Capítulo 11: Instruções para
professores e pais
Texto original: Pr. Joab Duarte
A primeira coisa a ser feita, é
providenciar para que as crianças venham à sua escola. A grande queixa de
alguns professores é que eles não têm alunos. Em Londres, estamos fazendo um
levantamento das crianças; essa é uma boa idéia, e deve-se fazer um
levantamento em todo lugar, mesmo que seja um vilarejo, uma comunidade rural, e
se esforçar para que toda criança que você conseguir possa ir à Escola
Dominical. Mas para isso, eu o aconselho a fazê-lo por meios legítimos e
certos. Não influencie as crianças com promessas; esse é um plano ao qual
fazemos forte objeção, e só é adotado em escolas de natureza tão inferior que
até os pais e mães das crianças são suficientemente sensatos para mandá-las até
lá. "Mas vocês podem não conseguir mais trabalho, ou, o patrão pode não
renovar o contrato da família; ou, se as crianças não vão à escola aos
domingos, não podem ir nos dias de semana." Esse é um truque desprezível;
só mostra fraqueza, miséria e abominação de uma seita que não pode ter êxito
sem usar um sistema tão degradante. E também não seja tão rabugento. Se eu não
puder trazer as pessoas até a minha capela usando um casaco preto, usaria um
uniforme militar amanhã--eu teria uma congregação de alguma forma. Melhor fazer
coisas estranhas do que ter uma capela vazia, ou uma sala de aula vazia. Quando
eu estava na Escócia, nós mandávamos um homem com um sino na mão dar a volta
nas ruas da vila para conseguir um público, e o plano foi muito bem-sucedido.
Não poupe os meios certos, mas faça com que as crianças entrem. Já conheci
ministros que saíam às ruas nas tardes do domingo e, conversando com as
crianças que estavam brincando ali, as convencia de irem à escola. É dessa
forma que agirá um professor sincero; ele dirá: "João, venha à nossa
escola; você não imagina que lugar ótimo é." Então, ele consegue que as
crianças entrem, e com seu modo bondoso e atraente, conta-lhes histórias e
casos sobre meninas e meninos que amaram ao Salvador, e desse jeito a escola se
enche. Vá e arrebanhe as crianças. Não há lei contra isso; tudo é justo na
guerra contra o diabo.
Em seguida, faça com que as
crianças o amem, se puder. "Venham, meninos, ouçam-me." Você sabe
como éramos ensinados na nossa escolinha antiga, como ficávamos em pé com as
mãos para traz para repetir nossas lições. Esse não era o plano de Davi.
"Ah! Como é bom ter um professor assim, um professor que me deixa chegar
pertinho dele, um professor que não diz 'Vai', e sim 'Venha!'", pensa a
criança. O defeito de muitos professores é que não chamam as crianças para
perto deles; mas tentam criar em seus estudantes um tipo de respeito venerável.
Antes que possa ensinar crianças, você deve conseguir a chave reluzente da
bondade para destravar o coração delas e, assim, assegurar sua atenção. Diga:
"Venham, crianças". Nós já conhecemos alguns homens bons que eram
detestados por crianças. Você se lembra da história de dois garotinhos que, quando
lhes perguntaram se gostariam de ir para o céu, para grande surpresa de seu
professor, disseram que realmente não gostariam. Quando lhes perguntaram a
razão, um deles disse: "Eu não gostaria de ir para o céu porque o vovô
está lá e na certa ele diria: 'Vão andando, meninos; vão embora, vão
andando!'" Então, se um menino tem um professor que lhe fala sobre Jesus,
mas que está sempre de cara fechada, o que ele vai pensar? "Será que Jesus
é como você; se for, eu não iria gostar dele." Depois há outro professor
que, se é provocado por um nadinha, dá uns tabefes nas orelhas da criança; e ao
mesmo tempo lhe ensina que ela deve perdoar os outros e ser bondosa para com
eles. "Bem, "isso é muito bonito, sem dúvida, mas meu professor não
me mostra como fazer isso", pensa o garoto. Se você afasta um menino, sua
influência sobre ele se foi, pois você não poderá lhe ensinar nada. Não adianta
tentar ensinar os que não têm amor para com você; por isso, tente e faça com
que o amem, e então aprenderão qualquer coisa com você.
Em seguida, consiga a atenção das
crianças. "Venham, crianças, prestem atenção". Se não lhe escutarem,
você pode falar, mas falará sem propósito nenhum. Se não escutarem, você
executa seu trabalho como uma tarefa sem sentido para você e para seus pupilos
também. "Isso é justamente o que não posso fazer", diz alguém. Bem,
isso depende de você - se você lhes der algo a que vale a pena prestar atenção,
eles certamente o ouvirão. Essa regra pode não ser universal, mas é quase
absolutamente segura. Não se esqueça de contar-lhes alguns casos engraçados. As
anedotas são muito criticadas por avaliadores de sermões, que dizem que não
devem ser usadas no púlpito; mas nós sabemos que não é bem assim, sabemos que
uma boa brincadeira pode acordar uma congregação e despertar a atenção das
pessoas. Por isso, colete durante a semana boas brincadeiras. Onde quer que
estiver, se você é realmente um professor sábio, sempre poderá encontrar alguma
coisas para transformar em história para contar às suas crianças. Então, quando
estiver perdendo a atenção dos seus alunos, diga-lhes: "Vocês conhecem os
Cinco Sinos?" Se esse lugar existir na cidade ou na vila, todos abrirão os
olhos imediatamente. Ou, então, você pode perguntar: "Sabem a curva em
frente do 'Leão Vermelho'?" Depois, conte-lhes algo que você leu ou ouviu
sobre o assunto que prenda a atenção deles à lição. Uma criança disse uma vez:
"Pai, eu gosto de ouvir o sr. Fulano pregar porque ele dá tantos
exemplos." As crianças adoram exemplos. Faça parábolas, desenhos, e você
conseguirá ir em frente. Tenho certeza de que, se eu fosse uma criança, a não
ser que me contassem uma história de vez em quando, eu apareceria pouco na
escola. E se eu estivesse sentado numa sala de aula quente, eu poderia
cochilar, ou brincar com a criança sentada à minha esquerda, e mexer com tanta
coisa como os outros, se você não trabalhasse para me interessar. Lembre-se,
então, de fazer seus alunos escutarem.
Capítulo 12: Uma lição-modelo para
professores
Ensine-lhes moralidade:
"Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade. Afaste-se do
mal e faça o bem; busque a paz com perseverança" (Sl 34.13-14). Ora, não
ensinamos moralidade como o caminho para a salvação. Deus nos livre de algum
dia misturarmos as obras do homem com a redenção que está em Cristo Jesus!
"Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de
vocês, é dom de Deus" (Efésios 2.8). Contudo, ensinamos moralidade
enquanto ensinamos espiritualidade; e sempre descubro que o evangelho produz a
melhor moralidade. Eu prefiro um professor de Escola Dominical vigilante sobre
a moral dos meninos e meninas de quem cuidam, que fale com eles particularmente
sobre os pecados que são mais comuns entre a criançada. Ele poderá dizer às
crianças honesta e convenien-temente muitas coisas que ninguém mais pode dizer,
especialmente quando faz com que eles se lembrem do pecado da mentira, tão
comum às crianças, ou do pecado do pequeno roubo, da desobediência aos pais, da
quebra do dia do Senhor. Preferiria que o professor fizesse muita questão de
mencionar esses males um por um; pois pouco adianta falar-lhes sobre males em
grande quantidade; é preciso mencioná-los um a um, assim como Davi fez.
Primeiro cuide da língua: "Guarde a sua língua do mal e os seus
lábios da falsidade" (Sl 34.13). Depois cuide da conduta inteira:
"Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança" (Sl
34.14). Se a alma da criança não está salva por outras partes do ensino, esta
parte pode ter um efeito benéfico sobre a vida dela, e até aí tudo bem. A moralidade,
no entanto, por si só, é uma coisa comparativamente pequena. A melhor parte
daquilo que você ensina é a piedade divinamente inspirada. Muitas
pessoas são religiosas de certo modo, sem serem piedosas. Muitas têm todas as
marcas externas da piedade, todo o lado de fora da piedade; a essas pessoas
chamamos de "religiosos", mas elas não têm o pensamento certo com
respeito a Deus. Pensam sobre seu lugar de culto, seu domingo, seus livros, mas
nada sobre Deus. Quem não respeita a Deus, nem ora a Deus, nem ama Deus, é uma
pessoa ímpia, qualquer que seja sua religião externa. Trabalhe para ensinar a
criança a ter sempre um olho voltado para Deus; faça com que ela grave na
memória estas palavras: "Tu me vês, ó Deus." Faça com que se lembre
de que cada ato e pensamento dela é visto por Deus. Nenhum professor de Escola
Dominical cumpre sua obrigação a não ser que frise sempre o fato de que há um
Deus que tudo observa. Deveríamos ser mais piedosos, conversarmos mais sobre a
piedade, e a amarmos mais.
A terceira lição é o mal do
pecado. Se a criança não aprender isso, ela nunca aprenderá o caminho para
o céu. Nenhum de nós sabia o que Cristo Salvador era até sabermos que coisa
terrível é o pecado. Se o Espírito Santo não nos ensinar a grande
pecaminosidade do pecado, nós nunca conheceremos a bem-aventurança da salvação.
Busquemos a graça do Santo Espírito, então, quando ensinamos, para que possamos
sempre ser capazes de dar ênfase à natureza abominável do pecado. "O rosto
do Senhor volta-se contra os que praticam o mal para apagar da terra a memória
deles" (Sl 34.16). Não poupe sua criança; deixe-a saber a que o pecado
leva. Não tenha medo, como têm algumas pessoas, de falar claramente sobre as
conseqüências do pecado. Ouvi falar de um pai que tinha um filho muito ímpio, e
foi levado de modo bem repentino.
Ao contrário do que algumas
famílias fariam, o pai, vencendo seus sentimentos naturais, pela graça divina,
reuniu seus filhos e lhes disse: "Meus filhos, o irmão de vocês morreu;
temo que esteja no inferno. Vocês conheciam sua vida e conduta, viram como se
comportou; e agora Deus o apanhou em seus pecados." Então, ele lhes contou
solenemente sobre o lugar do infortúnio em que acreditava - sim, quase tinha
certeza que ele tinha ido, implorando que eles o evitassem, e fugissem da ira
vindoura. Assim, ele foi o meio de levar seus filhos a um pensamento sério; mas
tivesse ele agido, como alguns teriam feito, com ternura de coração, mas sem
honestidade de propósito, e dito que esperava que seu filho tivesse ido ao céu,
o que as outras crianças teriam dito? "Se ele foi para o céu, então não
precisamos temer; podemos viver como quisermos." Não, não; eu mantenho que
não é falta de cristandade dizer de alguns homens que eles vão para o inferno,
quando já vimos que suas vidas eram infernais. Mas, pergunta-se: "Você
pode julgar seus semelhantes?" Não, mas posso conhecê-los pelos
seus frutos. Eu não os julgo, nem os condeno; eles julgam a si mesmos. Já vi
seus pecados irem a juízo de antemão, e não duvido que eles seguirão atrás. "Mas
não podem ser salvos na décima primeira hora?" Eu soube de uma pessoa que
foi, mas não sei se isso aconteceu com outras pessoas, e não posso dizer que
haverá outra algum dia. Seja honesto, pois, com seus filhos, e ensine-os, com a
ajuda de Deus, que "o mal matará os maus".
