grau transmitidos por descendência natural: eles vêm "para
todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar", quer tenham pais santos ou
pecadores. Como as pessoas têm o descaramento de rasgar metade de um texto de
modo que se ensine o que não é verdade? Você precisa olhar com tristeza para
seus filhos como nascidos no pecado, e formados na iniqüidade, "herdeiros
da ira, assim como outros"; e embora você mesmo possa pertencer a uma
linhagem de santos, e traçar seu pedigree de um pastor para outro pastor, todos
eminentes na igreja de Deus, assim mesmo seus filhos ocupam exatamente a mesma
posição pelo seu nascimento como ocupam os filhos dos outros; por isso precisam
ser redimidos da maldição da lei pelo sangue precioso de Jesus, e precisam
receber uma nova natureza pela obra do Espírito Santo. São favorecidos por
serem colocados sob um treinamento piedoso, e ouvirem o evangelho; mas sua
necessidade e sua pecaminosidade são as mesmas como há no resto da humanidade.
Se você pensar nisso, verá o motivo pelo qual os filhos devem ser trazidos a
Jesus Cristo — motivo pelo qual devem ser trazidos tão depressa quanto
possível, nos braços de sua oração e fé naquele que tem poder para renová-los.
Tenho encontrado por vezes uma
experiência espiritual mais profunda em crianças de 10 e 12 anos do que em
muitas pessoas de 50 e 60 anos. Diz um velho provérbio que algumas crianças
nasceram com barba. Alguns meninos são homenzinhos, e algumas meninas são
mulheres idosas. Não meça a vida das pessoas pela sua idade. Conheci um garoto
que, quando tinha 15 anos, muitas vezes ouviu cristãos de longos anos dizer:
"O menino tem 60 anos; ele fala com tanto discernimento da verdade divina."
Eu creio que esse jovem, aos 15 anos, sabia mesmo muito mais das coisas de
Deus, e da luta da alma, do que pessoas à sua volta, fosse qual fosse sua
idade. Não sei dizer por que é assim, mas sei que é, que alguns são velhos
quando são novos, e alguns estão muito imaturos quando são velhos; alguns são
sábios quando era de se esperar que fossem diferentes, e outros são muito tolos
quando seria de se esperar que tivessem deixado sua tolice. Não fale da
incapacidade de uma criança para o arrependimento! Já vi uma criança adormecer
soluçando durante meses a fio sob um sentimento esmagador de pecado. Se quer
conhecer um profundo, e amargo, e terrível medo da ira de Deus, deixe-me
contar-lhe o que eu senti quando menino. Se quer conhecer a alegria no Senhor,
muitas crianças já ficaram tão cheias dela quanto pôde caber em seu
coraçãozinho. Se quer entender o que é fé em Jesus, você não deve olhar para
aqueles que foram confundidos pelo jargão herético dos tempos, e sim para as
preciosas crianças que acreditam em Jesus pela sua palavra, que creram nele, e
amaram-no, e, portanto, sabem e têm certeza de que são salvos. A capacidade de
crer se acha mais na criança do que no adulto. Nós nos tornamos menos capazes
de fé, em vez de mais capazes: cada ano leva a mente não regenerada para mais
longe de Deus, e a torna menos capaz de receber as coisas de Deus. Nenhum
terreno está mais bem preparado para a boa semente do que aquele que ainda não
foi pisado e endurecido como a estrada, nem ficou cheio de mato com espinhos.
Também, em alguns casos, a criança ainda não aprendeu os enganos do orgulho, a
mentira da ambição, as ilusões do mundanismo, os truques do comércio, os
sofismas da filosofia; e por enquanto desfruta de uma vantagem sobre o adulto.
Em todo caso, o novo nascimento é obra do Espírito Santo, e ele pode tão
facilmente trabalhar sobre o jovem como sobre a idade madura.
Alguns, também, têm impedido as
crianças porque se esquecem do valor da criança. O preço da alma não depende de
quantos anos se tem. "Ah, é apenas uma criança." "Crianças são
uma amolação." "Crianças estão sempre atrapalhando o caminho."
Essa conversa é comum. Deus perdoe aqueles que desprezam os pequeninos! Será
que alguém ficaria muito zangado se eu dissesse que vale mais salvar um menino
do que um homem? É misericórdia infinita da parte de Deus salvar aqueles que
têm 70 anos; pois qual o bem que podem fazer agora com o enfado restante de sua
vida? Quando chegamos a ter 50 ou 60 anos, estamos quase desgastados; e se
passamos todos nossos dias moços com o diabo, o que fica para Deus? Mas há algo
para ser realizado com esses queridos meninos e meninas. Se agora se rendem a
Cristo poderão ter um dia longo, feliz e santo pela frente no qual podem servir
a Deus de todo coração. Quem sabe que glória Deus pode receber deles? Terras
pagãs poderão chamá-los bem-aventurados. Nações inteiras poderão ser iluminadas
por eles. Se um mestre famoso costumava tirar o chapéu para seus alunos porque
não sabia se um deles poderia vir a ser um primeiro-ministro, nós podemos com justiça
olhar para as crianças convertidas, pois não sabemos daqui a quanto tempo
estarão entre os anjos, ou com que grandeza sua luz brilhará entre os homens.
Avaliemos as crianças no seu valor verdadeiro, e não os impediremos, mas
estaremos ansiosos por levá-los a Jesus imediatamente.
Em proporção à nossa própria
espiritualidade da mente, e em proporção à nossa própria atitude de coração,
igual à da criança, nós estaremos à vontade com crianças; e a par de seus
temores e suas esperanças, sua fé nascedoura e seu amor desabrochante.
Convivendo com os convertidos juvenis, parecerá estarmos num jardim de flores,
num vinhedo onde as uvas tenras são perfumadas.
Capítulo 4: O pastor das crianças
Simão Pedro não era galês, mas
tinha muito do que chamamos de fogo galês dentro de si. Era exatamente o tipo
de homem que a criançada achava interessante. As crianças acham o máximo
reunir-se em volta de um fogo, seja na lareira ou no coração. Certas pessoas
parecem ser formadas de gelo, e dessas crianças logo fogem: as congregações ou
classes se tornam menores a cada domingo quando criaturas frias e insensíveis
têm a autoridade sobre eles. Mas quando um homem ou mulher tem um coração
bondoso, as crianças parecem se reunir prontamente, como moscas em dias de
outono se agregam num muro quente ensolarado. Por isso, Jesus diz a Simão, o de
coração caloroso: "Cuide de meus cordeiros." Ele é o homem para a
posição.
Simão Pedro era, além disso, um
homem experimentado. Conheceu sua própria fraqueza; tinha sentido as pontadas
de consciência; tinha pecado muito e sido muito perdoado, e agora foi levado em
terna humildade a confessar o amor e amabilidade de Jesus. Queremos homens e
mulheres experimentados para falar com crianças convertidas, e para contar-lhes
o que o Senhor já fez por eles, e quais foram seus perigos, seus pecados, suas
tristezas e seus consolos. Os novos se alegram ao ouvir a história daqueles que
já foram mais longe na estrada do que eles. Posso dizer dos santos
experimentados: seus lábios guardam conhecimento. A experiência contada com
amor é alimento apropriado para jovens crentes, instrução que o Senhor
certamente abençoará na nutrição deles na graça.
Simão Pedro era agora um grande
devedor. Devia muito a Jesus Cristo, de acordo com aquela regra do reino — ama
muito aquele a quem muito foi perdoado. Ah, você que nunca entrou nesse
trabalho para Cristo, mas realmente poderia fazê-lo bem, apresente-se
imediatamente e diga: "Eu deixei esse trabalho para mãos mais jovens, mas
não farei mais isso. Eu tenho experiência e confio que ainda tenha um coração
quente em meu peito. Irei e me unirei a esses trabalhadores que estão ocupados
com a alimentação dos cordeiros em nome do Senhor."
Quando o Senhor chama um homem
para um trabalho, ele lhe dá o preparo necessário para isso. Como Pedro foi
preparado para alimentar os cordeiros de Cristo? Primeiro, sendo alimentado
ele mesmo. O Senhor lhe deu uma alimentação antes de lhe dar uma comissão.
Você não pode alimentar cordeiros, nem ovelhas, a não ser que tenha sido
alimentado. É muito certo você estar ocupado instruindo em grande parte do dia
do Senhor; mas um professor é muito insensato se não for ouvir o evangelho
pregado e receber uma refeição para sua própria alma. Primeiro, deve ser
alimentado e depois alimentar.
Mas Pedro foi especialmente
preparado para alimentar os cordeiros por estar com seu Mestre. Ele
nunca haveria de esquecer aquela manhã e todos os detalhes que aconteceram. Foi
a voz de Cristo que ele ouviu; foi o olhar de Cristo que o atingiu no coração;
ele respirou o ar que envolveu o Senhor ressuscitado, e essa comunhão com Jesus
perfumou o coração de Pedro e afinou a sua fala para que pudesse sair e
alimentar os cordeiros. Eu lhes recomendo o estudo de livros instrutivos, mas,
sobretudo, lhes recomendo o estudo de Cristo. Que ele seja sua biblioteca.
Chegue pertinho de Jesus. Uma hora de comunhão com Jesus é o melhor preparo
para lecionar os novos ou os velhos.
Pedro também foi preparado de um
modo mais doloroso do que esse, isto é, pelo auto-exame. A pergunta lhe veio
três vezes seguidas: "Simão, filho de Jonas, tu me amas? Tu me amas? Tu me
amas?" Muitas vezes, o recipiente precisa de ser areado com auto-exame
antes que o Senhor possa usá-lo adequadamente para levar a água viva a
sedentos. Nunca faz mal a um homem de coração sincero examinar seu próprio
espírito, e ser sondado e experimentado por seu Senhor. É o hipócrita que teme
a verdade que testa sua profissão; ele receia falas e meditações importunas;
mas o homem genuíno quer saber com toda certeza que ele realmente ama Cristo, e
por isso examina o seu interior e interroga e testa a si mesmo.
Esse exame deve ser exercitado
principalmente com respeito ao nosso amor; pois o melhor preparo para ensinar
os cordeiros de Cristo é o amor — amor por Jesus e por eles. Não podemos ser
sacerdotes a seu favor a não ser que, como Arão, usemos seus nomes sobre nosso
peito. Precisamos amar ou então não podemos abençoar. Ensinar é trabalho
mal-feito quando o amor se vai; é como um ferreiro trabalhando sem fogo, ou um
construtor sem argamassa. Um pastor que não ama suas ovelhas é um mercenário e
não um pastor; fugirá na hora do perigo e deixará seu rebanho para o lobo.
Quando não há amor não há vida; cordeiros vivos não podem ser alimentados por
homens mortos. Pregamos e ensinamos o amor: nosso assunto é o amor de Deus em
Cristo Jesus. Como podemos ensinar isso se nós não temos amor? Nosso alvo é
criar amor no coração daqueles que ensinamos, e nutri-lo onde já existe; mas
como podemos transmitir o fogo se não está aceso em nosso próprio coração? Como
pode nutrir a chama aquele que tem mãos úmidas, gotejando de mundanismo e
indiferença, de modo que age no coração da criança mais como um balde de água
do que como uma chama de fogo? Esses cordeiros do rebanho vivem no amor de
Cristo: não vão viver em nosso amor? Ele os chama seus cordeiros, e eles o são;
será que nós não os amaremos por amor a ele? Foram escolhidos em amor; foram
redimidos em amor; foram chamados em amor; foram lavados em amor; foram
alimentados com amor, e serão guardados por amor até que cheguem aos pastos
verdes do alto dos morros no céu. Você e eu estaremos fora de sintonia com o
vasto maquinário do amor divino a não ser que nossa alma esteja cheia do zelo
afetuoso para com o bem dos amados. O amor é o maior preparo para o ministério,
quer seja exercitado na congregação ou na classe. Ame, e depois alimente. Se
você ama, alimente. Se não ama, então, aguarde até que o Senhor lhe tenha
vivificado, e não use sua mão não santificada nesse trabalho sagrado.
Com os fracos do rebanho, com os
novos convertidos do rebanho, com as criancinhas do rebanho, nossa principal
atividade é alimentar. Cada sermão, cada lição, deverá ser um sermão que
alimente, e uma lição que alimente. Pouco adianta ficar à frente de todos e bater
na Bíblia e exclamar "Acredite, acredite, acredite!", quando ninguém
sabe o que é para ser acreditado. Não vejo utilidade nenhuma em violinos e
tamborins, pois nem cordeiros nem ovelhas podem ser nutridos com orquestras de
instrumentos de metal. Deve haver doutrina, doutrina sólida, sadia, evangélica
para ser alimento de verdade. Quando tiver um pernil na mesa, então, deve
chamar todos para a refeição com a sineta; mas essa sineta não alimenta ninguém
se a comida não for servida. Conseguir que as crianças se reúnam pela manhã e
pela tarde é um desperdício dos pés delas e dos seus se você não colocar diante
delas a verdade salvadora e sustentadora de almas. Alimente os cordeiros; você
não precisa tocar flauta para eles, nem pôr guirlandas em seu pescoço; mas
alimente-os.
Dar esse alimento é trabalho
humilde, despretensioso, sem ostentação. Você conhece o nome de algum pastor de
ovelhas? Posso até conhecer uma ou duas pessoas que seguem essa vocação, mas
nunca ouvi ninguém falar deles como sendo grandes homens; seus nomes não estão
nos jornais, nem ouvimos falar deles como profissionais que entram na justiça
com uma queixa, reivindicando leis para que sejam notados. Os pastores são
geralmente pessoas quietas, discretas. Ao vermos um pastor, não percebemos diferença
entre ele e um lavrador. Ele caminha sem reclamar durante todo o inverno e, no
começo da primavera, não descansa nem de dia nem de noite porque os
carneirinhos precisam dele; isso acontece ano após ano, mas ele nunca ganhará
uma "insígnia imperial", nem será elevado à nobreza, embora possa ter
feito um trabalho bem mais útil do que aqueles que entram flutuando para altos
postos sobre seus próprios barris de chopes. Então, no caso de muito professor
fiel de criancinhas, ouve-se pouco sobre ele, mas ele faz uma grande obra pela
qual os tempos futuros o chamarão de bem-aventurado. Seu Mestre conhece tudo a
seu respeito, e naquele dia futuro ouviremos falar dele; talvez não antes.
É trabalho cuidadoso,
também, alimentar os cordeiros, pois eles não podem comer qualquer coisa,
especialmente os cordeiros de Cristo. É perigoso transmitir um ensino ruim que
quase envenena os pequenos crentes. Se os homens devem dar atenção ao que
ouvem, devemos cuidar mais daquilo que nós ensinamos. É um trabalho cuidadoso alimentar
cada cordeiro separadamente, e ensinar a cada criança a verdade que ela está
mais apta a receber.
Além disso, é trabalho contínuo.
"Alimente meus cordeiros" não é uma tarefa para uma temporada, e sim
para sempre. Os cordeiros não poderiam viver se o pastor só lhes alimentasse
uma vez por semana. Creio que morreriam entre um domingo e outro; portanto, os
bons professores dos jovenzinhos cuidam deles todos os dias da semana conforme
têm oportunidade, e cuidam de suas almas com oração e exemplo santo quando não
os estão ensinando com a palavra falada. O pastoreio de carneirinhos é trabalho
de todo dia, toda hora. Quando o trabalho de um pastor termina? Quantas horas
por dia ele trabalha? Ele lhe dirá que no tempo em que as ovelhas dão cria ele
nunca termina. Ele dorme quando pode e logo desperta para agir. É assim com
aqueles que alimentam os cordeiros de Cristo; eles não descansam até que Deus
salve e santifique seus caros cordeirinhos.
É também um trabalho árduo, e quem
não se empenha nele terá uma conta terrível a acertar. Você pensa que a vida de
um ministro é fácil? Eu lhe digo que aquele que a torna fácil, a achará
bastante dura quando chegar a morte. Nada deixa um homem mais cansado do que o
cuidado de almas; assim é em parte com todos que ensinam — não podem fazê-lo
bem sem se entregar. A pessoa precisa estudar a lição; precisa trazer algo com
carinho para sua classe: precisa instruir-se. Muitas vezes, somos bastante
pressionados para encontrar assunto, e queremos saber como vamos conseguir
passar pelo próximo dia do Senhor. Ninguém ousa correr para sua classe
despreparado e oferecer ao Senhor aquilo que não lhe custou nada. Precisa haver
trabalho se o alimento deve ser colocado sabiamente diante dos cordeiros, para
que possam recebê-lo.
E tudo isso tem de ser feito com
um espírito excelente; o verdadeiro pastor é uma amálgama de muitas graças
preciosas. Ele é caloroso com zelo, mas não é inflamado com paixão; é bondoso,
contudo, governa sua classe; ele é amoroso, mas não fecha os olhos numa piscada
ao pecado; tem poder sobre os cordeiros, mas não é imperioso nem sarcástico;
tem bom humor, mas não frivolidade; liberdade, mas não licenciosidade;
seriedade, mas não cara fechada. Quem cuida dos cordeiros também deve ser um
cordeiro; e bendito seja Deus, há um cordeiro diante do trono que cuida de
todos nós, e que faz isso com mais eficácia porque ele é em todas as coisas
feito como nós. O espírito pastoral é um dom raro e inestimável. Um pastor
bem-sucedido ou um mestre bem-sucedido em uma escola revelará ter
características especiais que o distinguem de seus pares. Um pássaro que está
sentado sobre seus ovinhos, ou quando as avezinhas acabam de sair da casca, tem
ali um espírito maternal, de modo que dedica toda sua vida à alimentação dos
pequeninos; outros pássaros podem estar achando prazer no vôo, mas este
passarinho se senta quietinho durante todo o dia e a noite e então seus únicos
vôos são para providenciar alimento para os bicos abertos que parecem nunca se
fartar. Uma paixão tomou conta do pássaro; e algo assim acontece com o
verdadeiro ganhador de almas — ele morreria alegremente para ganhar almas; ele
se consome, suplica, labuta para abençoar aqueles nos quais pôs seu coração. Se
esses podem pelo menos ser salvos, ele empenharia a metade de seu céu por isso;
sim, e às vezes em momentos de entusiasmo ele está disposto a trocar o céu
completamente por almas ganhas e, como Paulo, poderia se desejar maldito,
apenas para que eles fossem salvos. Muitos podem não entender essa bendita
extravagância porque nunca a sentiram; possa o Espírito Santo trabalhar isso em
nós para que atuemos como pastores verdadeiros pelos cordeiros. Este, então, é
o trabalho: "Alimente meus cordeiros".
Nota do editor
O próximo capítulo traz uma certa
surpresa, dentro do argumento geral do livro que tanto enfatiza a necessidade
de se compartilhar do evangelho com crianças, isto é, que "as crianças que
morrem na infância são salvas pela eleição da graça." Ainda que muitos
tenham grande simpatia por essa idéia de salvação de crianças que morrem na
infância, é necessário dizer que esta é uma doutrina obscura, sem fundamentos
bíblicos.
É importante notar que a Bíblia
diz que todos, sem exceção, já nascem condenados pelo pecado, portanto, todos
são passíveis de morte (Rm 5.12ss). "Pois o salário do pecado é a
morte" (Rm 6.23). A única solução que temos para resolver este problema de
inimizade contra Deus é Jesus Cristo, pela fé, sem qualquer mérito de nossa
parte (Rm 12.23, Ef 2.8-9). Jesus é "o caminho, a verdade e a vida."
Ninguém vai ao Pai, a não ser por ele (Jo 14.6). Se existissem outros caminhos,
então Jesus não precisaria ter sofrido na cruz. Por isso, não podemos criar
caminhos alternativos, porque isso inutilizaria a obra substitutiva da cruz.
Isso não faz de Deus um ser cruel nem injusto. Mas demonstra claramente a
seriedade do pecado e sua necessidade de condenação. Mais uma boa razão e
urgência para proclamarmos as Boas Novas do Evangelho.
É sem sombra de dúvida que morte
de crianças na infância ou de pessoas com doenças mentais apresenta para muitos
de nós um grande paradoxo. Nem por isso, nos é dada a liberdade de recorrermos
a idéias contrarias à Bíblia para apaziguarmos nossas consciências. O fato é
que nascemos já condenados, por causa do pecado original, e a salvação é um ato
gracioso de Deus, pela fé em Cristo, totalmente imerecido da nossa parte. Além
do mais, a incoerência dessa doutrina levaria os cristãos a darem glória a
Deus, quando os índices de imortalidade infantil demonstrassem crescimento, uma
vez que as crianças estão salvas mesmo, o que é um verdadeiro absurdo.
Por fim, Spurgeon ainda assim tem
a seu favor o fato de que ele acredita que essas crianças foram salvas pela
graça soberana e livre de Deus (p. 41); não foi nem por inocência natural, nem
por falta de pecado, pois compartilham da mesma natureza decaída de Adão (p.
41). E se foram salvas, foi pela justiça imputada de Cristo, não delas
próprias. Ou seja, ao contrário de muitos e por mais contraditório e errado que
seja seu argumento, ele ainda afirma que todos, indiscriminadamente, precisam
depender da justiça de Jesus Cristo, da regeneração do Espírito e da graça e
amor de Deus, se querem herdar a vida eterna.
Capítulo 5: Dos tais é o reino do
céu
Nosso Senhor conta aos discípulos
que o evangelho estabelece um reino. Será que já existiu um reino sem crianças?
Nesse caso, como poderia crescer? Jesus nos diz que as crianças são admitidas
no reino; não que alguns poucos sejam aqui e ali admitidos nele, mas "dos
tais é o reino de Deus". Não me inclino a fugir do sentido claro dessa
expressão, nem a sugerir que ele meramente diga que o reino consiste daqueles
que são como crianças. É claro que ele apontava tais crianças como aquelas que
estavam na frente dele--bebês e crianças pequenas--"dos tais é o reino de
Deus". Há crianças em todos os reinos, e há crianças no reino de Cristo; e
não garanto que João Newton não tenha tido razão quando disse que a maioria das
pessoas que estão agora no reino de Deus é criança. Quando penso em todas as
multidões de bebês que morreram, que agora estão apinhando as ruas do céu,
parece-me uma idéia bendita que, embora muitas gerações de adultos tenham
morrido na incredulidade e rebelião, um número grande de crianças passa subindo
ao céu, salvas pela graça de Deus, através da morte de Cristo, para cantar os
altos louvores do Senhor para sempre diante do trono eterno. "Dos tais é o
reino do céu". Isso dá um tom e um caráter ao reino; é mais um reino de
crianças do que de homens feitos.