Mas isso não é tudo e você não
terá feito o suficiente se não ensinar cuidadosamente a quarta lição--a
necessidade absoluta de uma mudança de coração. "O Senhor está perto dos
que têm o coração quebrantado e salva os de espírito contrito" (Sl 34.18).
Ah! possa Deus capacitar-nos para conservarmos isso constantemente na mente dos
que são ensinados, que é preciso haver um coração quebrantado e um espírito
contrito, que boas obras de nada valerão a não ser que haja um arrependimento
verdadeiro e total do pecado, e um abandono completo do pecado pela graça e
misericórdia de Deus! Se precisar escolher, tenha a certeza de ensinar às
crianças os três "r"--ruína, redenção e regeneração. Diga às crianças
que a ruína deles veio pela queda e que há salvação para eles somente
com o ser redimido pelo sangue de Jesus Cristo, e regenerado pelo
Espírito Santo. Conserve constantemente diante deles essas verdades vitais
porque assim terá a tarefa agradável de lhes contar o doce assunto da lição do
final.
Em quinto lugar, então, fale às
crianças sobre a alegria e bênção de ser cristão. "O Senhor redime a vida
dos seus servos; ninguém que nele se refugia será condenado. Quem nele confia
não ficará desolado" (Sl 34.22). Não preciso falar como você deve tratar
deste assunto; pois, você sabe o que é ser cristão. Quando nos aprofundamos
neste assunto, nossa mente não pára de trabalhar. Como disse o salmista:
"Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados
apagados!" (Sl 32.1). "Como é feliz o homem que põe no Senhor a sua
confiança" (Sl 40.4). Sim, feliz é o homem, a mulher, a criança que confia
no Senhor Jesus Cristo e que nele espera. Enfatize sempre este ponto - que os
justos são pessoas abençoadas, que a família escolhida de Deus, redimida pelo
sangue e salva pelo poder, são pessoas abençoadas aqui na Terra, e que eles
serão abençoados para sempre lá no Céu. Faça com que suas crianças vejam que
você também pertence a este grupo. Se eles sabem que você está com problemas,
se possível, apresente-se diante de sua sala com um sorriso em sua face, para
que seus alunos possam dizer: "O professor é um homem abençoado, embora
esteja enfrentando problemas". Regozije-se sempre para que seus meninos e
meninas saibam que sua religião é uma realidade abençoada. Que esse seja o
ponto principal de seu ensino, que embora "o justo passa por muitas
adversidades", porém, "o Senhor o livra de todas; protege todos os
seus ossos; nenhum deles será quebrado. O Senhor redime a vida dos seus servos;
ninguém que nele se refugia será condenado" (Sl 34.19, 20, 22).
Falamos aqui de dei cinco lições,
e, com toda instrução que você possa dar a suas crianças, todos precisam estar
profundamente conscientes de que não são capazes de fazer nada na aquisição da
salvação da criança, mas que é Deus que, do começo ao fim, precisa efetuar toda
ela. Você é simplesmente uma caneta; Deus pode escrever com você, mas você não
pode escrever nada. Você é uma espada; Deus pode com você matar o pecado da
criança, mas você não pode matá-lo. Esteja, portanto, sempre consciente disso,
de que primeiro você precisa ser ensinado por Deus e, depois, você precisa
pedir a Deus que o use para ensinar; porque a não ser que um professor que lhe
seja superior trabalhe com você, e instrua a criança, a criança deve perecer.
Não é a sua instrução que pode salvar a alma de suas crianças; é a bênção de
Deus, o Espírito Santo, acompanhando seus labores. Possa Deus abençoar e coroar
seus esforços com sucesso abundante! Ele o fará se você instar em oração, for
constante nas súplicas. Até hoje, nunca o professor ou pregador "trabalhou
em vão no Senhor", e muitas vezes se viu que o pão lançado sobre as águas
foi encontrado após muitos dias.
Capítulo 13: "Venham,
crianças"--Três advertências
A primeira delas: lembre-se de
quem você está ensinando: "Venham, crianças". Creio que devemos
sempre respeitar nossos espectadores. Não quero com isso dizer que devemos nos
importar se estamos pregando a pessoas ilustres ou não, ao doutor Fulano de
Tal, ao Excelentíssimo Senhor Sicrano, porque à vista de Deus tais títulos são
meros detalhes; mas devemos lembrar que estamos pregando a homens e mulheres
que têm alma, de modo que não devemos ocupar seu tempo com coisas que não vale
a pena ouvirem. Mas quando ensinamos em Escolas Dominicais, a nossa situação é
até de maior responsabilidade que a de um ministro, se é que isso é possível.
Ele prega a adultos, homens e mulheres de juízo feito que, se não gostam do que
ele prega, podem ir a outro lugar; mas você ensina crianças que não têm a opção
de ir a outra parte. Se você as ensina de maneira errada, ela crê em você; se
você ensinar heresias, ela as recebe; o que você lhe ensinar agora, será
lembrado. Você não está semeando, como alguns dizem, em solo virgem, porque há
muito já foi ocupado pelo diabo; mas você está semeando num solo mais fértil
agora do que será daqui para a frente--solo que produzirá fruto muito melhor do
que fará em dias posteriores. Você está semeando num coração novo, e o que você
semeia é bem capaz de ficar lá, especialmente se você ensina o mal, pois isso
nunca será esquecido. Você está começando com a criança; cuidado com o que você
faz com ela. Não a estrague. Muita criança já foi tratada como as crianças
indígenas que tiveram chapas de cobre colocadas na testa para que não
crescessem. Há muitos que são simplórios agora porque quem cuidou deles quando
pequenos não lhes deram oportunidades de ganhar sabedoria, de modo que, à
medida que ficaram adultos, não se importaram com ela.
Cuide bem daquilo que você busca;
você está ensinando crianças, importe-se com o que você lhes ensina. Coloque
veneno na fonte e contaminará todo o ribeirão. Cuidado com o resultado que você
busca! Você está torcendo a árvore nova, e o carvalho velho vai estar curvado
por isso. Cuide bem, é com a alma de uma criança que você está mexendo; é a
alma de uma criança que você está preparando para a eternidade, se Deus está
com você. Minha advertência solene vem da parte de todas as crianças.
Realmente, se é assassinato administrar veneno a quem está morrendo, deve ser
muito mais criminoso dar veneno à vida juvenil. Se é errado conduzir mal um
idoso de cabeça branca, deve ser muito mais, dirigir mal os pés dos jovenzinhos
na estrada do erro onde pode ser que caminhem para sempre.
A segunda: lembre-se também de que
você está ensinando para Deus. "Venham, crianças, ouçam-me, eu lhes
ensinarei o temor do Senhor." Se, como professores, você estivesse
ensinando geografia, talvez não os ferisse eternamente você lhes dizer que o
pólo Norte fica perto do Equador; ou que a extremidade da América do Sul fica
pertinho do litoral da Europa; ou que a Inglaterra fica no meio da África. Mas
você não está ensinando geografia, nem astronomia, nem está treinando as
crianças para uma vida no comércio deste mundo; está, ao contrário, dando o
melhor que pode para ensiná-las para Deus. Fira a mão da criança se for o caso,
mas por amor de Deus não fira seu coração. Diga o que quiser sobre coisas
temporais; mas em assuntos espirituais, eu lhe rogo, tenha muito cuidado com a
maneira como você o dirige. Tome cuidado para ensinar apenas a verdade, só a
verdade. Com essa responsabilidade, como é sério o seu trabalho! Aquele que
trabalha para si, pode fazer como quiser; mas aquele que trabalha para outras pessoas,
precisa cuidar de agradar seu mestre; quem é contratado por um monarca precisa
tomar cuidado com o modo como desempenha sua obrigação; mas quem trabalha para
Deus deve tremer para não fazer sua tarefa malfeita. Lembre-se de que você está
trabalhando para Deus, se você é o que professa ser. Ai! temo que muitos
estejam longe de ter essa visão séria do trabalho de um professor de Escola
Dominical.
E a terceira: lembre-se de que
suas crianças precisam de ensino. "Venham, meus filhos, ouçam-me: eu lhes
ensinarei o temor do Senhor." Isso faz seu trabalho um tanto mais solene.
Se as crianças não precisassem ser ensinadas, eu não teria motivos para me
preocupar que você as ensinasse do modo certo. Trabalhos de super-rogação,
trabalhos que não são necessários, os homens podem fazer como quiserem, mas
esse trabalho é absolutamente necessário. Sua criança precisa ser ensinada.
Nasceu na iniqüidade; no pecado sua mãe a concebeu. Ela tem um coração mau; não
conhece Deus, e nunca conhecerá o Senhor a não ser que seja ensinada a
conhecê-lo. Ela não é como uma terra da qual ouvimos falar, que tem semente boa
escondida em seus recessos; em vez disso, ela tem semente má em seu coração.
Deus pode semear nele uma boa semente. Vocês professam ser instrumentos dele
para espalhar a boa semente no coração dessas crianças; lembrem-se, se essa
semente não for semeada, a criança será perdida para sempre, sua vida será uma
vida de alienação de Deus; e na sua morte o castigo eterno terá que ser sua
porção. Muito cuidado, então, como ensinam, lembrando-se da urgente necessidade
do caso. Esta não é uma casa que pegou fogo e que precisa de sua ajuda com o
hidrante, nem é um navio naufragado que exige seu remo no bote salva-vidas; mas
é um espírito imortal clamando para você em voz alta: "Venha e me
ajude." Por isso, eu lhe rogo, ensine o temor ao Senhor, e unicamente
isso; tenha ansiedade em dizer, e dizer de verdade: "Eu lhe ensinarei o
temor ao Senhor."
Capítulo 14: "Venham,
crianças"--O convite do salmista (Salmo 34.11)
Não deixa de ser uma coisa
singular o fato de que homens bons freqüentemente descobrem o seu dever quando
são colocados nas mais humilhantes posições. Nunca na vida de Davi ele esteve
em situação pior do que aquela que sugeriu este salmo. O cabeçalho é:
"Salmo de Davi, quando ele se fingiu de louco diante de Abimeleque, que o
expulsou, e ele partiu". Esse poema teve a intenção de comemorar aquele
evento, e foi sugerido pela situação. Davi foi levado diante do rei Aquis, o
Abimeleque da Filistia, e para conseguir escapar, fingiu ser louco,
acompanhando sua afirmação de loucura com certas ações muito degradantes que
bem poderiam parecer dar mostra de insanidade. Ele foi afastado do palácio, e,
como é comum, quando tais homens estão na rua, é provável que um bom número de crianças
tenha se reunido em volta dele.
A história triste é contada em
1Samuel 21.10-15. Em dias subseqüentes, quando Davi cantou louvores a Jeová,
relembrando como ele se tornou o motivo de riso de criancinhas, ele parecia
dizer: "Ah, pela minha tolice diante das crianças nas ruas, eu me reduzi
na estima de gerações que viverão depois de mim; agora eu procurarei desfazer o
dano--'Venham, meus filhos, ouçam-me, eu lhes ensinarei o temor do
Senhor'".