Nosso Senhor nos diz que o meio de
entrar no reino é recebendo. "Quem não receber o reino de Deus como uma
criança, nunca entrará nele." Nós não entramos no reino de Deus resolvendo
algum problema profundo e chegando à sua solução; nem extraindo de dentro de
nós alguma coisa, mas sim, recebendo algo secreto para dentro de nós. Entramos
no reino por meio do reino entrar em nós: ele nos recebe uma vez que o
recebemos. Ora, se essa entrada no reino dependesse de algo ser extraído da
mente humana através de estudo e pensamento profundo, então, poucas crianças poderiam
entrar nele; porém, essa entrada depende de algo ser recebido, portanto, as
crianças podem entrar. As crianças que já têm idade para pecar, e serem salvas
pela fé, precisam escutar o evangelho e recebê-lo pela fé: e elas podem fazer
isso, com Deus, o Espírito Santo as ajudando. Não há dúvida sobre isso porque
muitos já o fizeram. As crianças são capazes de receber o conhecimento de
Cristo muito mais cedo do que se imagina; temos visto e conhecido crianças que
deram abundante prova de que receberam Cristo e creram nele com poucos anos de
idade. Algumas morreram triunfantemente, e outras viveram graciosamente, e
algumas estão aqui agora, crescidas para serem homens e mulheres que são
honrosos membros da igreja.
Nós sabemos que infantes entram no
reino, pois estamos convencidos de que todos da nossa raça humana que morrem na
infância são incluídos na eleição da graça e participam da redenção efetuada
por nosso Senhor Jesus. Seja o que for que alguns pensam, todo o espírito e tom
da Palavra de Deus, bem como a natureza do Próprio Deus, levam-nos a crer que
todos os que deixam este mundo como bebês são salvos. Ora, como é que eles
recebem o reino, pois de igual modo nós precisamos recebê-lo? Certamente, as
crianças não o recebem por nascimento ou sangue, pois nós somos avisados pelo
evangelho de João que os filhos de Deus são nascidos não de sangue nem da
vontade da carne. Todo privilégio de descendência agora é abolido, e nenhum
bebê entra no céu porque nasceu de pais piedosos e também nenhum será barrado por
seus progenitores terem sido ateus ou idólatras. Parece-nos que o filho de um
maometano, ou de um papista, budista, canibal, morrendo na infância, é tão
seguramente salvo como o filho do cristão. Salvação por sangue ou nascimento
não pode haver, porque a dispensação do evangelho não o admite: se salvos, como
nós seguramente cremos que são, as crianças devem ser salvas simplesmente
segundo a vontade e o prazer de Deus porque ele os fez para serem seus.
As crianças que morrem na infância
na China e no Japão são tão verdadeiramente salvas como as que morrem na
Inglaterra ou Escócia. Bebês de mães morenas, ou nascidos numa aldeia africana
ou na barraca cônica do índio americano, todos são igualmente salvos, e,
portanto, não são salvos por qualquer rito exterior, nem pelo poder místico de
um sacerdócio. São elevados ao reino do céu pela graça soberana e livre de
Deus. Como são salvos, então? Por obras? Não, pois nunca fizeram nenhuma. Pela
sua inocência natural? Não; pois se essa inocência pudesse lhes ter admitido no
céu, também teria bastado para salvá-las de dor e morte. Se não há pecado sobre
elas, como é que puderam sofrer? O pecado imputado que as faz morrer impede-nos
de crer que elas reivindicaram o céu por direito de inocência. Elas morreram
por causa da queda de Adão. Triste conseqüência por terem nascido de pais
decaídos. Note seus olhares de apelo quando os pequeninos olham para cima em
seu sofrimento como se quisessem perguntar por que precisam suportar tanta dor.
A angústia do pequenino moribundo é uma prova da queda de Adão, e de sua
participação no resultado dela. Os pobrezinhos vivem novamente, no entanto,
porque Jesus morreu e reviveu, e eles estão nele. Perecem, quanto a essa vida,
por um pecado que não cometeram; mas também vivem eternamente por uma justiça
da qual não participaram, a própria justiça de Jesus Cristo, que os redimiu.
Pouco sabemos sobre isso, mas supomos que passaram por uma regeneração antes de
entrarem no céu, pois o que nasce da carne é carne, e para entrar no mundo
espiritual eles precisam ser nascidos do Espírito. Mas o que quer que tenha se
operado neles, é claro que eles não entram no reino pela força do intelecto, da
vontade ou do mérito, e sim por resultado da livre graça, não tendo referência
a nada que tenham feito ou sentido. Da mesma maneira, você precisa passar para
o reino inteiramente pela livre graça, e não por qualquer poder ou mérito
próprio. Você entrará no céu tão plenamente pela graça como se nunca tivesse
vivido uma vida piedosa, nem praticado uma só virtude.
Agora temos que pensar em outra
sorte de crianças, aquelas que viveram mais do que o tempo da infância e se
tornaram crianças capazes de verdadeiro pecado, e de conhecer Cristo e serem
convertidas. Muitas dessas crianças entram no reino pela fé. Como essas
crianças recebem o reino do céu, nós precisamos recebê-las. E como as crianças
o recebem? Uma criança recebe o evangelho com humildade, com fé simples e com
desapego às coisas mundanas. As crianças não nos são mostradas como um exemplo
em todas as coisas, pois elas têm faltas que nós devemos evitar, mas são aqui
louvadas pelo modo como recebem o reino. E como uma criança o recebe? Primeiro,
com humildade. Ela é suficientemente humilde para não ter preconceito. Conte
para uma criança pequena a respeito de Jesus Cristo, o Salvador, e se Deus
abençoar o contar da história da cruz, e ela acreditar na história, ela a
recebe sem ter pontos de vista e noções erradas para revidar. Muitos adultos
ouvem o evangelho com a idéia de que Cristo é meramente um homem; não conseguem
livrar sua mente desse preconceito, e por isso não recebem Jesus Cristo, o
Senhor. Outro ouve a palavra com a lembrança de tudo que ouviu e leu sobre
infidelidade, heresia e imprecações. Como pode ele aproveitar até que isso seja
removido? Outro vem com a mente estufada com justiça própria e orgulho, com
crença em poder sacerdotal, ou dependência de alguma ordem formal ou rito
religioso. Se pudéssemos tirar as travas da alma, haveria alguma esperança, mas
tudo isso é empecilho. Ora, a querida criança, quando escuta a história do amor
de Deus em Cristo Jesus não tem nenhum desses preconceitos para atrapalhar o
que ouve. Muito provavelmente nem sabe que tais males foram inventados pelo
homem, e é abençoado em sua ignorância dessas coisas. Descobrirá o mal sem
dúvida já cedo demais; mas por enquanto ela bebe a palavra humildemente, e ora:
Meigo Jesus, manso e suave,
Eu sou pequeno! Olhe-me.
Simples sou, tenha piedade
E deixe que eu me chegue a ti.
Ora, esse livramento de noções preconcebidas é algo de que nós precisamos muito. Assim como seus filhos precisam crer, também você precisa. Só há um caminho para o pastor e o sábio, o filósofo e o camponês. A criancinha recebe Cristo humildemente, pois nunca sonha com mérito ou compra. Não me recordo de ter algum dia encontrado uma criança que tivesse de batalhar contra a justiça própria na hora de vir a Cristo.
Capítulo 6: Como uma criancinha
(Lucas 18.17)
Quando nosso Senhor abençoou as
crianças, ele estava fazendo sua última viagem a Jerusalém. Foi, portanto, uma
bênção de despedida o que ele deu aos pequenos, e dentre suas últimas palavras
a seus discípulos, antes de ser levado para o céu, nós encontramos a ordem
terna: "Cuide dos meus cordeiros." A paixão reinante estava forte
sobre o grande Pastor de Israel, que "Com o braço ajunta os cordeiros e os
carrega no colo"; e foi apropriado que, enquanto fazia sua viagem de
despedida, abençoasse com sua graça as crianças.
Nosso Senhor Jesus Cristo não está
entre nós em pessoa, mas nós sabemos onde ele está, e sabemos que ele é
investido de todo o poder no céu e na Terra para abençoar seu povo;
acheguemo-nos, então, a ele. Vamos buscar que ele nos toque na forma de
comunhão, e vamos pedir o auxílio de sua intercessão; vamos incluir outras
pessoas em nossas orações e, dentre elas, vamos dar a nossas crianças, a todas
as crianças, um lugar proeminente. Conhecemos mais sobre Jesus do que as
mulheres da Palestina conheciam; estejamos nós, então, mais ansiosos ainda do
que elas para levar nossas crianças a ele para que as abençoe, e para que sejam
aceitas nele, assim como nós mesmos somos. Jesus aguarda abençoar. Ele não
mudou no caráter, nem empobreceu na graça; pois assim como ele ainda recebe
pecadores, assim também ele ainda abençoa crianças; e que nenhum de nós se contente,
quer sejamos pais ou professores, antes de ele ter recebido nossas crianças, e
as ter abençoado de tal modo que tenhamos certeza de que elas entraram no reino
de Deus.
Nosso Salvador, quando viu que
seus discípulos não estavam só com um pé atrás para deixar as crianças chegarem
até ele, mas que repreenderam aqueles que as levavam, ficou muito descontente,
e chamou-as para si para que as pudesse ensinar melhor. Então, informou que, em
lugar das crianças serem vistas como intrusas, eram bem-vindas a ele; e em
lugar de serem intrusas, tinham pleno direito de acesso, pois o seu reino era
composto de crianças e de pessoas com espírito de criança. E mais, declarou que
ninguém pode entrar naquele reino a não ser como as crianças entram. Ele falou
com certeza divina, usando o seu expressivo "Em verdade vos digo"
(ara) ou "Digo-lhes a verdade" (nvi), em que há o peso de sua
autoridade pessoal: "Eu vos digo." Essas expressões de introdução
visam apontar nossa reverente atenção ao fato de que, longe da admissão de
crianças ao reino ser incomum ou estranha, ninguém pode achar entrada ali a não
ser que receba o evangelho como uma criança pequena o recebe.
É até óbvio que os discípulos
pensassem que as crianças eram insignificantes demais para ocuparem o tempo do Senhor.
Se tivesse sido um príncipe que quisesse chegar a Jesus, sem dúvida, Pedro e os
outros teriam se movimentado para lhe conseguir uma apresentação; mas, vejam,
eram mulheres pobres, com bebês, e meninos, e meninas. Se tivesse sido uma
pessoa comum como eles, não os teriam impedido com repreensões. Mas meras
crianças! Bebês nem desma-mados e criancinhas! Ficava mal estarem se
intrometendo com o grande Mestre. Uma palavra é usada com respeito aos
candidatos infantis que pode significar crianças de qualquer idade, desde os
bebês que mamam até as crianças de 12 anos; certamente Jesus tinha suficiente
preocupação sem a intrusão desses juvenis. Ele tinha os mais altos assuntos em
que pensar, e cuidados mais sérios. As menores eram tão pequeninas, com certeza
estavam bem longe das atenções dele - assim os discípulos pensavam em seus
corações.
Mas se for questão de
insignificância, quem pode esperar obter a atenção divina? Se pensamos que as
crianças devem ser pequenas à sua vista, o que somos nós? Ele vê as ilhas como
coisas muito pequenas; os habitantes da Terra são como gafanhotos; sim, somos
todos como coisas que nada são. Se fôssemos humildes, diríamos: "Senhor,
que é o homem para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com
ele te preocupes?" (Sl 8.4). Se imaginamos que o Senhor não notará o
pequeno e insignificante, o que achamos nós de um texto como este: "Não se
vendem dois pardais por uma moedinha? Contudo, nenhum deles cai no chão sem o
consentimento do Pai de vocês" (Mt 10.29). Deus cuida de pardais e não
cuidará de criancinhas? A idéia de insigni-ficância deve ser afastada
imediatamente. "Embora esteja nas alturas, o Senhor olha para os
humildes" (Sl 138.6).
Mas será que as criancinhas são
tão insignificantes? Elas não povoam o céu? A sua convicção não é essa? A minha
é - que eles constituem uma parte considerável da população dos céus. Multidões
de pés infantis estão pisando as ruas da Nova Jerusalém. Tirados do peito antes
que tivessem cometido qualquer pecado real, livrados da peregrinação árdua da
vida, eles contemplam sempre a face de nosso Pai que está no céu. "Dos
tais é o reino de Deus." Você chama esses pequenos de insignificantes? Os
pequeninos, os mais numerosos no exército dos eleitos, você ousa desprezá-los?
Eu poderia trocar as coisas, e chamar os adultos de insigni-ficantes, entre os
quais não se pode achar mais do que um pequeno remanescente que serve ao
Senhor. Além disso, muitas crianças são poupadas para crescerem à situação de
homem, e por isso nós precisamos não achar uma criança insignificante. Ele é o
pai do homem. Nele há grandes possibilidades e capacidades. Sua virilidade está
ainda por se desenvolver, mas está lá, e aquele que a menospreza prejudica o
homem. Aquele que põe uma tentação na mente de um menino pode destruir a alma
de um homem.
Um erro mínimo injetado no ouvido
de um jovem pode se tornar mortal no homem quando o veneno lento tiver tocado
por fim uma parte vital. Mato semeado nos sulcos da infância crescerá com o
crescer do jovem, amadurecerá na sua plenitude, e só se deteriorará como uma
triste corrupção quando ele próprio decai. Por outro lado, uma verdade que cai
no coração de uma criança ali frutificará, e sua idade adulta verá o fruto
dela. Aquela criança que escuta na aula a voz suave de seu professor ou de sua
professora pode ao se desenvolver tornar-se um Lutero e sacudir o mundo com sua
veemente proclamação da verdade. Quem dentre nós poderá dizer? Em todo caso,
com a verdade em seu coração, o menino crescerá para honrar e temer o Senhor, e
assim ajudará a manter viva a semente piedosa nesses dias ruins. Portanto, que
nenhum homem despreze os mais jovens, ou pense que são insignificantes. Eu
reivindico um lugar na frente para eles. Peço que, se outros são mantidos para
trás, que a própria fraqueza de quem faz isso possa abrir lugar para as
crianças, lugar para os meninos e as meninas!
Suponho que esses apóstolos
adultos acharam que a mente das crianças eram insignificantes demais. Elas
estão brincando e rindo; acharão ser só mais um passatempo ser recebidas nos
abraços de Jesus; será divertido para elas, e não terão idéia nenhuma da
solenidade de sua posição. Insignificante, então? Critica-se que as crianças
são frívolas! E vocês não são também frívolos? Se há um exame sobre a questão
de frivolidades, quem são os maiores frívolos, as crianças ou os homens e as
mulheres de idade adulta? O que é mais frívolo do que um homem viver pelo
divertimento de prazeres sensuais, ou a mulher viver para se vestir e
desperdiçar seu tempo na sociedade? Ora, mais ainda, o que é o acúmulo de
riqueza por amor à riqueza a não ser uma frivolidade miserável? Será que é
brincadeira de criança, mas sem o divertimento?!
A maioria dos homens é frívola
numa escala maior do que as crianças, e essa é a diferença principal. As
crianças quando são frívolas brincam com coisas pequenas - seus brinquedos são
tão quebráveis! Não são mesmo feitos de propósito para servirem de passatempo e
serem quebrados? A criança com seus passatempos está fazendo o que deve. Mas,
tristemente, eu conheço homens e mulheres que brincam frivolamente com suas
almas, com o céu e o inferno e a eternidade; brincam com a Palavra de Deus,
brincam com o Filho de Deus, brincam com o próprio Deus! Não acuse as crianças
de serem frívolas, porque seus joguinhos muitas vezes têm outro tanto de
sinceridade e são tão úteis quanto as atividades de homens. A metade dos
concílios de nossos senadores e os debates de nossos parla-mentares são piores
do que brincadeira de crianças. O jogo de guerra é uma tolice muitíssimo maior
do que as mais frívolas brincadeiras de crianças. As crianças grandes são
piores para frivolidades do que as pequenas quando o mundo todo está absorto em
coisas frívolas.
"Sim", dizem eles,
"mas se deixássemos as crianças chegarem a Cristo, e se ele as abençoasse,
elas logo se esque-ceriam disso. Por mais amoroso que fosse o olhar dele e
espirituais as suas palavras, voltariam a suas brincadeiras, e suas fracas
memórias não guardariam traço nenhum disso". Essa objeção nós enfrentamos
da mesma maneira que as outras. Os homens não esquecem? Que geração esquecida é
essa para a qual a maioria dos pregadores prega! Na verdade, esta é uma geração
como aquela sobre a qual Isaías disse: "Ordem sobre ordem, ordem sobre
ordem; regra e mais regra; um pouco aqui, um pouco ali" (Is 28.10). Que
pena! Muitos necessitam que o evangelho lhes seja pregado outra e outra e mais
outra vez, até que o pregador esteja quase extenuado com sua tarefa desesperançada;
pois são como homens que vêem seu rosto num espelho, e seguem seu caminho para
esquecer que tipo de homens são. Vivem em pecado ainda. A Palavra não tem lugar
para habitar em seu coração. Esquecimento! Não faça essa acusação contra as
crianças para que ela não seja provada contra vocês.
Mas será que os pequenos esquecem?
Eu acho que os acontecimentos dos quais mais lembramos na idade avançada são os
que nos aconteceram em nossos primeiros tempos. Já dei a mão para homens
grisalhos que já esqueceram quase todos os acontecimentos que intervieram entre
sua idade avançada e o tempo de sua infância, mas pequenas coisas que se deram
em casa, hinos aprendidos ao pé de sua mãe, e palavras ditas por seu pai ou sua
irmã, ficaram com eles. As vozes da infância ecoam durante toda a vida. O que
foi aprendido primeiro é, em geral, a última coisa a ser esquecida. Aquelas
crianças teriam o rosto de Jesus gravado em seu coração, e nunca se esqueceriam
de seu sorriso bondoso e terno. Pedro, Tiago e João, e o restante de vocês,
estão enganados, e por isso precisam deixar as crianças virem a Jesus.
Talvez, também, eles tenham achado
que as crianças não tinham capacidade suficiente. Jesus Cristo disse coisas tão
maravilhosas que se pensava que as crianças não tivessem capacidade de
recebê-las. Contudo, na verdade, esse é um grande erro, pois as crianças entram
prontamente no sentido do ensino do nosso Senhor. Nunca aprendem a ler tão
rapidamente de nenhum livro como do Novo Testamento. As palavras de Jesus são
tão simples e adequadas às crianças que elas as absorvem melhor do que as
palavras de qualquer outro homem, por mais simples que ele esteja tentando ser.
As crianças compreendem prontamente a criança Jesus. O que é essa questão de
capacidade? Que capacidade falta? Capacidade de crer? Eu lhes digo, as crianças
têm mais disso do que pessoas adultas. Não falo agora da parte espiritual da
fé, mas quanto à faculdade mental, há qualquer quantidade da capacidade de fé
no coração de uma criança. Sua capacidade de crer não foi ainda sobrecarregada
com superstição, nem pervertida com mentiras, nem mutilada com descrença. É só
deixar o Espírito Santo consagrar a habilidade, e há bastante dela para a
produção de fé abundante em Deus.
A respeito de que as crianças são
deficientes em capacidade? Falta-lhes capacidade de arrependimento? Certamente
não; será que eu não vi uma menina chorar até ficar doente por ter feito algo
mau? Uma consciência sensível em muitos garotinhos já os têm enchido de
tristeza indizível quando tomaram consciência de uma falta. Será que alguns de
nós não lembramos das flechas doídas de convicção de pecado que amolavam nosso
coração quando éramos ainda crianças? Eu me lembro bem de uma vez que não pude
descansar por causa de um pecado, e busquei o Senhor, enquanto ainda criança,
com angústia amarga. As crianças têm capacidade suficiente para o
arrependimento, com Deus o Espírito Santo trabalhando neles; isso não é
conjectura, pois nós mesmos somos testemunhas vivas.
O que falta às crianças em matéria
de capacidade? "Ora, elas não têm entendimento suficiente", diz
alguém. Entendimento de quê? Se a religião de Jesus fosse a do pensamento
moderno, se fosse algum sem-senso sublime que ninguém a não ser a classe dos
cultos pudesse entender, então as crianças poderiam ser incapazes de
compreender; mas se é mesmo o evangelho da Bíblia do leitor comum, então há
poças rasas onde o menor carneirinho do aprisco de Jesus pode andar na água sem
medo de ser derrubado pela correnteza. É verdade que nas Escrituras há grandes
mistérios, em que os maiores podem mergulhar e não encontrar o fundo; mas o
conhecimento dessas coisas profundas não é essencial para a salvação, ou poucos
de nós estaríamos salvos. As coisas que são essenciais à salvação são tão
simples que nenhuma criança precisa desistir por desespero de não entender as
coisas que contribuem para sua paz. Cristo crucificado não é um enigma para os
sábios, e sim uma verdade simples para pessoas simples: sim, é carne para os
homens, mas é também leite para os bebês.
Você disse que as crianças não
sabem amar? Essa, afinal, é uma das mais grandiosas partes da educação de um
cristão. Você imaginou que as crianças não pudessem chegar lá? Não, você não
disse isso, nem ousou pensá-lo, pois a capacidade de amar é maior numa criança.
Bom seria se fosse sempre tão grande assim em nós!
Para resumir os pensamentos dos
apóstolos em uma ou duas palavras: eles acharam que as crianças não deveriam
aproximar-se de Cristo porque não eram como eles--não eram homens e mulheres
feitos. Uma criança não era suficientemente grande, alta, crescida, importante,
para ser abençoada por Jesus! Foi mais ou menos o que pensaram. A criança não
deve chegar ao Mestre porque não é como o homem. Mas o Salvador bendito
inverteu a situação e disse: "Não diga que a criança não pode vir ao
Mestre porque não é como o homem, mas saiba que você não pode vir até
que você seja como ela. Não há dificuldade no caminho da criança por ela não
ser como você; a dificuldade está com você, que não é como a criança." Em
vez de a criança precisar esperar até crescer e se tornar homem, é o homem que
precisa decrescer e tornar-se criança. "Quem não receber o reino de Deus
como uma criança, não entrará nele." As palavras do Senhor são uma
resposta completa e suficiente aos pensamentos dos discípulos, e que possa cada
um de nós ao lê-las aprender sabedoria. Não digamos: "Ah, que minha
criança se torne adulta como eu para que possa chegar a Cristo!", mas, ao
contrário, que nós quase desejássemos ser criancinhas de novo, que conseguíssemos
esquecer muito do que sabemos hoje, fôssemos lavados de hábitos e preconceitos,
e pudéssemos começar de novo com o viço, a simplicidade e o entusiasmo de uma
criança. Ao orarmos por meninice espiritual, a Bíblia coloca seu selo na
oração, porque está escrito: "Ninguém pode ver o reino de Deus, se não
nascer de novo", e outra vez, "A não ser que vocês se convertam e se
tornem crianças, jamais entrarão no reino dos céus".