É bem possível que, se Davi nunca
tivesse estado numa posição dessas, ele jamais tivesse pensado nesse dever;
pois não encontro outro salmo em que ele tenha dito: "Venham, meus filhos,
ouçam-me." Ele tinha as responsabilidades de suas cidades, suas províncias
e sua nação pressionando-o, e em outras ocasiões pode ter dado pouca atenção à
educação dos jovens; mas aqui, levado à posição mais ridícula que um homem pode
ocupar, tornando-se alguém privado de pensamento racional, ele se lembra de seu
dever. O cristão importante ou próspero nem sempre se lembra dos "cordeiros".
Essa responsabilidade geralmente é entregue aos Pedros, cujo orgulho e
confiança foram esmagados, e que se alegram de terem na prática uma resposta à
pergunta do Senhor: "Tu me amas?".
"Venham, meus filhos,
ouçam-me; eu lhes ensinarei o temor do Senhor." A doutrina é que as
crianças têm capacidade para que lhes seja ensinado o temor do Senhor.
Os homens, em geral, se tornam
mais sábios depois de serem mais tolos. Davi havia sido extremamente tolo e,
depois, se tornou verdadeiramente sábio; e, sendo assim, não era provável que
ele pronunciasse sentimentos tolos, nem desse instruções que indicariam uma
mente fraca. Já ouvimos dizer que as crianças não podem entender os grandes
mistérios da religião. Até conhecemos alguns professores de Escola Dominical que
cautelosamente evitam mencionar as grandes doutrinas do evangelho, porque acham
que as crianças não estão preparadas para recebê-las. Esse mesmo erro também já
chegou ao púlpito; pois se acredita hoje, entre certa classe de pregadores, que
muitas das doutrinas da Palavra de Deus, embora sejam verdadeiras, não são
adequadas para serem ensinadas ao povo, visto que os perverteriam para sua
própria destruição. Chega dessas artimanhas sacerdotais! Tudo o que Deus
revelou deve ser pregado. Creio e pregarei tudo o que ele revelou, mesmo que eu
não seja capaz de entender. Sustento que não há doutrina da Palavra de Deus que
uma criança, se for capaz de ser salva, não seja capaz de receber. Às crianças
devem ser ensinadas todas as grandes doutrinas da verdade, sem uma única
exceção, para que, nos dias vindouros, elas possam retê-las firmemente.
Posso testemunhar que as crianças sabem
entender as Escrituras; porque tenho certeza de que, quando eu era apenas uma
criança, eu poderia ter discutido muitos pontos complicados de teologia
controvertida, já que eu havia escutado ambos os lados da questão afirmados
livremente no círculo dos amigos de meu pai. Na verdade, as crianças são
capazes de entender algumas coisas bem cedo, que nós mal entendemos mais tarde.
Elas têm sobretudo uma simplicidade de fé, e a simplicidade de fé é parecida
com a mais alta sabedoria; de fato, nós desconhecemos se há grande distinção
entre a simplicidade de uma criança e o gênio da mente profunda. As pessoas que
recebem as coisas com simplicidade, como uma criança, muitas vezes terão idéias
que alguém que costuma fazer silogismo de todo assunto nunca chegará a ter. Se
você deseja saber se as crianças podem ser ensinadas, eu lhe indicarei muitas
delas em nossas igrejas, e em famílias piedosas--não crianças prodígios, mas
como as que vemos freqüentemente--Timóteos e Samuéis, e garotinhas também, que
cedo conheceram o amor de um Salvador. Se uma criança pode se perder, ela
também é capaz de ser salva. Se pode pecar, pode, se a graça de Deus a ajudar,
crer e receber a Palavra de Deus. Se pode aprender o mal, tenha certeza de que
são competentes, sob o ensino do Espírito Santo, para aprender o bem.
Nunca entre na sua classe com a
idéia de que as crianças não podem compreendê-lo; porque se você não consegue
fazer com que elas o compreendam, é possível que seja porque você mesmo não
compreende; se você não ensina as crianças aquilo que quer que elas aprendam,
talvez seja porque você não esteja apto para a tarefa; você deve usar palavras
mais simples, mais adequadas à capacidade delas, e então descobrirá que não foi
um problema da criança, mas sim do professor, se ela não aprendeu. Entenda que
as crianças são capazes de salvação. Aquele que, na soberania divina, recuperou
um pecador de cabeça branca do erro de seus hábitos, pode mudar uma criancinha
para que ela abandone seus maus costumes juvenis. Aquele que, na décima
primeira hora, acha homens desocupados e os manda para sua vinha, pode chamar e
chama homens no raiar do dia para trabalhar por ele. Aquele que pode mudar o
curso de um rio quando já correu muito e tornou-se uma enchente poderosa, pode
controlar um riozinho recém-nascido que salta de sua fonte-berço, e fazer com
que corra no leito que ele deseja. Ele pode fazer todas as coisas. Pode
trabalhar no coração das crianças segundo a sua vontade, pois todas estão sob o
seu controle.
Não vou estabelecer a doutrina
porque não creio que exista alguém que possa duvidar disso. O meu medo, no
entanto, é que muitos não esperam ter notícia de que as crianças estejam sendo
salvas. Em todas as igrejas, tenho notado uma espécie de repugnância diante de
qualquer coisa que se pareça com piedade infantil. Assustamo-nos com a idéia de
um menino pequeno amar a Cristo; e se ouvimos falar de uma menina pequena
seguir o Salvador, dizemos que é uma imaginação infantil, uma impressão que vai
definhar. Eu lhes rogo, nunca suspeite da piedade dos pequenos. É uma planta
muito nova, não a trate com mão pesada. Há algum tempo, me contaram um caso que
me parece verídico. Uma menina, de 5 ou 6 anos, que amava Jesus de verdade,
pediu à mãe se podia se tornar membro da igreja. A mãe lhe disse que ela era
muito nova, e a pobrezinha ficou triste demais. Depois de algum tempo, a mãe,
que viu que a piedade estava no coração da criança, falou com o pastor sobre o
assunto. O pastor conversou com a criança, e disse à mãe: "Estou
completamente convencido da piedade dela, mas não posso recebê-la na igreja,
ela é nova demais." Quando a criança ouviu isso, uma melancolia estranha
marcou seu rosto, e, na manhã seguinte, quando a mãe foi até sua caminha, ela
estava deitada com uma lágrima nos olhos, morta de pura tristeza; seu coração
tinha sido partido porque não podia seguir seu Salvador e fazer o que ele lhe
mandara fazer. Eu não teria matado essa criança! Tenha muito cuidado com a
forma como você trata a piedade juvenil. Seja delicado com ela. Creia que as
crianças podem ser salvas tanto quanto você. Eu creio firmemente na salvação de
crianças. Quando você vir o coração infantil levado ao Salvador, não se afaste
e não use de um tom duro e que desconfia de tudo. Às vezes, é melhor ser
enganado do que ser o meio de ofender um desses pequeninos que crêem em Jesus.
Deus manda ao seu povo uma crença firme de que botõezinhos de graça merecem
todo o cuidado!
Capítulo 15: Os dois incentivos do
rei Davi aos pais e mestres
O primeiro incentivo é o do
exemplo piedoso. Davi disse: "Venham meus filhos, ouçam-me; eu lhes
ensinarei o temor ao Senhor." Você não teme andar nos passos de Davi,
teme? Você não fará objeção quanto a seguir o exemplo de uma pessoa que foi
muito santo e, depois, muito grande. Será que o pastorzinho, o matador do
gigante, o doce salmista de Israel, o poderoso monarca, deixa pegadas em que
você é orgulhoso demais para pisar? Oh, não! Você se agradará, eu sei, de ser
como Davi era. Se quiser, no entanto, um exemplo ainda superior ao de Davi,
ouça o filho de Davi enquanto de seus lábios fluem doces palavras: "Deixem
vir a mim as crianças e não as impeçam, pois o Reino dos céus pertence aos que
são semelhantes a elas" (Mt 19.14). Estou certo de que você se sentiria
incentivado se sempre pensasse nesses exemplos.
Vocês que ensinam crianças não são
desonrados por essa ocupação. Alguns poderão dizer: "Você é só um(a)
professor(a) de Escola Dominical", mas você é uma pessoa nobre, que tem
uma ocupação honrosa, e teve antecessores ilustres. Nós gostamos de ver pessoas
de alguma projeção na sociedade se interessando por escolas dominicais. Um
grande defeito em muitas de nossas igrejas é que as crianças são deixadas aos
cuidados dos jovens; os membros mais velhos, que têm mais sabedoria, lhes dão
pouca atenção; e muitas vezes os membros mais endinheirados ficam de lado como
se o ensino dos pobres não fosse (mas na verdade é) responsabilidade especial dos
ricos. Almejo ver o dia em que os poderosos de Israel serão encontrados
cooperando nessa grande guerra contra o inimigo. Nos Estados Unidos, já
soubemos de presidentes, juízes, membros do Congresso e pessoas de posições
elevadas, não condescendendo, porque eu recuso usar tal termo, mas honrando a
si mesmos ao ensinar criancinhas em Escolas Dominicais.
Quem ensina uma classe numa Escola
Dominical já ganhou um bom diploma. Prefiro receber um título de professor de
Escola Dominical do que um título de mestre, bacharel ou qualquer outra honra
conferida por homens. Então, se anime, pois seus deveres são muito honrados.
Que o exemplo monárquico de Davi e o exemplo divino de Jesus Cristo o inspirem
com nova diligência e crescente ardor, com perseverança confiante e duradoura,
a prosseguir ainda mais em seu trabalho abençoado, dizendo como fez Davi:
"Venham, meus filhos, ouçam-me; eu lhes ensinarei o temor ao Senhor."
O segundo é o incentivo de grande
sucesso. Davi disse: "Venham, crianças, ouçam-me"; ele não
acrescentou "talvez eu lhes ensine o temor ao Senhor", e sim,
"eu as ensinarei". Ele obteve êxito; ou, se não, outros
obtiveram. O êxito das Escolas Dominicais! Se eu começar a falar disso, terei
um tema sem fim; portanto, não começarei. Muitos volumes poderiam ser escritos
sobre o assunto, e depois de todos escritos, poderíamos dizer: "Suponho
que nem o mundo todo poderia caber tudo que poderia ser escrito." Lá em cima,
onde as hostes estreladas cantam perpetuamente os altos louvores de Deus, lá
onde a multidão vestida de branco lança suas coroas aos pés dele, veremos o
sucesso das escolas dominicais. Ali, também, onde milhões de crianças se reúnem
domingo após domingo para cantar "Louvai e adorai-o, todas as crianças,
Deus é amor", vemos com alegria o êxito das escolas dominicais. E aqui no
norte, em quase todos os púlpitos de nossa terra, e ali nos bancos onde os
diáconos estão, e membros piedosos se unem a eles em culto, vê-se o êxito das
escolas dominicais. E bem longe, do outro lado daquele oceano imenso, nas ilhas
do Sul, em terras onde moram aqueles que se curvam diante de blocos de madeira
e pedra, há missionários que foram salvos nessas escolas, e os milhares,
abençoados por seus esforços, contribuem para aumentar a corrente poderosa do
incalculável, e quase disse do infinito, sucesso da instrução da escola
dominical. Continuem com seu culto sagrado; muito já foi feito, mas mais será
feito ainda. Que todas as suas vitórias passadas os inflamem com novo ardor,
que a lembrança de seus triunfos em campanhas anteriores e todos os troféus
ganhos pelo seu Salvador no campo de batalha do passado sejam seu incentivo
para correr em frente com o dever do presente e do futuro.
A infância e a Bíblia sagrada (2
Timóteo 3.15)
Paulo ensinou o evangelho ao jovem
Timóteo; ele não só o fez ouvir sua doutrina como o fez ver sua prática. Não
podemos forçar a verdade sobre os homens, mas podemos tornar nosso ensino claro
e decidido, de modo que nossa vida seja coerente com ela. A verdade e a
santidade são os antídotos mais corretos para o erro e a impiedade. O apóstolo
disse a Timóteo: "Permanece naquilo que aprendeste e de que foste
inteirado, sabendo de quem o aprendeste."
Ele então enfatizou outro remédio
forte que tem sido de grande serventia para o jovem pregador - o conhecimento
das Escrituras Sagradas desde criança. Isso foi para o jovem Timóteo uma de
suas melhores salvaguardas. Seu treinamento o mantinha como âncora, e o salvava
da terrível deriva da época. Moço feliz, de quem o apóstolo pôde dizer:
"Desde a infância sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para
a salvação pela fé em Cristo Jesus!"
Para estar preparado para o
conflito que vem pela frente, temos só que pregar o evangelho, e viver o
evangelho; e também cuidar de ensinarmos às crianças a Palavra do Senhor. E
isso é especialmente importante, pois é pela "boca dos pequeninos e das
crianças de peito" que Deus silenciará o inimigo. É tolice sonhar que o
aprendizado humano precisa ser enfrentado com aprendizado humano, ou que
Satanás deve expulsar Satanás. Não. Erga a serpente de bronze onde quer que as
serpentes ardentes estiverem picando as pessoas, e os homens olharão para ela e
viverão. Tire de casa as crianças, e erga-as ao alto, e volte seus olhinhos
para o medicamento divinamente ordenado; pois ainda há vida em um olhar--vida
em contraste com os variados venenos da serpente que agora estão envenenando o
sangue dos homens. Afinal, não há cura para a escuridão da meia-noite senão o
sol do raiar do dia, não há esperança para o mundo em trevas senão naquela luz
que ilumina todo homem. Brilhe, ó, sol da justiça, e desaparecerão a névoa, a
nuvem da neblina e o escuro. Mantenha os planos apostólicos e confie plenamente
no sucesso apostólico. Pregue para Cristo; pregue a Palavra na estação própria
e fora de estação: e ensine as crianças. Um dos métodos principais para evitar
o joio nos campos delas, é semeá-las cedo com trigo.
O trabalho da graça de Deus em
Timóteo começou com instrução bem cedo--"Desde a infância sabes as
sagradas letras."
Observe o tempo para a instrução. A expressão
"desde a infância" é melhor entendida como sendo "desde
criancinha". Não significa uma criança crescida, ou jovem, mas sim uma criança
bem pequenina. Desde criancinha Timóteo conheceu os escritos sagrados. Essa
expressão é usada, sem dúvida, para mostrar que nunca é cedo demais para
começar a preencher a mente de nossos filhos com conhecimento bíblico. Os bebês
recebem impressões muito antes de ficarmos cientes do fato. Durante os
primeiros meses da vida de uma criança, ela aprende mais do que imaginamos.
Aprende bem cedo o amor de sua mãe, e sua própria dependência. E se a mão for
sábia, aprende o que significa obediência, e a necessidade de ceder sua vontade
a uma vontade superior. Essa pode ser a nota tônica de toda sua vida futura. Se
ela aprende obediência e submissão cedo, isso pode evitar mil lágrimas dos
olhos da criança, e outras tantas do coração da mãe. Perde-se uma posição de
vantagem quando até mesmo a primeira infância é deixada sem esse cultivo.
A Bíblia pode ser aprendida por
crianças logo que sejam capazes de entender qualquer coisa. É notável o fato,
que tenho ouvido de muitos professores, de que as crianças aprendem a ler pela
Bíblia melhor do que por qualquer outro livro. É difícil saber porque isso
acontece, talvez seja pela simplicidade da linguagem; mas eu acho que isso é
verdade. Um fato bíblico pode ser compreendido e, muitas vezes, um incidente da
história comum é esquecido. Há uma adaptação dentro da Bíblia para pessoas de
todas as idades, e, sendo assim, ela tem uma adequação para crianças. Erramos
quando achamos que precisamos começar com outra coisa e depois chegar às
Escrituras. A Bíblia é o livro para o raiar do dia. Partes dela estão acima do
entendimento da criança, pois estão acima da compreensão dos mais avançados
entre nós. Há profundidades nela em que leviatã pode nadar; mas há também
ribeirões em que um cordeiro pode caminhar na água. Mestres sábios saberão
conduzir seus pequeninos aos pastos verdes junto às águas de descanso.
Eu notava, na vida daquele homem
de Deus cuja falta pesa sobre muitos de nossos corações, o conde de
Shaftesbury, que suas primeiras impressões religiosas foram produzidas por uma
senhora humilde. As impressões que o fizeram homem de Deus e amigo do homem
foram recebidas no quarto de criança. O pequeno lorde Ashley teve uma ama
piedosa que lhe falava das coisas de Deus. Ele nos conta que ela morreu antes
que ele completasse 7 anos, prova evidente de que cedo na vida seu coração fora
capaz de receber o selo do Espírito de Deus, de recebê-lo por meio de uma
instrumentalidade humilde. Bendita entre as mulheres foi aquela cujo nome
desconhecemos, mas que prestou serviço inestimável para Deus e o homem pelo seu
ensino santo da criança eleita. Babás jovens, notem isso.
Dê-nos os primeiros 7 anos de uma
criança, com a graça de Deus, e poderemos desafiar o mundo, a carne e o diabo a
estragar aquela alma imortal. Nesses primeiros anos, enquanto o barro está
macio e moldável, vão longe para decidir o formato do vaso. Não diga que sua
posição, vocês que ensinam os novos, fica um inferior àquela das pessoas cuja
maior ocupação é com pessoas mais velhas. Não, vocês têm os primeiros tempos
deles, e suas impressões, como vêm primeiro, serão duradouras, e que possam ser
boas, somente boas! Entre os pensamentos que vêm a um idoso antes de ele entrar
no céu, os mais numerosos são aqueles que antes conheceram quando se sentava no
colo de sua mãe. Aquilo que fez com que o Dr. Guthrie pedisse um "hino de
criança" quando estava morrendo, é apenas um instinto de nossa natureza
que nos leva a completar o círculo, dobrando juntas as pontas da vida. As
coisas que são caras à infância são as mais queridas da velhice. Livramo-nos de
uma parte da serpentina que nos rodeia e atrapalha, e voltamos a nossos seres
mais naturais; e por isso os velhos cantos estão sobre nossos lábios, e os
velhos pensamentos estão em nossas mentes. Os ensinos de nossa infância deixam
impressões definidas e distintas na mente, que permanecem depois que setenta
anos já passaram. Cuidemos que tais impressões sejam feitas para os mais altos
propósitos.
É bom notar a admirável seleção
de instrutores. Não ficamos sem saber quem instruiu o jovem Timóteo. No
primeiro capítulo desta epístola, Paulo fala: "Recordo-me da sua fé não
fingida, que primeiro habitou em sua avó Lóide e em sua mãe Eunice; e estou
convencido de que também habita em você" (2Tm 1.5). Sem dúvida, a avó
Lóide e a mãe Eunice se uniram para ensinar o pequeno. Quem deve ensinar as
crianças senão os pais? O pai de Timóteo era grego, e provavelmente um pagão,
mas seu filho dele foi feliz por ter uma avó venerável, tantas vezes a mais
querida de todos os parentes de uma criança. Tinha também uma mãe graciosa,
antes uma judia devota, e depois também uma cristã de fé firme, que fez seu
prazer diário ser ensinar ao seu próprio filho a Palavra do Senhor. Ó, mães
queridas, Deus lhes confiou uma obrigação sagrada muito grande! Com efeito, ele
disse a cada uma de vocês: "Leve este menino e cuide dele para mim, e eu
lhe pagarei por isso" (Êx 1.8b).
Você é chamada a equipar o futuro
homem de Deus, para que ele possa ser equipado para toda boa obra. Se Deus o
poupar, você poderá viver para ouvir no futuro esse menino falando para
milhares de pessoas, e terá a doce reflexão em seu coração de que os
ensinamentos tranqüilos do quarto do menino levaram o homem a amar a seu Deus e
a servi-lo. Aqueles que acham que uma mulher presa em casa por sua pequena
família não faz nada pensam o contrário do que é verdade. Dificilmente uma mãe
piedosa pode deixar o lar para ir a um lugar de culto; mas não pense que ela se
perde para o trabalho da igreja; longe disso, ela faz o melhor trabalho
possível para seu Senhor. Mães, o treinamento piedoso de seus filhos é sua
primeira e mais premente obrigação. Mulheres cristãs, ao ensinar a Bíblia às
crianças, estão cumprindo seu papel para o Senhor tanto como Moisés ao julgar
Israel, ou Salomão ao construir o templo.
Capítulo 17: Testemunhas para Deus
convertidas na mocidade (1Reis 18.12)
Duvido que Elias tenha apreciado
muito Obadias. Ele não o trata com nenhuma consideração, ao contrário, fala com
ele mais rispidamente do que se imaginaria de um irmão na fé. Elias era o homem
de ação--corajoso, sempre à frente, sem nada a ocultar; Obadias era um crente
quieto, verdadeiro e firme, mas numa posição muito difícil, e por isso
constrangido a fazer sua obrigação de maneira menos aberta. A fé que tinha no
Senhor movia sua vida, mas não o impulsionava a sair da corte do rei. Mesmo
depois que Elias soube mais como ele era, nessa entrevista, Elias fala acerca
do povo de Deus como se não contasse muito com Obadias e com outras pessoas
semelhantes. Ele diz para Deus: "Quebraram os teus altares, e mataram os
teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também me procuram para
matar-me" (1Re 19.14b). Ele sabia muito bem que Obadias estava vivo, e
que, embora não fosse exatamente um profeta, era um homem de destaque; mas parece
ignorá-lo como se fosse de pequena estatura no grande embate. Talvez porque
Elias, homem de ferro, profeta de fogo e trovão, servo poderoso do Altíssimo,
desse pouco valor a alguém que não assumisse uma posição de realce e lutasse
igual a ele. A tendência de mentes corajosas e zelosas é valorizar menos a
piedade discreta, reservada. Servos fiéis de Deus e aceitos por ele podem dar o
melhor de si sob grandes desvantagens, contra forte oposição, e não serem
reconhecidos, e podem mesmo evitar até o menor reconhecimento; portanto, homens
que vivem na luz feroz da vida pública poderão subestimá-los. Esses astros
menores ficam perdidos no brilho do homem a quem Deus ilumina como um novo Sol
para flamejar na escuridão. Elias flamejava no céu de Israel como um raio com
trovão vindo da mão do Eterno, e naturalmente ele seria um tanto impaciente com
aqueles cujos movimentos eram mais lentos e menos aparentes. É Marta e Maria de
novo, em alguns aspectos.