Ora, fico pensando se alguém ainda
tem um pensamento como o dos discípulos no cérebro ou no coração? Será que
alguém pensou alguma vez deste modo? Não me surpreenderia se pensassem. Espero
que isso não seja tão comum como já foi, mas eu costumava ver em certos meios
entre os velhos uma desconfiança profunda da piedade juvenil. Os anciãos abanavam
a cabeça em desaprovação sobre a idéia de receber crianças como membros na
igreja. Alguns até aventuravam falar nos convertidos como sendo "só uma
porção de meninas e meninos" como se ficasse pior para eles com isso.
Muitos, se ouvem falar numa criança convertida, ficam duvidando, a não ser que
venha a morrer logo, e então crêem tudo a respeito dela. Se a criança vive,
eles afiam as machadinhas para ter sua vez de atacá-la no exame. Ela precisa
conhecer todas as doutrinas, certamente, e precisa ser sobrenaturalmente séria.
Não é todo adulto que conhece as mais altas doutrinas da Palavra, mas se o
garoto não as conhece, é posto de lado.
Alguns esperam uma sabedoria quase
infinita numa criança antes de conseguirem crer que ela é objeto da graça
divina. Isso é monstruoso. Então, também, se uma criança crente age como
criança, alguns dos pais da geração passada julgam que não pode estar
convertida, como se a conversão em Cristo acrescentasse vinte anos à nossa
idade. Naturalmente, o jovenzinho convertido não pode mais brincar, nem
conversar em seu próprio estilo infantil, porque os mais velhos ficariam
chocados; porque ficou mais ou menos entendido que logo que um menino fosse
convertido, ele devia se tornar um velho. Nunca encontrei algo na Bíblia que apoiasse
essa teoria; mas então a Escritura não foi tão procurada quanto foi o
julgamento das pessoas tão profundamente experimentadas, e a opinião geral de
que era bom deixar todos os convertidos passarem um verão e inverno antes de
admiti-las nos recintos sagrados da igreja.
Ora, se qualquer um de vocês ainda
tem na cabeça uma idéia hostil à conversão de crianças, tente livrar-se dela,
pois é errada tanto quanto pode ser. Se houvesse dois candidatos à minha frente
agora, uma criança e um homem, e eu recebesse de cada um o mesmo testemunho, eu
não teria mais razão de desconfiar da criança do que do homem--o fato é que, se
suspeita precisa entrar no caso, deve ser mais exercitada em direção ao adulto
do que em referência à criança, pela probabilidade muito menor de ser culpado
de hipocrisia do que o homem, e da probabilidade muito menor de ter copiado do
outro as palavras e frases. De qualquer modo, aprenda com as palavras do Mestre
que você não deve tentar fazer uma criança como você, mas você deve ser transformado
até que se torne como uma criança.
Capítulo 7: Pastoreie os meus
cordeiros
O motivo de pastorear, de
alimentar os cordeiros era para o cordeiro pertencer ao Mestre, e não mais
pertencer a si mesma. Se Pedro tivesse sido o primeiro papa de Roma, e tivesse
sido como seus sucessores, o que de fato ele nunca foi, certamente teria cabido
ao Senhor ter-lhe dito: "Pastoreie as suas ovelhas. Eu as entrego a
você, ó Pedro, Vigário de Cristo na Terra." Não, não, não. Pedro deve
alimentá-las, mas elas não são dele, são ainda de Cristo. O trabalho que vocês
têm que fazer para Jesus, irmãos e irmãs, não é de modo nenhum para si mesmos.
Sua classe não é de suas crianças, e sim de Cristo. A exortação que Paulo deu
foi para "cuidar da igreja de Deus", e que o próprio Pedro escreveu
em sua epístola: "Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados.
Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não
façam isso por ganância, mas com o desejo de servir" (1Pe 5.2). Que esses
cordeiros se tornem o que podem, a glória será do Mestre e não do servo, e todo
o tempo gasto, o trabalho dispensado e a energia gasta serão em cada partícula
para redundar em louvor dele de quem são esses cordeiros.
Contudo, enquanto isso é uma
ocupação de abnegação, e honrada também, podemos cuidar dela sentindo que é uma
das mais nobres formas de serviço. Jesus diz: "Meus cordeiros; Minhas
ovelhas." Pense neles, e admire-se de Jesus tê-los entregue a nós. Pobre
Pedro! Certamente, quando aquela refeição matinal começou, ele se sentia
desajeitado. Eu me coloco no lugar dele e sei que mal poderia olhar para Jesus
do outro lado da mesa, enquanto me lembrava de que eu o havia negado com
imprecações e maldições. Nosso Senhor quis deixar Pedro bem à vontade ao
levá-lo a falar sobre seu amor, que tão seriamente fora colocado em dúvida.
Como um bom médico, ele pôs o bisturi onde a ansiedade estava inflamada, e ele
pergunta: "Você me ama?" (Jo 21.13ss).
Não era porque Jesus não
conhecesse o amor de Pedro; mas para que Pedro soubesse com certeza e fizesse
uma nova confissão, dizendo: "Sim, Senhor, tu sabes que te amo." O
Senhor estava prestes a ter uma discussão delicada com o errante por alguns
minutos, para que nunca mais houvesse uma controvérsia entre ele e Pedro. Quando
Pedro disse: "Sim, Senhor; tu sabes que te amo", você quase pensou
que o Senhor responderia: "Oh, Pedro, e eu te amo"; mas ele não disse
isso, embora tenha dito isso, sim.
Talvez Pedro não tenha entendido o
que ele queria dizer; mas nós podemos entender porque nossa mente não está
confusa como estava a de Pedro naquela manhã memorável. Em outras palavras,
Jesus disse: "Eu te amo tanto que confio a você aquilo que eu comprei com
o sangue de meu coração. A coisa mais preciosa que tenho em todo o mundo é o
meu rebanho: veja, Simão, eu tenho tanta confiança em você, dependo
inteiramente da sua integridade como sendo uma pessoa que me ama sinceramente,
que eu lhe faço um pastor de meus cordeiros. São tudo que eu tenho na Terra,
dei tudo por eles, até minha vida; e agora, Simão, filho de Jonas, cuide deles
por mim." Ah, foi "falado bondosamente". Foi o grande coração de
Cristo dizendo: "Pobre Pedro, entre já e compartilhe comigo os meus mais
estimados protegidos." Jesus acreditou de tal modo na declaração de Pedro
que não lhe disse isso com palavras, e sim com atos. Três vezes, ele o disse:
"Cuide de meus cordeiros: pastoreie as minhas ovelhas, cuide das minhas
ovelhas", para mostrar o quanto o amou. Quando o Senhor Jesus ama muito
uma pessoa, ele lhe dá muito para fazer ou muito para sofrer.
Muitos de nós fomos apanhados como
brasas da fogueira, pois fomos "inimigos de Deus por causa do mau
procedimento"; e agora estamos na igreja entre seus amigos, e nosso
Salvador confia em nós com os seus mais amados. Eu fico pensando, quando o
filho pródigo voltou, e seu pai o recebeu, se quando chegou o dia da feira ele
mandou seu filho mais novo ao mercado para vender o trigo e trazer para casa o
dinheiro. A maioria de vocês teria dito: "Estou contente que o menino
voltou; ao mesmo tempo, enviarei o irmão mais velho para negociar, pois ele
sempre ficou do meu lado." Quanto à minha pessoa, o Senhor Jesus me
recebeu como um pobre filho pródigo, e não se passaram muitas semanas antes de
ele me colocar em confiança com o evangelho, esse o maior de todos os tesouros;
e esse foi um grande sinal de amor. Não conheço nenhum que o exceda.
A comissão dada a Pedro provou
como foi completa a cura da brecha, como o pecado foi totalmente perdoado, pois
Jesus tomou o homem que tinha praguejado e jurado negando-o, e mandou que
alimentasse seus cordeiros e ovelhas. Ah, trabalho bendito, não para si, e
contudo para si! Aquele que se serve se perderá, mas aquele que se perde
realmente se serve da melhor maneira possível.
A motivação-mestre de um bom
pastor é o amor. É para pastorearmos os cordeiros de Cristo por amor.
Primeiro, como prova de amor. "Se vocês me amam, obedecerão aos meus
mandamentos." Se me amam, alimentem os meus cordeiros. Se você ama Cristo,
mostre isso, e mostre-o fazendo o bem aos outros, desgastando-se para ajudar os
outros, para que Jesus possa ter a alegria desses outros.
Em seguida, como um influxo de
amor, "Pastoreie meus cordeiros", porque se você ama Cristo um pouco
quando você começa a fazer o bem, logo você o amará mais. O amor cresce por ser
ativamente exercitado. É como o braço do ferreiro que aumenta em força por
manejar o martelo. O amor ama até que ama mais, e ama mais até que ama mais; e
ainda ama mais até que ama mais de tudo, e então não está satisfeito, mas
aspira um alargamento do coração para que possa copiar ainda mais plenamente o
modelo perfeito de amor em Cristo Jesus, o Salvador.
Além de ser um influxo de amor, o
alimentar de cordeiros é um escoadouro de amor. Quantas vezes contamos ao
Senhor que nós o amamos quando estávamos pregando, e eu não duvido que vocês,
professores, sentem mais do que prazer em amar a Jesus quando estão ocupados
com suas aulas do que quando estão a sós em casa. Uma pessoa poderá voltar para
casa, sentar-se e suspirar: "É um ponto que quero muito saber, que me faz
pensar e não sei responder", e enxugar a testa e esfregar os olhos, e
entrar num desânimo sem fim; mas se a pessoa se levanta e trabalha para Jesus,
o ponto que ela tanto deseja saber logo estará resolvido, porque o amor virá
jorrando do seu coração até que não possa mais questionar se está lá.
Portanto, permaneçamos nesse
trabalho abençoado para Cristo para que o deleite do amor seja o próprio oceano
em que o amor nadará, o sol em que se aquecerá. A recreação de uma alma amorosa
é trabalhar por Jesus Cristo; e dentre as formas mais altas e mais deliciosas
dessa recreação celeste está o cuidar de cristãos novinhos; procurando
edificá-los no entendimento e na compreensão, para que se tornem fortes no
Senhor.
Capítulo 8: A criança Timóteo e
seus mestres
Hoje em dia, visto que o mundo
contém, ai!, tão poucas mães sábias e avós cristãs, a igreja achou por bem
suplementar a instrução do lar com ensino mantido sob sua asa protetora. As
crianças que não têm tais pais, a igreja toma sob seu cuidado maternal. Vejo
isso como uma abençoada instituição. Sou agradecido pelos muitos irmãos e irmãs
nossos que dão seus domingos, e muitos deles uma boa parte de suas noites da
semana também, para ensinar os filhos de outras pessoas, que de alguma forma vão
se tornando também filhos deles. Procuram desempenhar as obrigações de pai e
mãe, por amor a Deus, para as crianças que são negligenciadas por seus próprios
pais, e nisso fazem bem. Que nenhum dos pais cristãos caia na ilusão de que a
Escola Dominical vise aliviá-los de seus deveres pessoais. A condição primária
e mais natural das coisas é que os pais cristãos eduquem suas próprias crianças
no nutrimento e na admoestação do Senhor. Que as santas avós e graciosas mães,
com seus esposos, cuidem que seus próprios meninos e meninas sejam bem
ensinados no Livro do Senhor. Onde não há esses pais cristãos, devem intervir
pessoas piedosas. É um trabalho cristão quando outros assumem o dever que os
praticantes naturais deixaram de fazer. O Senhor Jesus olha com prazer para
aqueles que alimentam seus cordeiros, e amamentam seus bebês; pois não é de sua
vontade que nenhum desses pequenos pereça. Timóteo teve o grande privilégio de
ser ensinado por aquelas cujo dever natural é esse; mas onde esse grande
privilégio não pode ser desfrutado, que todos nós, conforme Deus nos ajudar,
tentemos compensar para as crianças a terrível perda que sofrem. Adiantem-se,
homens e mulheres sinceros, e santifiquem-se para esse trabalho feliz.