O Senhor não ama que seus servos,
por maiores que sejam, pensem pouco de seus companheiros menores, e me ocorre
que ele tenha arranjado as coisas de maneira que Obadias se tornasse importante
para Elias quando ele tinha de enfrentar o rei irado de Israel. Solicitou-se ao
profeta que se apresentasse a Acabe, e ele o faz; mas julga ser melhor começar
mostrando-se ao governador do palácio, para que ele leve a notícia a seu
mestre, o rei, e o prepare para a entrevista. Acabe estava nervoso com os
resultados terríveis da longa seca e poderia, na sua fúria, tentar matar o profeta,
e como tem tempo para reconsiderar, pode se acalmar um pouco.
Elias tem uma entrevista com
Obadias, e manda que este vá e diga a Acabe: "Eis aí Elias." Às
vezes, o caminho mais curto para atingirmos o nosso objetivo pode dar algumas
voltas. Mas é notável que Obadias seja útil para um homem tão superior a ele.
Ele, que nunca temeu enfrentar reis, se vê usando como ajudante um indivíduo
muito mais tímido do que ele.
Aprendemos mais pela narrativa que
Deus nunca se deixa ficar sem testemunhas neste mundo. Sim, e não se deixará
ficar sem testemunhas nos lugares piores do mundo. Que moradia horrível para um
crente verdadeiro deve ter sido a corte de Acabe! Mesmo que não houvesse outro
pecador lá, além daquela mulher Jezabel, ela já seria suficiente para tornar o
lugar uma poça de iniqüidade. Aquela rainha sidônia, decidida e orgulhosa,
fazia o que queria com o pobre Acabe. Talvez ele jamais tivesse sido o
perseguidor que foi se sua esposa não o tivesse instigado; mas ela detestava
intensamente o culto de Jeová e desprezava a simplicidade de Israel comparada
com o estilo mais pomposo dos sidônios. Acabe devia ceder às suas exigências
imperiosas, pois ela não aceitava contradições, e quando seu espírito altivo se
levantava ela desafiava toda oposição. Contudo, naquela mesma corte onde
Jezabel era senhora, o mordomo era um homem que temia muito a Deus. Nunca se
surpreenda por encontrar um crente em qualquer parte. A graça pode viver onde
você nunca esperaria vê-la sobreviver por uma hora.
José temeu a Deus na corte do
faraó; Daniel foi um conselheiro de confiança de Nabucodonosor; Mordecai
esperou na porta do rei Xerxes; a esposa de Pilatos rogou pela vida de Jesus; e
haviam santos na casa de César. Ima-gine, então, encontrar diamantes de
excelente qualidade no palácio imundo de Nero. Aqueles que temiam a Deus em
Roma não só foram cristãos, como foram exemplos para todos os outros cristãos
pelo seu amor fraterno e sua generosidade. Certamente, não há lugar nesta terra
onde não haja alguma luz: a caverna de iniqüidade mais escura tem sua tocha.
Não tema; você pode achar seguidores de Jesus dentro do território do
Pandemônio. No palácio de Acabe, você encontra um Obadias que se alegra em
manter comunhão com santos desprezados, e deixa a assembléia de um monarca
pelos esconderijos de ministros perseguidos.
Essas testemunhas de Deus muitas
vezes são pessoas convertidas na mocidade. Ele parece deleitar-se em fazer
estes seus porta-bandeiras especiais no dia da batalha. Veja Samuel! Quando
Israel se aborreceu com a maldade dos filhos de Eli, a criança Samuel
ministrava diante do Senhor. Veja Davi! Quando é apenas um pastorzinho, ele
acorda os ecos dos montes solitários com seus salmos e o acompanhamento da
música de sua harpa. Veja Josias! Quando Israel se revoltou, foi uma criança
chamada Josias que quebrou os altares de Baal e queimou os ossos de seus
sacerdotes. Daniel era apenas um rapaz quando se postou pela pureza e por Deus.
O Senhor tem hoje - não sei onde--um pequeno Lutero no colo de sua mãe, um
pequeno Calvino aprendendo na escola dominical, um jovem Zuínglio cantando um
hino a Jesus. Esta era pode se tornar cada vez pior; às vezes, creio que se
tornará mesmo, porque muitos sinais apontam para isso; mas o Senhor está
preparado para ela.
Os dias são turvos e pressagiam o
mal; e esse entardecer pode tornar-se cada vez mais escuro e ser uma noite mais
negra que nunca; mas a causa de Deus está segura nas mãos de Deus. Seu trabalho
não demorará por falta de homens. Não estenda a mão de Uzias para firmar a arca
do Senhor; ela passará em segurança no caminho predestinado de Deus. Cristo não
falhará nem ficará desanimado. Deus enterra seus servos, mas sua obra continua
viva. Se não houver no palácio um rei que honre a Deus, ainda será encontrado
ali um governador que desde a mocidade teme ao Senhor, que cuidará dos profetas
do Senhor, e os ocultará até que venham dias melhores. Portanto, tenham
coragem, e aguardem horas mais felizes. Nada de valor real está em perigo
enquanto Jeová está no trono. As reservas do Senhor estão se apresentando, e
seus tambores rufam a vitória.
Capítulo 18: Piedade "desde a
juventude" em Obadias
Obadias possuiu piedade cedo--"Eu,
que sou teu servo, tenho adorado o Senhor desde a minha juventude" (1Re
18.12). Ah, que todas as nossas crianças cheguem à idade adulta, homens e
mulheres, e possam falar a mesma coisa! Felizes são as pessoas que estão em tal
situação!
Como Obadias veio a temer o Senhor
na juventude, nós não podemos saber. O instrutor por meio de quem ele foi
levado à fé em Jeová não é mencionado. Contudo, é razoável concluirmos que ele
teve pais crentes em Deus. Por menor que possa parecer a prova, acho que é
bastante firme quando eu lhes faço lembrar seu nome. Naturalmente, deve
lhe ter sido dado pelo seu pai ou sua mãe, e como significa "o servo de
Jeová", creio que indicava a piedade de seus pais. Nos dias em que existia
perseguição em toda parte contra os fiéis, e o nome de Jeová estava sendo
desprezado porque os bezerros de Betel e as imagens de Baal estavam expostos em
toda parte, não acho que pais incrédulos teriam dado ao filho o nome que
significasse "o servo de Jeová", se eles não sentissem reverência
diante do Senhor. Não teriam sem motivo se exposto aos comentários de seus
vizinhos idólatras e à inimizade dos grandes. Numa época em que nomes
significavam alguma coisa, eles o teriam chamado de "o filho de
Baal", ou de "o servo de Camos", ou de qualquer outro nome que
expressasse reverência aos deuses populares, se o temor de Deus não estivesse
diante de seus olhos. Para mim, a escolha desse nome revela seu desejo sincero
de que seu menino pudesse crescer para servir a Jeová, e nunca dobrar os
joelhos diante dos detestados ídolos da rainha sidônia. Quer tenha ou não sido
assim, é bem certo que milhares dos crentes mais inteligentes devem sua
primeira inclinação para a piedade às doces associações do lar. Quantos de nós
poderíamos ter tido um nome como o de Obadias; pois nem bem vimos a luz, nossos
pais procuraram nos iluminar com a verdade. Fomos consagrados ao serviço de
Deus antes de sabermos que existia um Deus. Muita oração comovida e sincera foi
feita sobre nossa fronte infantil e selou-nos para o céu; fomos amamentados na
atmosfera de devoção; quase nenhum dia passava sem que insistissem conosco para
que fôssemos fiéis servos de Deus, e ainda jovens pediam que buscássemos a
Jesus e déssemos nosso coração a ele.
Se Obadias não teve pais cheios de
graça, não posso lhes dizer como ele veio a ser um crente no Senhor naqueles
dias tristes, a não ser que tenha chegado a ter a companhia de algum professor
bondoso, alguma ama gentil, ou talvez um bom servo na casa de seu pai, ou quem
sabe um vizinho piedoso, que ousou reunir criancinhas à sua volta e contar-lhes
sobre o Senhor Deus de Israel. Alguma santa mulher pode ter instilado a lei do Senhor
em sua mente juvenil antes que os sacerdotes de Baal pudessem envenená-la com
suas mentiras. Nenhuma menção é feita em relação à conversão desse homem em sua
juventude, e não faz mal, faz? Você e eu não queremos ser mencionados se nós
somos servos de Deus de coração correto.
Essa piedade juvenil de Obadias
teve as marcas da sinceridade. O modo como ele a descreveu é bastante
instrutivo. "Tenho adorado o Senhor desde a minha juventude." Quase
não me lembro em minha vida toda de ter ouvido a piedade de crianças descrita
em conversa comum nesses termos, mas é expressão comum nas Escrituras. Nós
dizemos: "A criança querida amava a Deus." Falamos delas
"ficarem tão felizes" etc., e não questiono se a linguagem está
certa; o Espírito Santo fala do "temor do Senhor" como sendo "o
princípio da sabedoria"; e Davi diz: "Venham crianças, ouçam-me: eu
lhes ensinarei o temor do Senhor." As crianças receberão muita alegria
pela sua fé no Senhor Jesus, mas, essa alegria, se é verdadeira, está cheia de
reverência humilde e admiração pelo Senhor.
Nem é preciso que eu lhes fale das
vantagens da piedade vir cedo. Vou, no entanto, fazer um resumo. Ser crente em
Deus cedo na vida é ser salvo de mil arrependimentos. Esse indivíduo nunca
precisará dizer que leva nos ossos os pecados de sua mocidade. Desde cedo, a
piedade nos ajuda a formar associações importantes para o resto da vida e
também nos salva daquelas que são prejudiciais. O moço cristão não cairá nos
pecados que são comuns aos homens novos, e não estragará a saúde de seu corpo
com excessos. Provavelmente, se casará com uma mulher cristã, e assim terá uma
companheira santa em sua marcha em direção ao céu. Escolherá como compa-nheiros
aqueles que serão seus amigos na igreja e não no bar; seus ajudantes na
virtude, e não seus tentadores no vício. Muita coisa depende de quem escolhemos
como companheiros quando começamos a vida. Se começamos em má companhia, é
difícil mudar. O homem levado a Cristo cedo na vida tem essa vantagem, ele é
ajudado a formar hábitos santos e é salvo de se tornar escravo dos hábitos
contrários. Hábitos logo se tornam parte de sua natureza; formar novos é
difícil; mas aqueles formados cedo na vida permanecem na velhice. Tem sentido o
verso:
É mais fácil começar,
Conforme Cristo disse;
Quem se acostuma a pecar
Não muda na velhice.
Conforme Cristo disse;
Quem se acostuma a pecar
Não muda na velhice.
Estou certo de que é assim. E
mais, noto que, com freqüência, aqueles que são levados a Cristo quando novos
crescem na graça mais rapidamente, mais prontamente do que outras pessoas. Não
têm tanta coisa para desaprender, e nem têm um peso tão grande de antigas
memórias para carregar. Essas pessoas escapam das cicatrizes e feridas abertas
que vêm de ter passado anos a serviço de Satã, porque Deus as traz para sua
igreja antes de terem andado longe no mundo.
Por isso, recomendamos a piedade
cedo na vida. A graça fica mais bonita nos jovens. Aquilo que não seria notado
no homem crescido nos chama a atenção imediatamente quando visto numa criança.
A graça numa criança tem uma força convincente; o infiel larga a arma e admira.