Observe o tema da instrução:
"Desde criança você conhece as Sagradas Letras"--ele foi levado a
tratar o livro de Deus com grande reverência. Coloco ênfase nessa palavra
"sagradas Escrituras". Um dos primeiros objetivos da escola
Dominical deve ser ensinar às crianças grande reverência por esses escritos
santos, essas Escrituras inspiradas. Os judeus estimavam o Antigo Testamento
além de todo preço; e embora infelizmente muitos deles tenham caído em uma
reverência supersticiosa para com a carta e perdido o espírito da coisa,
contudo devem ser louvados pela profunda estima que tinham pelos oráculos
santos. Esse sentimento de reverência é necessário.
Eu me encontro com homens que têm
pontos de vista estranhos, mas não me importo nem com a metade de seus pontos
de vista, nem com a estranheza deles, tanto como com um certo quê que vejo por
traz desse novo modo de pensar. Quando descubro isso, se provo que não são
bíblicos seus pontos de vista, assim mesmo não lhes provei nada, pois eles não
se importam com a Escritura; então eu descobri um princípio muito mais perigoso
do que uma mera precipitação doutrinária. Essa indiferença para com a Bíblia é
a maior maldição da igreja nesta hora presente. Podemos ser tolerantes de
opiniões divergentes, contanto que percebamos uma intenção sincera de seguir o
livro-estatutário. Mas se chega a isso, que o Livro em si é de pequena
autoridade para você, então não precisamos dialogar mais: estamos em
acampa-mentos diferentes, e quanto mais cedo reconhecermos isso, melhor para
todas as partes envolvidas. Se vamos ter qualquer igreja de Deus na Terra, a
Bíblia precisa ser vista como sagrada, e ser tratada com reverência. Essa
Escritura foi dada por santa inspiração, e não é o resultado de mitos obscuros
e tradições duvidosas; nem ela caiu até nós ao sabor do acaso, pela sobrevivência
do mais apto, como um dos melhores livros. Precisa ser dada às nossas crianças,
e aceita por nós, como sendo a revelação do Santíssimo Deus. Coloque bastante
ênfase sobre isso; diga a seus filhos que a Palavra do Senhor é uma Palavra
pura, "como prata purificada num forno de terra, sete vezes
refinada". Faça com que sua estima pelo Livro de Deus seja levada ao mais
alto ponto.
Observe que Timóteo foi ensinado,
não só a reverenciar as coisas santas em geral, mas especialmente a conhecer as
Escrituras. O ensino de sua mãe e sua avó foi o ensino da Escritura santa.
Vamos supor que reunamos as crianças no dia do Senhor, e então passemos a
diverti-las e fazer as horas passarem agradavelmente; ou que ensinemos como
fazemos em dias da semana, os elementos de uma educação moral, o que fizemos?
Nada digno do dia ou da igreja de Deus. Suponhamos que sejamos cuidadosos ao
ensinar para as crianças as regras e os regulamentos de nossa própria igreja, e
não as levemos às Escrituras; suponhamos que lhes damos um livro que seja visto
como o padrão de nossa igreja, mas não nos firmamos na Bíblia, o que fizemos?
Esse padrão pode ou não ser correto, e nós podemos, então, ter ensinado às
crianças a verdade ou ter ensinado o erro, mas se ficamos na Bíblia sagrada não
podemos nos desviar. Com esse padrão, sabemos que estamos certos. Esse Livro é
a Palavra de Deus, e se a ensinamos, ensinamos aquilo que o Senhor aceitará e
abençoará.
Ah, queridos professores--e falo
aqui para mim mesmo também--, que nosso ensino seja cada vez mais bíblico! Não
se preocupem se nossas classes esquecem o que nós dizemos, mas implore que eles
se lembrem do que o Senhor diz. Possam as verdades divinas sobre o pecado, e a
justiça e o julgamento vindouro, serem escritos no coração deles! Possam as
verdades reveladas sobre o amor de Deus, a graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
e a operação do Espírito Santo, nunca serem esquecidas por eles! Possam eles
conhecer a virtude e a necessidade do sangue remidor de nosso Senhor, o poder
de sua ressurreição e a glória de sua segunda vinda! Possam as doutrinas da
graça ser gravadas com a pena de ferro em sua mente, e ser escritas com a ponta
de um diamante em seu coração para nunca serem apagadas! Se conseguirmos isso,
não vivemos em vão. A geração que agora governa parece resolvida a apartar-se
da verdade eterna de Deus; mas não nos desesperaremos se o evangelho for
impresso na memória da raça que vem surgindo.
Mais uma vez sobre esse ponto:
parece que o jovem Timóteo foi ensinado de tal modo quando ele era criança que
o ensino foi eficaz. "Você conhece as Sagradas Letras", diz
Paulo (2Tm 3.15a). Já é muita coisa dizer de uma criança que ela conhece as
Escrituras, mas que "desde criança você conhece" é outra coisa. Você
poderá dizer: "Eu ensinei as Escrituras para as crianças", mas que
elas já as conhecem é bem outra coisa. Será que todos vocês que já cresceram
conhecem as Escrituras? Temo que embora o conhecimento geral cresça, o
conhecimento das Escrituras seja raro demais. Se fôssemos agora fazer um exame,
temo que alguns de vocês dificilmente brilhariam nas listas finais. Mas eis
aqui um garotinho que conhecia as Escrituras sagradas, isso significa dizer que
ele tinha boa familiaridade com elas.
As crianças podem conseguir isso,
não é de modo algum um feito impossível. Deus abençoando seus esforços, caros
amigos, seus filhos poderão conhecer toda a Escritura que é necessária para sua
salvação. Podem ter uma idéia tão clara do pecado como sua mãe tem; podem ter
uma visão tão clara da expiação como sua avó pode ter; eles podem ter uma fé em
Jesus tão distinta como qualquer de nós pode ter. As coisas que cooperam para
nossa paz não requerem longa experiência para nos preparar para recebê-las;
estão entre as simplicidades do pensamento. Pode correr quem as lê, e uma
criança pode lê-las logo que pode correr. A opinião de que as crianças não
podem receber a verdade toda do evangelho é um grande erro, pois sua condição
de criança é uma ajuda em vez de um empecilho; os mais velhos precisam se
tornar crianças pequenas antes de poderem entrar no reino. Dê um bom alicerce
para as crianças. Que o trabalho da aula da Escola Dominical não seja deixado
de lado, nem feito de qualquer jeito. Que as crianças conheçam as Escrituras
Sagradas. Que a Bíblia seja consultada em vez de qualquer livro humano.
Esse trabalho foi estimulado por
uma fé salvadora. As Escrituras não salvam, mas podem tornar um homem sábio
para a salvação. As crianças podem conhecer as Escrituras e, contudo, não serem
filhas de Deus. A fé em Jesus Cristo é aquela graça que traz salvação imediata.
Muitas queridas crianças são chamadas por Deus tão cedo que não podem dizer
precisamente quando é que foram convertidas; mas foram convertidas, devem, em
alguma ocasião, ter passado da morte para a vida. Você poderia não saber dizer
hoje de manhã, por observação, o momento em que o sol raiou, mas raiou; e houve
uma hora que esteve abaixo do horizonte, e outra hora em que já tinha se levantado
acima dele. O momento, quer o vejamos ou não, em que a criança é realmente
salva, é quando ela crê no Senhor Jesus Cristo. Talvez por anos, Lóide e Eunice
estivessem ensinando o Antigo Testamento a Timóteo, enquanto elas mesmas não
conheciam o Senhor Jesus e, se foi assim, estavam ensinando o tipo sem o
antitipo--os enigmas sem as respostas -, mas foi bom ensino assim mesmo, visto
que era toda a verdade que conheciam na época.
Quanto mais feliz, contudo, é
nossa tarefa, visto que estamos habilitados a ensinar sobre o Senhor Jesus tão
claramente, tendo o Novo Testamento para explicar o Antigo! Será que nós não
podemos esperar que, ainda mais cedo na vida do que Timóteo, nossas queridas
crianças possam pegar a idéia de que Cristo Jesus é a soma e substância da
Bíblia, e assim pela fé nele possam receber o poder de tornarem-se filhos de
Deus? Menciono isso, simples como é, porque quero que todos os professores
sintam que se suas crianças ainda não conhecem todas as doutrinas da Bíblia, e
se há certas verdades mais altas ou mais profundas que suas mentes ainda não
alcançaram, mesmo assim as crianças são salvas logo que são sábias para a
salvação pela fé que está em Cristo Jesus. Fé no Senhor Jesus, conforme é
exposto na Bíblia, salva mesmo. "Você pode, se crê de todo o
coração", disse Filipe ao eunuco; e nós dizemos a mesma coisa para toda
criança: você pode confessar sua fé se você tem qualquer fé verdadeira em Jesus
para confessar. Se você crê que Jesus é o Cristo, e assim põe sua confiança
nele, você está tão verdadeiramente salvo como se tivesse cabelo grisalho a
adornar sua fronte.
Por essa fé em Cristo Jesus nós
prosseguimos e avançamos na salvação. No momento em que cremos em Cristo, somos
salvos, mas não somos imediatamente tão sábios como podemos ser e esperamos
ser. Podemos ser, como se fosse, salvos sem que seja inteligentemente, isto é,
num sentido comparativo; mas é desejável que possamos dar uma razão da
esperança que há em nós, e assim sermos sábios para a salvação.
Pela fé, as crianças se tornam
pequenos discípulos, e pela fé vão adiante para tornarem-se mais capazes. Como
é que avançamos para a sabedoria? Não é largando o caminho da fé, e sim
conservando aquela mesma fé em Cristo Jesus pela qual começamos a aprender. Na
escola da graça, a fé é a grande faculdade pela qual fazemos progressos em
sabedoria. Se pela fé você pôde dizer A e B e C, precisa ser por fé que você
irá adiante para dizer D e E e F, até que chegue ao fim do alfabeto e seja
perito no Livro de Sabedoria. Se por fé você pode ler a cartilha da fé simples,
pela mesma fé em Cristo Jesus você pode ir adiante para ler nos clássicos de
afirmação total, e tornar-se um escriba bem instruído nas coisas do reino.
Portanto, conserve-se junto da prática da fé, da qual tantos estão se desviando.
Nestes tempos, os homens buscam
fazer progresso por aquilo que chamam de pensamento, com o que querem
dizer vãs imaginações e especulação. Não podemos avançar nem um passo pela
dúvida; nosso único progresso é pela fé. Não existem tais coisas como "degraus
de nossos egos mortos"; a não ser que sejam degraus para baixo, para a
morte e destruição; os únicos degraus para a vida e o céu são encon-trados na
verdade de Deus revelada à nossa fé. Creia em Deus, e você já fez progresso.
Então, oremos por nossas crianças, que constantemente possam conhecer e crer
mais e mais; pois a Escritura é capaz de torná-las sábias para a salvação, mas
somente pela fé que está em Cristo Jesus. A fé é o resultado que deve ser
visado; a fé no escolhido, ungido e exaltado Salvador. Este é o ancoradouro
para o qual queremos trazer esses naviozinhos, pois aqui ficarão em perfeita
segurança.