Uma palavra dita por uma criança fica na memória, e sua naturalidade no jeito
toca o coração. Quando o sermão do ministro falha, a oração da criança pode
obter vitória. E mais, a religião nas crianças sugere encorajamento àqueles de
anos mais maduros; pois outros, vendo o pequeno salvo dizem de si para si:
"Por que nós também não vamos achar o Senhor?" Com um certo poder
secreto isso abre portas fechadas, e dá uma volta na chave na fechadura da
descrença. Onde nenhuma outra coisa pode ganhar entrada para a verdade, o amor
de uma criança realiza isso. Ainda é verdade: "Da boca de pequeninos e
crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para
fazeres emudecer o inimigo e o vingador" (Sl 8.3).
Capítulo 19: Obadias e Elias
A piedade jovem conduz à piedade
perseverante. Obadias pôde dizer: "Tenho adorado o Senhor desde a minha
juventude." O tempo não o havia mudado: qualquer que tenha sido sua idade,
sua religião não deteriorara. Todos nós gostamos de novidade, e já vi alguns
homens caírem no mal, como se fosse por uma mudança. Não se trata de se queimar
até a morte no martírio que é a obra dura; tostar-se perto de um fogo lento é
um teste de firmeza muito mais terrível. Continuar com graça durante uma longa
vida de tentação é ser gracioso de fato. Pois a graça de Deus converter um
homem como Paulo, que está cheio de ameaças contra os santos, é uma grande
maravilha; mas a graça de Deus preservar um crente por dez, vinte, trinta,
quarenta, cinqüenta anos, é milagre igualmente grande e merece mais de nosso
louvor do que geralmente ganha. Obadias não foi afetado pela passagem do tempo;
ele foi visto quando velho o que era quando jovem.
Nem foi ele levado pela moda
daqueles tempos maus. Ser servo de Jeová era considerado coisa desprezível,
antiga, ignorante, coisa do passado; o culto a Baal era o "pensamento
moderno" da hora. Toda a corte andava atrás do deus de Sidon, e todos os
cortesãos iam pelo mesmo caminho. Meu lorde adorava Baal, e minha dama adorava
Baal, porque a rainha adorava Baal; mas Obadias disse: "Tenho adorado o
Senhor desde a minha juventude." Bendito é o homem que não se importa com
a moda, pois ela passa. Se por um tempo ela se entusiasma pelo erro, o que faz
o homem crente senão permanecer firmemente com o certo? Obadias nem era afetado
pela ausência dos meios de graça. Os sacerdotes e levitas tinham fugido para
Judá, e os profetas foram mortos ou tiveram de se esconder, e não havia culto
público de Jeová em Israel. O templo estava lá longe em Jerusalém; portanto,
ele não tinha oportunidade de ouvir qualquer coisa que pudesse fortalecê-lo ou
incentivá-lo; contudo, mantinha seu curso.
Além disso, havia as dificuldades
de sua posição. Ele era mordomo do palácio. Se tivesse agradado Jezabel e
adorado Baal, talvez se sentisse mais seguro em sua posição, pois teria
patrocínio real; mas estava ali, governador na casa de Acabe, mas temente a
Jeová. Deve ter tido que caminhar muito delicadamente, e vigiar bem suas
palavras. Imagino que ele tenha se tornado uma pessoa muito cautelosa, e que
tivesse um pouco de medo mesmo de Elias, esperando que não lhe desse uma ordem
que pudesse levar à sua destruição. Tornou-se extremamente prudente, e olhava
as coisas em volta para nem comprometer sua consciência nem pôr em perigo sua
posição.
É preciso ser um homem
notavelmente sábio para fazer isso, mas aquele que pode fazê-lo deve ser
louvado. Ele não fugiu de sua posição, nem retrocedeu de sua religião. Se
tivesse sido forçado a fazer coisa errada, tenho certeza de que teria imitado
os sacerdotes e levitas, e fugido para Judá, onde o culto a Jeová continuava;
mas sentiu que, sem ceder à idolatria, podia fazer algo a favor de Deus em sua
posição avantajada, e assim se determinou a ficar e a lutar até o fim.
Quando não há esperança de
vitória, você pode resolver se retirar; mas é um bravo homem aquele que, quando
a corneta soa o toque de retirada, não o ouve, que põe seu olho cego à luneta e
não pode ver o sinal de cessar fogo, mas segura sua posição contra todas as
probabilidades, e causa todo o prejuízo possível ao inimigo. Obadias foi um
homem que na verdade "segurou o forte", pois sentiu que quando todos
os profetas estavam condenados por Jezabel, era papel dele ficar perto da tigre
fêmea e salvar a vida de pelo menos cem servos de Deus do poder cruel dela. Se
não pudesse fazer mais, com isso já não teria vivido em vão. Admiro o homem
cujo poder decisivo é igual à sua prudência, embora eu tivesse temido muito
ocupar um lugar tão perigoso. O caminho que seguia era equivalente a andar na
corda bamba com Blondim.
Eu mesmo não gostaria de tentar
isso, nem recomendo que alguém tente um feito tão difícil. O papel de Elias é
muito mais seguro e grandioso. O curso do profeta era simples; não tinha de
agradar, e sim de reprovar Acabe; e não tinha que ser cauteloso, mas agir de um
modo ousado e forte pelo Deus de Israel. Quanto parece ser o homem mais
importante quando os dois estão de pé juntos diante de todos nós. Obadias cai
com o rosto na terra e o chama "Meu senhor Elias"; e estava certo,
porque era seu inferior. Mas eu preciso não cair moralmente na veia de Elias
para que não precise deter-me com uma parada brusca. Foi um grande feito
Obadias poder gerenciar a casa de Acabe com Jezabel nela, e mesmo assim, com
tudo isso, ganhar essa comenda do Espírito de Deus, que ele temia ao Senhor
grandemente.
Ele perseverou, também, não se
opondo ao seu sucesso na vida; e isso é crédito dele. Nada há mais perigoso
para um homem do que prosperar neste mundo, e tornar-se rico e respeitável.
Naturalmente, nós o desejamos, lutamos por isso; mas quantos que, ao ganhar,
têm perdido tudo, quanto à riqueza espiritual! Antes, o homem amava o povo de
Deus, e agora diz: "São uma classe vulgar de pessoas." Conquanto
pudesse ouvir o evangelho, ele não se importava com a arquitetura do prédio da
igreja; mas agora que se tornou crítico de arte, precisa ter uma torre,
arquitetura gótica, um púlpito de mármore, trajes sacerdotais, um belo jardim,
e toda sorte de coisas bonitas. À medida que encheu o bolso, esvaziou o
coração. Ficou longe da verdade e dos princípios ao prosperar quanto aos bens
materiais. É um negócio ruim, que em certo tempo ele teria sido o primeiro a
condenar. Não há nobreza nessa conduta; é covarde até o último grau.
Deus nos salve dessa situação; mas
muitas pessoas não são salvas dela. Sua religião não é matéria de princípios,
mas matéria de interesses: não é a busca da verdade, mas uma ansiedade por alta
sociedade, seja isso o que for; não é seu objetivo glorificar a Deus, mas obter
maridos ricos para as filhas; não é a consciência que os guia, mas a esperança
de poder convidar um nobre cavaleiro para jantar com eles, e poder comer na
mansão dele depois. Não pense que é sarcasmo meu: falo com tristeza de coisas
que deixam a pessoa envergonhada. Ouço falar delas diariamente, embora não me
afetem pessoalmente. Vivemos uma época de maldades disfarçadas sob a noção de
respeitabilidade. Deus nos envie homens do calibre de John Knox, ou, se
preferir, do metal inquebrável de Elias; e se esses provarem ser muito duros e
sérios podemos nos contentar com homens como Obadias. É possível que estes
sejam mais difíceis de produzir do que os Elias: mas com Deus, todas as coisas
são possíveis.
Obadias, com sua graça precoce e
decisão perseverante, tornou-se um homem de piedade eminente, e isso é mais
admirável considerando o que ele era e onde estava. Piedade eminente em um
lorde da corte de Acabe! Essa é mesmo uma maravilha da graça. A religião desse
homem era intensa dentro dele. Se ele não fazia o uso aberto dela que Elias
fazia, é que não tinha sido chamado para tal carreira, mas ela residia fundo em
sua alma, e os outros sabiam disso. Jezabel o sabia, sem dúvida nenhuma. Ela
não gostava dele, mas precisava suportá-lo; olhava-o de lado, mas não podia
desalojá-lo. Acabe aprendera a confiar nele e não podia passar sem ele, pois
provavelmente lhe fornecia um pouco de força de mente. É possível que Acabe
gostasse de segurá-lo só para mostrar a Jezabel que ele podia ser teimoso se
quisesse, e ainda era um homem.
Qualquer que seja a explicação, é
fora do comum que no centro da rebelião contra Deus houvesse alguém cuja
devoção a Deus fosse intensa. Como é horrível achar um Judas entre os
apóstolos, assim é grandioso descobrir um Obadias entre os cortesãos de Acabe.
Que grande graça deve ter estado em operação para manter um fogo desse no meio
do mar, tal piedade no meio da mais vil iniqüidade!
A religião de sua juventude
tornou-se para Obadias uma piedade confortável depois. Quando ele pensou que
Elias estava para expô-lo a grande perigo, pleiteou seu longo tempo de serviço
prestado a Deus, dizendo "temo ao Senhor desde a minha mocidade";
assim como Davi, quando ficou velho, disse: "Desde a minha juventude, ó
Deus, tens me ensinado, e até hoje eu anuncio as tuas maravilhas. Agora que
estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus" (Sl 71.17-18a).
Será um grande consolo para as pessoas, quando idosas, olharem para uma vida
que foi passada no serviço de Deus. Você não confiará nela, não achará que tem
mérito; mas bendirá a Deus por ela. Um servo que esteve com seu mestre desde a
mocidade não deve ser dispensado da casa quando se torna grisalho. Um mestre
correto respeita a pessoa que o serviu muito tempo e bem. Suponha que você
tenha tido uma ama que cuidou de você quando era criança, seria capaz de colocá-la
na rua quando ela não pudesse mais fazer o seu trabalho? Não, você faria o que
pudesse por ela; se pudesse, não a deixaria viver num asilo. Ora, o Senhor é
muito mais bondoso e gracioso do que nós, e ele nunca deixará seus velhos
servos desamparados.
Capítulo 20: Alguma coisa boa de
Abias (1) (1Reis 14.13)
Jeroboão provou ser falso para com
o Senhor que o havia colocado no trono de Israel, e o tempo de ser derrubado do
trono tinha chegado. O Senhor, que geralmente mostra a vara antes de levantar o
machado, mandou doença para a casa dele: Seu filho, Abias, caiu doente. Então,
os pais se lembraram de um velho profeta de Deus, e desejaram saber dele o que
aconteceria com a criança. Temendo que o profeta denunciasse pragas sobre ele e
seu filho se soubesse que quem perguntava era a esposa de Jeroboão, o rei
implorou à princesa egípcia com quem ele se casara que se disfarçasse de esposa
de fazendeiro e, assim, conseguisse do homem de Deus uma resposta mais
favorável. Pobre rei tolo, imaginar que um profeta que podia enxergar o futuro
não poderia também ver através de qualquer disfarce com o qual sua rainha
pudesse se cercar! Tão ansiosa estava a mãe para saber a sorte de seu filho,
que ela saiu do quarto do menino doente para ir a Siló ouvir a sentença do
profeta. Foi em vão o seu disfarce! O profeta cego ainda era um vidente, e não
só a discerniu antes que entrasse na casa, como viu o futuro de sua família.