A instrução segura na Escritura
sagrada, quando vivificada por uma fé viva, cria um caráter sólido. O homem que
desde criança conhece as sagradas Escrituras, quando obtém fé em Cristo, será
alicerçado e estabelecido sobre os princípios duradouros da Palavra imutável de
Deus.
Oh, mestres, vejam o que podem
fazer! Em suas escolas, estão sentados nossos futuros evangelistas. Naquela
classe dos menorzinhos está sentado um apóstolo para alguma terra distante.
Poderá vir sob sua mão de treinamento, minha irmã, um futuro pai em Israel.
Virão sob seu ensino, meu irmão, aqueles que carregarão as bandeiras do Senhor
no grosso da batalha. As eras olham para vocês cada vez que sua classe se
reúne. Ah, que Deus os ajude a fazer bem a sua parte! Oremos com um só coração
e uma alma para que o Senhor Jesus Cristo esteja em nossas Escolas Dominicais
do dia de hoje até que ele venha!
Capítulo 9: "O que significa
esta cerimônia?" (Êxodo 12)
Nós devemos olhar tudo o que há
neste mundo sob a luz da redenção, e assim o veremos corretamente. Faz uma
diferença maravilhosa se você vê a providência do ponto de vista do merecimento
humano ou do pé da cruz. Não vemos nada do modo real enquanto não o vemos
através do vidro, o vidro vermelho do sacrifício expiatório. Use esse
telescópio da cruz e então verá longe e claramente; olhe os pecadores através
da cruz; olhe as alegrias e tristezas do mundo através da cruz; olhe o céu e inferno
através da cruz. Veja o quanto era para ser realmente visível o sangue da
Páscoa, e então aprenda de tudo isso a dar importância verdadeira ao sacrifício
de Jesus--sim, dar-lhe toda a importância, pois Cristo é tudo.
Nós lemos em Deuteronômio, no sexto capítulo, versículo oito, com respeito às ordens da lei do Senhor, o seguinte: "Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas de sua casa e em seus portões." Observe, então, que a lei deve ser escrita logo ao lado dos memoriais do sangue. Na Suíça, nas vilas protestantes, podiam ser vistos textos da Escritura nos umbrais das portas. Seria tão bom que tivéssemos esse costume na Inglaterra. Quanto do evangelho poderia ser pregado aos passantes se textos bíblicos estivessem acima das portas dos cristãos! Poderia ser ridicularizado como farisaísmo, mas poderíamos nos acostumar. Poucos são sujeitos, nos dias de hoje, à acusação de serem religiosos demais. Eu gosto de ver textos da Escritura em nossos lares, em todos os cômodos, nas molduras acima das portas, e nas paredes; mas do lado de fora da porta - que beleza de anúncio o evangelho poderia ter por preço tão econômico.
Mas note que, quando o judeu
escrevia nas colunas de sua porta uma promessa, um preceito ou uma doutrina,
ele tinha de escrever sobre uma superfície manchada de sangue, e quando a
Páscoa do ano seguinte chegava, ele tinha de aspergir o sangue com hissopo bem
em cima da escrita. Parece-me ótimo pensar na lei de Deus ligada àquele
sacrifício expiatório que o engrandeceu e o tornou honrável. Os mandamentos de
Deus vêm para mim como homem remido; suas promessas são para mim como homem
comprado pelo sangue, seu ensino me instrui como pessoa por quem a expiação já
foi feita. A lei na mão de Cristo não é uma espada para nos matar, e sim uma
jóia para nos enriquecer. Toda a verdade aceita em relação à cruz é muito
incrementada em seu valor. A Santa Escritura torna-se preciosa sete vezes mais
quando vemos que ela vem a nós como sendo remidos do Senhor, e traz em cada
página marcas daquelas mãos queridas que foram pregadas na cruz por nós.
Agora, é possível compreender como
tudo foi feito que bem podia ser pensado de modo que elevasse o sangue do
cordeiro pascoal a uma alta posição na estima das pessoas que o Senhor tirou do
Egito; e você e eu precisamos fazer tudo que podemos para trazer à frente, e
conservar diante dos homens para sempre, a preciosa doutrina do sacrifício
expiatório de Cristo. Ele foi feito pecado por nós, embora nenhum pecado
conhecesse, para que nele nós pudéssemos ser feitos a justiça de Deus.
E agora quero lhes fazer lembrar
da instituição que era ligada à memória da Páscoa. "Quando os seus filhos
lhes perguntarem: 'O que significa esta cerimônia?', respondam-lhes: 'É o
sacrifício da Páscoa ao Senhor'" (Êx 12.26-27a).
Investigação é coisa que deve ser
estimulada na mente de nossas crianças. Ah, se pudéssemos levá-las a fazer
perguntas sobre as coisas de Deus! Alguns perguntam bem cedo, outros parecem
ter herdado o mal da indiferença que as pessoas mais velhas têm. Temos de lidar
com os dois tipos de mente. É bom explicar às crianças a ordenança da Ceia do
Senhor, pois isso mostra bem a morte de Cristo em símbolo. Sinto pena de que as
crianças não vejam com maior freqüência essa ordenança. Os dois, o Batismo e a
Ceia do Senhor, devem ser feitos à vista da geração que surge para que então
nos perguntem: "O que significa essa cerimônia?" Ora, a Ceia do
Senhor é um perene sermão evangelístico, e fala principalmente sobre o
sacrifício do pecado. Você pode banir essa doutrina da expiação do púlpito, mas
ela sempre viverá na igreja através da Ceia do Senhor. Você não pode explicar
aquele pão partido e aquele copo cheio do fruto da vide sem referência à morte
expiatória de nosso Senhor. Não pode explicar "a comunhão do corpo de
Cristo" sem incluir, de uma forma ou outra, a morte de Jesus em nosso
lugar e posição. Deixe que os seus pequenos, então, vejam a Santa Ceia, e que
lhes seja explicado bem claramente o que ela apresenta. E se não a própria Ceia
do Senhor--pois isso não é a coisa em si, mas só a sombra do fato glorioso--,
demore-se muito e com freqüência nos sofrimentos e morte de nosso Redentor.
Deixe que pensem no Getsêmane, e no Gabata (o local do Pretório), e no Gólgota,
e que aprendam a cantar em tons melancólicos sobre aquele que deu sua vida por
nós. Diga-lhes quem foi aquele que sofreu e por quê. Sim, embora o hino não
seja bem ao meu gosto em algumas de suas expressões, gostaria que as crianças
cantassem:
Mui longe o monte verde está
Fora dos muros de Jerusalém.
Fora dos muros de Jerusalém.
E eu gostaria que aprendessem
versos parecidos com estes, de hinos com esta idéia:
Sabia como fomos maus,
Que Deus teria que castigar.
Então Jesus ofereceu
Morrer - em nosso lugar.
Que Deus teria que castigar.
Então Jesus ofereceu
Morrer - em nosso lugar.
E quando a atenção é despertada
para o melhor dos temas, estejamos preparados para explicar a grande transação
pela qual Deus é justo, e ainda assim, os pecadores são justificados. As
crianças podem entender muito bem a doutrina do sacrifício expiatório; a
intenção foi mesmo que fosse um evangelho que até o mais novo pudesse
apropriar. O evangelho da substituição é uma grande simplicidade, embora seja
um mistério. Não devemos nos contentar até que nossos pequeninos conheçam e
confiem no Sacrifício completado por eles. Isso é conhecimento essencial, e a chave
para todo ensino espiritual. Que nossas queridas crianças conheçam a cruz, e já
terão começado bem. Com todas as coisas que aprendem, que possam aprender a
compreender isso, e já terão um fundamento bem construído.
Para isso, você deverá ensinar à
criança que ela necessita de um Salvador. Você não pode se omitir dessa tarefa.
Não bajule a criança com bobagens sobre sua natureza ser boa e precisar ser
desenvolvida. Diga-lhe que precisa nascer de novo. Não a encoraje com a
imaginação de sua própria inocência, mas mostre-lhe seu próprio pecado.
Mencione os pecados infantis aos quais ela se inclina, e ore para que o
Espírito Santo trabalhe a convicção no seu coração e na sua consciência.
Lide com os novos como lida com os
velhos. Seja completo e honesto com eles. Religião frágil não é boa nem para
jovens nem para velhos. Esses meninos e meninas precisam de perdão através do
sangue precioso tanto como qualquer um de nós. Não hesite em contar à criança
sua situação ruinosa; senão ela não há de querer o remédio. Diga-lhe também
qual é o castigo do pecado, e avise-a de seu terror. Seja terno, mas seja
verdadeiro. Não esconda do pecador jovem a verdade por mais terrível que possa
ser. Agora que chegou aos anos de responsabilidade, se não acreditar em Cristo,
ficará numa situação desfavorável com ele no grande dia final. Coloque diante
dela o trono do grande julgamento, e lembre-a de que terá de dar contas das
coisas feitas no corpo. Trabalhe para acordar a consciência; e ore a Deus pelo
Espírito Santo para trabalhar junto a você até que o coração se enterneça e a
mente perceba a necessidade da grande salvação.
As crianças precisam aprender a
doutrina da cruz para que possam encontrar salvação imediata. Sou grato a Deus
porque em nossa Escola Dominical nós cremos na salvação de crianças quando
crianças. Quantos meninos e meninas tenho tido a alegria de ver se oferecerem
para confessar sua fé em Cristo! E outra vez desejo dizer que os melhores
convertidos, os convertidos mais óbvios, mais inteligentes que já tivemos têm sido
os novos; e em vez de haver alguma deficiência em seu conhecimento da Palavra
de Deus e das doutrinas da graça, geralmente, descobrimos terem um conhecimento
encantador das grandes verdades cardeais de Cristo. Muitas dessas preciosas
crianças falaram das coisas de Deus com grande prazer de coração e força de
entendimento. Prossigam, queridos professores, e creiam que Deus salvará suas
crianças. Não se contentem em semear princípios em suas mentes que
possivelmente se desenvolvam em anos futuros, mas trabalhem por conversões
imediatas. Espere frutos em suas crianças enquanto são crianças. Ore por elas
para que não corram para o mundo e caiam nos males do pecado exterior, e depois
voltem com ossos quebrados para o Bom Pastor; mas que possam pela rica misericórdia
ser guardadas dos caminhos do destruidor, e crescer no aprisco de Cristo,
primeiro como cordeiros de seu rebanho, e depois como ovelhas de sua mão.
De uma coisa estou certo: se
ensinarmos às crianças a doutrina da expiação em termos inconfundíveis,
estaremos agindo de forma muito boa. Às vezes, espero que Deus avive sua igreja
e a restaure à antiga fé através de um trabalho da graça entre as crianças. Se
ele trouxesse para dentro de nossas igrejas um grande influxo de crianças, como
isso poderia apressar o sangue indolente dos preguiçosos. As crianças cristãs
tendem a manter a casa animada, viva. Suspiramos por mais delas! Se apenas o
Senhor nos ajudar a ensinar as crianças, nós estaremos ensinando a nós mesmos.
Não há melhor modo de aprender do que ensinar, e você não sabe nada enquanto
não consegue ensiná-la para outra pessoa. Você não conhece nenhuma verdade
completamente enquanto não a coloca diante de uma criança para que ela possa
vê-la. Ao tentar fazer uma criancinha entender a doutrina da expiação, você
conseguirá ter visões mais claras dela, e por isso eu lhe recomendo esse
exercício santo.