Ela chegou cheia de superstição para saber sua sorte, mas saiu com o peso da
tristeza, tendo ouvido seus defeitos e seu fim.
Nas terríveis novas que o profeta
Aías transmitiu a essa esposa de Jeroboão havia só um ponto de luz, só uma
palavra de consolo; e parece não ter consolado à rainha pagã. A criança
misericordiosamente estava marcada para morrer, "pois é o único da família
de Jeroboão em quem o Senhor, o Deus de Israel, encontrou alguma coisa
boa" (1Re 14.13).
Vamos olhar o pouco que sabemos do
jovem príncipe, Abias. Seu nome era apropriado. Um bom nome pode pertencer a um
homem bem mau; mas, neste caso, um nome gracioso foi bem empregado. Ele chamava
Deus de seu Pai, e seu nome quer dizer isso. Ab é a palavra para Pai,
e Jah é Jeová--Jeová era seu Pai. Eu não teria mencionado o nome não
tivesse sua vida tornado isso verdade. Ah, vocês que têm bons nomes bíblicos,
tratem de não desonrá-los!
Havia nessa criança "alguma
coisa boa para com o Senhor Deus de Israel"; mas o que era? Quem o
definirá? Um campo ilimitado de suposições se abre diante de nós. Sabemos que
havia nele algo bom, mas que forma esse bem tomou não sabemos. A
tradição já fez afirmações, mas como são meras invenções para preencher
lacunas, nem vale a pena mencioná-las. É provável que nossas reflexões se
aproximem tanto dessas evidências como essas tradições improváveis. Poderemos
aprender muito com o silêncio das Escrituras: não nos dizem precisamente qual
era a coisa boa, porque qualquer coisa boa para com o Senhor é um sinal
suficiente de graça. Embora a fé da criança não seja mencionada,
acreditamos que ela tinha fé no Deus vivo, visto que sem isso nada nele teria
agradado a Deus; pois "sem fé é impossível agradar a Deus". Ele era
uma criança crente em Jeová, o Deus de Israel: talvez sua mãe tivesse deixado
que ele mesmo pedisse para procurar o profeta do Senhor. Muitos falsos profetas
estavam por ali no palácio: seu pai poderia não ter mandado ninguém a Siló, se
o menino não tivesse pedido. O menino acreditava no grande Deus invisível que
fez os céus e a terra, e ele o adorava em fé.
Não me surpreenderia, porém, se,
naquela criança, seu amor fosse mais aparente do que sua fé; porque
crianças convertidas na maioria das vezes falam em amar Cristo mais do que de
confiar nele: não porque não tenham fé interior, mas porque a emoção do amor é
mais compatível com a natureza da criança do que o ato mais intelectual da fé.
O coração da criança é bem grande, e o amor, portanto, torna-se seu fruto mais
notado. Não duvido que essa criança tenha mostrado uma afeição desde cedo para
com o Jeová não visto, e uma aversão pelos ídolos da corte do pai. Possivelmente,
tenha demonstrado horror do culto de Deus sob a figura de um bezerro. Até uma
criança seria capaz de entender que devia ser errado igualar o grande e
glorioso Deus a um animal com chifres e patas. Talvez a natureza aguçada da
criança também achasse repugnantes aqueles sacerdotes baixos, dos confins da
Terra, que seu pai tinha reunido. Não sabemos exatamente a forma que assumiu,
mas havia "alguma coisa boa" no coração da criança para com Jeová,
Deus de Israel.
Não se tratava apenas de uma boa
inclinação que havia nele, nem um bom desejo, mas sim uma virtude substancial,
realmente boa. Havia nele uma verdadeira e substancial existência de graça, e
isso vai muito além de um desejo passageiro. Qual a criança que nunca, em uma
ou outra ocasião, se foi treinada no temor do Senhor, sentiu tremores de
coração e aspirações em direção a Deus? Essa qualidade é tão comum como o
orvalho da manhã; mas, ai!, também acaba tão depressa como o orvalho. O jovem
Abias possuía algo em seu interior suficientemente real e substancial para isso
ser chamado de uma "boa coisa"; o Espírito de Deus operara uma
obra segura nele, e deixara nele uma jóia valiosa de graça. Admiremos esta
coisa boa, embora não possamos descrevê-la com precisão.
Admiremos, também, que esta
"coisa boa" estivesse no coração da criança, porque sua entrada é
desconhecida. Não podemos dizer como a graça penetrou no palácio de Tirza e
ganhou esse coração juvenil. Deus viu a coisa boa, pois ele vê as menores
coisas boas em nós, visto que tem um olho rápido para perceber qualquer coisa
que se volta para sua direção. Mas como essa obra preciosa chegou à criança?
Não nos é dito, e esse silêncio é uma lição para nós. Não é essencial sabermos como
uma criança recebe graça. Não precisamos ficar ansiosos para saber quando, onde
ou como uma criança é convertida; pode ser até impossível saber, pois o ato
pode ter sido tão gradual que não se possa conhecer o dia e a hora. Mesmo
aqueles que são convertidos em anos mais maduros não podem descrever sua
conversão em detalhe, muito menos podemos manear a experiência de crianças que
nunca entraram em pecado externo, mas que o comedimento de uma educação piedosa
tem observado os mandamentos desde a sua mocidade, como o jovem da narrativa no
evangelho.
Como foi que essa criança passou a
ter essa "coisa boa" em seu coração? Até aqui sabemos: estamos certos
de que Deus a colocou ali; mas por meio de quê? A criança, com toda
probabilidade, não ouviu os ensinamentos dos profetas de Deus; ele nunca foi
levado, como o menino Samuel, para a casa do Senhor. Sua mãe era uma princesa
idólatra, seu pai estava entre os piores dos homens, e mesmo assim a graça de
Deus alcançou seu filho. Será que o Espírito do Senhor operou no seu coração
através de seus próprios pensamentos? Teria ele pensado no assunto, e chegado à
conclusão de que Deus era Deus, e que ele não precisava adorá-lo como seu pai o
adorava, sob a imagem de um bezerro? Até uma criança podia ver isso. Será que
algum hino a Jeová foi cantado embaixo do palácio por algum adorador solitário?
Tinha a criança visto seu pai naquele dia em que ele ergueu a mão contra o
profeta de Jeová no altar de Betel, onde de repente sua mão direita se encolheu
ao seu lado? Será que as lágrimas apareceram nos olhos do menino quando viu seu
pai assim paralisado no braço de sua força? E será que riu de pura alegria de
coração quando pela oração do profeta seu pai ficou bom de novo? Aquele grande
milagre de misericórdia fez com que ele amasse o Deus de Israel? Será mera
imaginação pensar que isso pode ter acontecido? Uma mão direita mirrada num
pai, e esse pai um rei, é uma coisa que é quase certo a criança ter ouvido
contar, e se foi restaurada pela oração, a admiração naturalmente encheu o
palácio, e era assunto para todos, e o príncipe o ouviria.
Ou será que essa criança pequena
teve uma ama piedosa? E se alguma menina como aquela que servia a esposa de
Naamã foi a mensageira de amor para ele? Carregando-o para lá e para cá, a babá
cantava para ele um dos cânticos de Sião, e lhe contava sobre José e Samuel?
Israel não tinha deixado seu Deus há tanto tempo que estivesse sem muitos
seguidores fiéis do Deus de Abraão, e talvez por intermédio de um deles
suficiente conhecimento tenha sido transmitido à criança para se tornar o meio
de passar o amor de Deus à alma dele. Podemos supor, mas não podemos falar que
temos certeza, de que tenha sido assim, nem há necessidade disso. Se o sol se
levanta, faz pouca diferença quando o dia amanheceu. Que nós, quando vemos nas
crianças alguma coisa boa, ficamos contentes com essa verdade, mesmo quando não
conseguimos dizer como isso aconteceu. Ao amor eletivo de Deus, nunca faltam
meios para desempenhar seu propósito: Ele pode mandar sua graça eficaz para o
cerne da família de Jeroboão, e enquanto o pai está prostrado diante de seus
ídolos, o Senhor pode achar um verdadeiro adorador para si no filho do próprio
rei. "Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome
como fortaleza, por causa dos teus adversários." Teus passos nem sempre
são vistos, ó, Deus da graça, mas nós aprendemos a adorar-te em tua obra, mesmo
quando não discernimos teu caminho.
Essa "boa coisa" é
descrita até certo ponto. Foi uma "coisa boa para Jeová, o Deus de
Israel". A coisa boa olhava para o Deus vivo. Nas crianças muitas vezes se
encontram coisas boas com respeito aos seus pais: que estas sejam cultivadas -
mas não são evidências suficientes de graça. Nas crianças, às vezes, serão
encontradas coisas boas no que diz respeito à amabilidade e excelência moral:
que todas as coisas boas sejam louvadas e nutridas, mas não são frutos seguros
de graça. É em relação a Deus que a coisa boa deve estar para que possa salvar
a alma. Lembre-se de como lemos no Novo Testamento sobre o arrependimento no
que diz respeito a Deus e sobre a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Como a face
da coisa boa se revela é um ponto principal a seu respeito. Há vida em um
olhar. Se um homem está viajando para longe de Deus, cada passo que ele dá
amplia a distância; mas se seu rosto estiver voltado para o Senhor, ele pode ser
apenas capaz do passo cambaleante da criancinha, mas mesmo assim ele está se
aproximando mais e mais a cada momento. Havia algo de bom nessa criança em
relação a Deus, e esta é a marca mais distinta de uma coisa realmente boa.
A criança tinha amor, e havia nela amor para com Jeová. Tinha fé, mas era fé em
Jeová. Seu temor religioso era o temor do Deus vivo; seus pensamentos infantis,
desejos, orações e hinos diziam respeito ao verdadeiro Deus. É isso que
desejamos ver não só em crianças, mas em adultos; desejamos ver seus corações
voltados para o Senhor, com a mente e as vontades movendo-se em direção ao
Altíssimo.
Nessa querida criança, aquela
"coisa boa" criou um caráter exterior tal que ela se tornou muito
amada. Estamos certos disso, porque foi dito que "todo o Israel chorou por
ele" (1Re 14.18). Ele era provavelmente o herdeiro à coroa de seu pai, e
havia corações piedosos em Israel que esperavam ver tempos de reforma quando
aquele jovem chegasse ao trono; e talvez mesmo aqueles que não se importavam com
religião, mas de algum modo tinham marcado o jovem e observado sua entrada e
saída diante deles, teriam dito: "Ele é a esperança de Israel; ainda
haverá melhores dias quando aquele menino se tornar homem"; de modo que,
quando Abias morreu, só ele de toda sua raça recebeu tanto lágrimas quanto uma
sepultura; morreu lamentado, e foi enterrado com respeito, enquanto todos os
restantes da casa de Jeroboão foram devorados por cães e abutres.
É uma grande benção quando há uma
coisa tão boa em nossos filhos que eles venham a ser queridos em suas esferas.