Que bênção será se nossas crianças
forem bem enraizadas na doutrina da redenção por Cristo! Se elas forem avisadas
contra os falsos evangelhos desta má era, e se forem ensinadas a descansar na
rocha da obra completada de Cristo, poderemos esperar que a geração depois da
nossa manterá a fé, e que será melhor do que seus pais foram.
Vejam, suas escolas dominicais são
louváveis, mas qual é o propósito delas se vocês não ensinam nelas o evangelho?
Vocês reúnem as crianças e as mantêm quietinhas por uma hora e meia, e depois
as mandam para casa; mas qual é o proveito disso? Pode dar um pouco de sossego
para os pais e as mães, e é por isso, talvez, que eles os mandam para a escola;
mas todo o verdadeiro bem está naquilo que é ensinado às crianças. A verdade
mais fundamental deve ser colocada como a mais importante, e qual será ela se
não for a cruz? Alguma conversa com as crianças sobre ser bons meninos e
meninas etc. e tal; isto é, pregam a lei às crianças, embora queiram pregar o
evangelho aos adultos. Isso é honesto? É prudente? As crianças precisam do
evangelho, do evangelho todo, o evangelho autêntico, sem ser adulterado; devem
recebê-lo, e se são ensinadas pelo Espírito de Deus, são tão capazes de
recebê-lo como pessoas de idade madura. Ensine aos pequenos que Jesus morreu, o
justo pelos injustos, para levar-nos a Deus. Confiante, entrego esse trabalho
aos professores. Nunca conheci uma equipe mais nobre de homens e mulheres
cristãos, pois são tão sinceros em sua ligação com o velho evangelho como são
ansiosos pela salvação de almas. Sintam-se encorajados; o Deus que salvou
tantas de suas crianças salvará muitos mais delas, e teremos grande alegria à
medida que vemos centenas trazidas a Cristo.
Capítulo 10: Samuel e seus mestres
Nos dias de Eli, a palavra do
Senhor era preciosa, e não havia visão aberta. Foi ótimo que quando a palavra
veio mesmo, um indivíduo escolhido tinha o ouvido que escutava para recebê-la, e
o coração obediente para executá-la. Eli não educou seus filhos para serem os
servos dispostos e os ouvintes atentos à palavra do Senhor. Nisso lhe faltava a
desculpa de ser incapaz, porque treinou a criança Samuel com bom êxito em ser
reverentemente atento à vontade divina. Ah, que aqueles que são diligentes com
as almas de outros olhassem bem as suas próprias famílias. Mas ai do pobre
Eli--como muitos em nossos dias, fizeram-te guarda dos vinhedos, mas tua
própria vinha tu não guardaste. Sempre que olhava a criança graciosa, Samuel,
deve ter sentido a dor de coração. Quando se lembrava de seus próprios filhos
negligenciados e não punidos, e como se tornaram vis aos olhos de toda Israel,
Samuel era o testemunho vivo do que a graça pode operar quando as crianças são
educadas no temor do Senhor; e Hofni e Finéias eram tristes exemplos do que a
tolerância demasiada dos pais pode causar nos filhos dos melhores dos homens.
Ai, Eli, se você tivesse sido tão cuidadoso com seus próprios filhos como com o
filho de Ana, não teriam sido homens de Belial como foram, nem Israel teria
detestado as ofertas do Senhor por causa da fornicação que aqueles réprobos
sacerdotes cometiam bem na porta do tabernáculo. Ah, que tenhamos graça para
cuidar de nossos pequeninos pelo Senhor, para que eles possam ouvir o Senhor
quando ele se agradar em lhes falar.
Samuel foi abençoado com um pai
gracioso, e, o que é mais importante ainda, era filho de uma mãe eminentemente
santa. Ana era uma mulher de grande talento poético, como fica evidente pelo
seu cântico memorável--"Meu coração exulta no Senhor; no Senhor minha
força é exaltada. Minha boca se exalta sobre os meus inimigos, pois me alegro
em tua libertação" (1Sm 2.1). A alma da poesia vive em cada sentença.
Mesmo a Virgem Maria, a mais abençoada entre as mulheres, não pôde senão usar
expressões de significado semelhante. Melhor ainda, Ana era uma mulher de
grande oração. Fora uma mulher de espírito triste, mas suas orações pelo menos
voltaram para ela em bênção, e Deus lhe concedeu esse filho. Ele era muito
precioso para o coração de sua mãe, e ela, então, para mostrar sua gratidão, e
em cumprimento do voto que na sua angústia havia feito ao Senhor, consagrou a
coisa melhor que ela tinha, apresentando seu filho diante do Senhor em Siló--uma
lição a todos os pais piedosos, para que não descuidem de dedicar seus filhos a
Deus.
Como seremos favorecidos se nossos
filhos forem todos como Isaque--filhos da promessa! Que pais abençoados
seríamos se víssemos nossos filhos se levantarem para chamar o Redentor de
abençoado! Já foi a sorte de alguns de vocês verem todos os seus filhos
contados com o povo de Deus; todas as suas jóias já estão agora na caixa de
jóias de Jeová. Na sua primeira infância, vocês já os deram a Deus, e
dedicaram-nos em sincera oração, e agora o Senhor lhes deu a resposta da
petição que a ele dirigiram. Eu gosto que nossos amigos façam um cultinho em
sua própria casa quando sua família é aumentada; parece-me bom e proveitoso os
amigos se reunirem, e uma oração ser oferecida para que o bebê possa cedo ser
chamado pela graça poderosa e recebido para fazer parte da família divina. Você
perceberá que logo que Samuel foi colocado sob o cuidado e tutela de Eli, foi
instruído até certo ponto no espírito da religião, mas Eli não lhe parece ter
explicado a forma e a natureza daquelas manifestações especiais e particulares
de Deus que eram dadas a seus profetas; sonhando um pouco, ouso dizer que
Samuel fosse algum dia o objeto delas. Naquela noite memorável, quando perto do
amanhecer a lâmpada de Deus estava para se apagar, o Senhor clamou,
"Samuel, Samuel", e o garotinho não pôde discernir--porque não lhe
fora ensinado--que era a voz de Deus, e não a voz do homem.
Que ele havia aprendido o espírito
da religião verdadeira é indicado pela sua obediência instantânea, e o hábito
da obediência tornou-se uma diretriz valiosa nas perplexidades daquela hora
cheia do evento. Ele corre para Eli, e diz: "Estou aqui; o senhor me
chamou?"; e embora isso fosse repetido três vezes, mesmo então ele parecia
não se importar de sair de sua cama quentinha, e correr para seu pai de
criação, para ver se lhe podia buscar algum conforto que sua idade avançada
poderia exigir durante a noite, ou de outra forma obedecer seu mando - um sinal
seguro de que a criança havia adquirido o princípio saudável da obediência,
embora não entendesse o mistério do chamado profético. Bem melhor ter o jovem
coração treinado a carregar o jugo do que encher a cabeça infantil de
conhecimento, por mais valioso que fosse. Um grama de obediência vale mais do
que uma tonelada de instrução.
Quando Eli percebeu que Deus
chamara a criança, ele o ensinou sua primeira oração. É curta, mas diz muito:
"Fala, Senhor, pois o teu servo está ouvindo" (1Sm 3.10b). Que os
pais cristãos expliquem à criança o que é a oração. Diga-lhe que Deus responde
às orações; dirija-o ao Salvador, e então anime o menino a expressar seus
desejos em sua própria linguagem quando ele se levanta ou quando vai para o
descanso. Reúna os pequenos à sua volta e ouça suas palavras, sugerindo-lhes
suas necessidades, e lembrando a eles a promessa graciosa de Deus. Você ficará
maravilhado, e, posso acrescentar, às vezes, divertido também; mas também
ficará surpreso com as expressões que usarão, as confissões que farão, os
desejos que expressarão; e eu estou certo de que qualquer pessoa cristã que
possa ouvi-los e escutar a simples oração de uma criancinha pedindo com
sinceridade por aquilo que ela pensa querer nunca mais desejaria ensinar a uma
criança uma oração já formulada, porém, diria que como matéria de educação para
o coração a fala improvisada foi infinitamente superior à melhor fórmula, e que
se deveria desistir da fórmula para sempre.
No entanto, não me deixe falar tão
radicalmente. Se você precisa ensinar seu filho a dizer uma forma de oração,
pelo menos não lhe ensine nada que não seja verdade. Se você ensina a seus
filhos um catecismo, que seja bem bíblico, ou você os ensina a dizer mentiras.
Não ensine nada senão a verdade como está em Jesus até onde eles podem aprendê-la,
e ore ao Espírito Santo para que escreva essa verdade sobre o coração deles.
Melhor não fornecer postes de sinalização para o jovem viajante que levá-lo a
errar o caminho por ter indicadores falsos. O farol de um demolidor é pior do
que o escuro. Ensine nossa juventude a fazer afirmações mentirosas em assuntos
religiosos, e o ateísmo pode corromper ainda mais suas mentes. A religião
formal é inimiga mortal da piedade viva. Se você ensina um catecismo, ou se
ensina uma fórmula de oração a seus pequenos, que seja tudo verdade; e, até
onde for possível, nunca ponha na boca de uma criança uma palavra que a criança
não possa dizer de todo seu coração.
Precisamos ser mais cuidadosos no
que se refere a dizer o que é verdade e correto na fala. Se uma criança olhasse
por uma janela para algo que estivesse acontecendo na rua, e depois lhe
dissesse que ela o viu da porta, você deveria fazê-lo contar de novo o caso
para imprimir nela a necessidade de ser verdadeiro a respeito de tudo.
Principalmente sobre as coisas ligadas à religião, não deixe a criança usar
nenhum formato feito até que tenha o direito de ser um participante. Nunca a
incentive a vir à mesa do Senhor a não ser que você creia realmente que há uma
obra de graça em seu coração; pois por que você o levaria a comer e beber para
sua própria condenação? Insista de todo coração que a religião é uma realidade
solene que não é para ser imitada ou feita de conta, e procure levar a criança
a entender que não há vício que aborreça mais a Deus do que a hipocrisia. Não
faça seu pequeno Samuel ser um jovem hipócrita, mas instrua seu queridinho a
falar diante do Senhor com uma profunda solenidade e uma conscienciosa
veracidade, e não o deixe ousar dizer, nem em resposta a uma pergunta de
catecismo, nem como forma de oração, nada que não seja positivamente verdade.
Se precisa ter uma oração decorada, que ela não expresse desejos como uma
criança nunca teria, mas que seja adaptada à sua capacidade.
A respeito do reverendo John
Angell James, diz-se: "Como a maioria dos homens que foram eminentes e
honrados na igreja de Cristo, ele teve uma mãe piedosa, que costumava levar
seus filhos a seu quarto, e com cada um separadamente orar pela salvação de sua
alma. Esse exercício, que cumpria sua própria responsabilidade, estava formatando
o caráter de seus filhos, e a maioria, se não todos, levantou-se para chamá-la
abençoada. Será que tais meios já chegaram a falhar algum dia?" Eu lhes
peço, professores da Escola Dominical, embora isso talvez nem seja necessário,
pois sei como são zelosos nessa matéria--, logo que virem o primeiro prenúncio
do dia em suas crianças, incentive seus desejos juvenis. Creia na conversão de
crianças quando crianças; creia que o Senhor pode chamá-las por sua graça, pode
renovar seus corações, pode dar-lhes um papel e uma sorte dentre seu povo muito
antes de chegarem à plenitude da vida.
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