Eles não têm todo o raio de influência que esse jovem príncipe gozava de modo a
ter admiração universal; mas, ainda assim, a graça de Deus numa criança é uma
coisa muito bela, e atrai aprovação geral. A piedade juvenil é coisa muito
tocante para mim; eu vejo a graça de Deus em homens e mulheres com muita
gratidão, mas não consigo percebê-la em crianças sem chorar de alegria. Há uma
grande beleza nesses botões de rosa do jardim do Senhor; eles têm uma fragrância
que não encontramos nos lírios mais lindos. Ganha-se o amor para o Senhor Jesus
em muitos corações com essas pequeninas setas do Senhor, das quais a própria
pequenez é parte de seu poder de penetrar o coração. Os ímpios podem não amar a
graça que está nas crianças, mas visto que amam as crianças nas quais essa
graça é encontrada, não conseguem mais falar contra a religião como fariam de
outro modo. Sim, e mais, o Espírito Santo usa essas crianças para fins mais
elevados ainda, e aqueles que as vêem muitas vezes ficam marcadas com desejos
de coisas melhores.
Capítulo 21: Alguma coisa boa de
Abias (2)
Ele não usava o filactério largo,
mas tinha um espírito manso e quieto. Pode não ter sido grande orador, senão
talvez se dissesse dele: "Ele falou coisas boas a respeito do Deus de
Israel"; ele pode ter sido um garoto tímido, reservado, quase silencioso,
mas a boa coisa estava "nele". E este é o tipo de coisa que desejamos
para cada um de nossos amigos, uma obra de graça interior. O ponto
importante não é usar a vestimenta, nem usar a fala da religião, mas possuir a
vida de Deus dentro de si, e sentir e pensar como Jesus faria por causa
dessa vida interior. Pequeno é o valor exterior a não ser que seja o resultado
de uma vida interior. A graça verdadeira não é como uma roupa, que pode ser
vestida e tirada; mas é uma parte integral da pessoa que a possui. A piedade
dessa criança era do tipo verdadeiro, pessoal, interior: possam todas as nossas
crianças possuir alguma coisa boa!
Disseram-nos que essa boa coisa
"foi encontrada" nela: isso significa que era bem visível, pois a
expressão "encontrada" é usada mesmo quando não significa uma grande
busca. O Senhor não diz mesmo: "Fui achado por aqueles que não me
procuravam" (Rm 10.20)? A piedade zelosa do tipo infantil logo se revela;
em geral, uma criança é bem menos reservada nas palavras do que um homem; seus
lábios não ficam imóveis por prudência reservada, ao contrário, revelam o
coração. Piedade numa criança aparece mesmo na aparência, de modo que pessoas
que chegam à casa como visitantes ficam surpresos com as afirmações naturais
que revelam o pequeno cristão. Muitas pessoas em Tirza não tinham como não
saber que essa criança tinha alguma coisa boa em relação a Jeová. Podiam não se
preocupar em entender isso, podiam esperar que isso fosse oprimido na criança
pelo exemplo da corte à sua volta, mesmo assim sabiam que estava lá, fizeram
essa descoberta sem dificuldade.
Contudo, a expressão tem outro
sentido: sugere que quando Deus, o examinador rigoroso, que prova as rédeas dos
filhos dos homens, visitou essa criança, ele encontrou nela algo para louvor e
glória: "alguma coisa boa" foi descoberta nela por aqueles olhos que
não podem ser enganados. Nem tudo que reluz é ouro, mas o que estava nessa
criança era o metal genuíno. Ah, que isso possa ser verdade sobre cada um de
nós quando formos testados como pelo fogo! Pode ser que o pai do menino
estivesse zangado com ele por servir a Jeová, mas qualquer que tenha sido sua
tribulação, ele saiu dela incólume.
Para mim, a expressão sugere
surpresa. Como essa boa coisa entrou na criança? "Nela foi encontrado
alguma coisa boa"--como quando um homem encontra um tesouro num campo. O
fazendeiro não pensava em nada senão em seus bois, suas terras e sua colheita,
quando de repente o arado deixou à vista um tesouro escondido: ele o achou onde
estava, mas não podia saber como esse tesouro chegou até ali. Assim, nessa
criança, colocada em posição nada vantajosa, para surpresa de todos, ali se
encontrou alguma coisa boa para com o Senhor Deus de Israel. Sua conversão está
velada em mistério. Não nos contaram como era a graça em seu coração, nem de
onde veio, nem que ações especiais produzia, mas ali estava, encontrada
onde ninguém a esperava. Creio que esse caso é típico de muitas das crianças
eleitas a quem Deus chama por sua graça nas praças e vielas das grandes
cidades. Não pense em anotar a experiência delas, seus sentimentos e sua vida,
e somar tudo; não espere saber datas e meios especificamente, mas você precisa
aceitar a criança assim como temos de aceitar Abias, alegrando-nos em achar
nela uma pequena maravilha de graça com o selo do próprio Deus sobre ela. O
velho profeta, em nome do Senhor, atestou o jovem príncipe como um seguidor do
Altíssimo de coração puro; e do mesmo modo o Senhor coloca sua marca de graça
atestando as crianças regeneradas, e devemos ficar contentes com isso, mesmo
que faltem algumas outras coisas. Vamos receber com alegria essas obras do
Espírito Santo que nós nem sabemos descrever com precisão.
Tudo o que se diz sobre este caso
é que nele havia "alguma coisa boa"; e isso deve ser compreendido
como se a obra divina fosse apenas uma centelha de graça, o início da vida
espiritual. Não havia nada muito marcante nele, ou seria mencionado com mais
clareza. Ele não era um seguidor heróico de Jeová, e seus feitos de lealdade a
Deus não estão escritos, porque por razão de seus tenros anos ele não teve nem
poder nem oportunidade para fazer muita coisa que pudesse ser escrita. À medida
que compreendemos que nele havia "alguma coisa boa", subentende-se
que não era uma coisa perfeita, e que não era acompanhada de todas as coisas
boas que se pudesse desejar. Faltavam muitas coisas boas, mas "alguma
coisa boa" se manifestou, e, portanto, a criança foi aceita e, por amor
divino, salva de uma morte ignóbil.
Somos capazes de passar sem ver
"alguma coisa boa" numa casa má. Esta foi a maior maravilha de tudo,
o fato de haver uma criança graciosa no palácio de Jeroboão. A mãe geralmente
domina a casa, mas a rainha era uma princesa do Egito e uma idólatra. Um pai
tem grande influência, mas, neste caso, Jeroboão pecou e fez a nação de Israel
pecar, mas não pôde fazer seu filho pecar. Toda a Terra sente a influência
pestilenta de Jeroboão, contudo, perto de seus pés há um espaço belo que a
graça soberana salvou da praga; seu primogênito, que normalmente imitaria seu
pai, é o contrário dele--ali estava o herdeiro de Jeroboão, "alguma coisa
boa em relação a Jeová, Deus de Israel". Em tal lugar nós não procuramos
por graça, e somos capazes de passar sem vê-la. Se você for às praças de nossas
grandes cidades, que são magníficas, você verá que fervilham de crianças dos
pobres, você não espera encontrar graça onde o pecado existe em abundância. Nos
recantos e vielas das grandes cidades, ouvimos blasfêmia e vemos viciados por
todo lado, mas nem por isso devemos concluir que ali não há uma criança de
Deus; não devemos dizer: "O amor eleitor de Deus nunca caiu sobre qualquer
uma dessas crianças". Como podemos saber? Uma dessas criancinhas vestidas
pobremente, brincando em cima de uma pilha de pó, pode ter encontrado Cristo
por aí, e pode estar destinada a um lugar à mão direita de Cristo. Preciosa é
esta jóia, embora fundida no meio dessas pedrinhas. Brilhante é aquele
diamante, embora se ache em cima do monturo. Se na criança há "alguma
coisa boa em relação ao Senhor Deus de Israel", ela deve assim mesmo ser
valorizada porque seu pai é um ladrão e sua mãe bebe demais. Nunca despreze a
criança mais maltrapilha.
Na Irlanda, um ministro, que
estava pastoreando uma pequena congregação protestante, notou por vários
domingos, em pé no corredor perto da porta, um menino muito maltrapilho, que
escutava o sermão com avidez. Ele desejava saber quem era o menino, mas o
garoto sempre desaparecia logo que o sermão terminava. Ele pediu a um ou dois
amigos que vigiassem, mas de alguma forma o garoto sempre escapava, e não podia
ser descoberto. Um Domingo, o pastor pregou um sermão que dizia: "Sua
própria mão direita e seu braço santo lhe conseguiram a vitória", e depois
desse dia sentiu falta do menino. Seis semanas se passaram, e a criança não
veio mais, mas um homem desceu das montanhas e rogou ao ministro que fosse ver
seu menino, que estava morrendo. Ele vivia num casebre muito pobre. Andaram
seis quilômetros na chuva, por terra encharcada e sobre morros, e o ministro
chegou à porta do casebre. Ao entrar, o pobre garoto que estava sentado na cama
viu o pregador; ele agitou seu braço e exclamou alto: "Sua própria mão
direita e seu braço santo lhe conseguiram a vitória". Foi sua última
exclamação, seu brado final de triunfo. Quem sabe se não há muitos e muitos casos
em que a mão direita do Senhor e seu braço santo lhe conseguiram a vitória, a
despeito da pobreza, do pecado e da ignorância que podem ter rodeado o jovem
convertido? Então, não desprezemos a graça, onde quer que seja, mas valorizemos
com vontade aquilo que facilmente somos capazes deixar passar sem que
percebamos.
Nós não podemos entender que as
crianças queridas que amam a Deus possam muitas vezes ser chamadas a sofrer.
Dizemos: "Ora, se fosse meu filho, eu o curaria e tiraria os sofrimentos
dele imediatamente." Mas o Pai Todo-Poderoso permite que seus queridos
sofram. A criança piedosa de Jeroboão está prostrada pela doença, e seu pai
ímpio não está doente, e sua mãe não está doente; podíamos quase desejar que
estivessem, para que fizessem menos maldade. Só um piedoso na família, e ele
doente! Por que isso aconteceu? Por que é assim em outros casos? Você pode
encontrar um menino cheio de graça que é aleijado, uma menina com a mente
voltada ao céu que é tuberculosa: muitas vezes, verá a mão pesada de Deus
descansando onde seu amor eterno fixou sua escolha. Há um sentido em tudo isso,
e nós conhecemos um pouco disso; e se nada soubéssemos, mesmo assim creríamos
na bondade do Senhor. O filho de Jeroboão era como o figo do sicômoro, que não
amadurece até que seja machucado: pela sua doença, ele amadureceu rapidamente
para a glória. Também, foi pelo bem de seu pai e de sua mãe que ele estava
doente. Se estivessem dispostos a aprender pela tristeza, isso poderia ter
abençoado muito a eles. Pelo menos os impulsionou a irem ao profeta de Deus.
Ah, se pelo menos o impulso os tivesse levado ao próprio Deus! Já aconteceu de
uma criança enferma conduzir parentes cegos ao Salvador, e com isso os olhos
deles foram abertos.
Há algo ainda mais notável: algumas
das crianças mais queridas de Deus morrem ainda novos. Eu teria dito: que
Jeroboão morra e sua esposa também, mas que a criança seja poupada. Sim, mas a
criança precisa ir; ela é a mais capacitada. Sua partida teve o propósito de
atribuir glória à graça de Deus por salvar essa criança, e assim aperfeiçoá-la.
Seria a recompensa da graça, pois a criança foi tirada do mal que viria; era
para morrer em paz e ser sepultada, enquanto o resto de sua família enfrentaria
a morte pela espada e seria entregue aos chacais e aos abutres para serem
rasgados em pedaços. No caso desta criança, sua morte precoce foi uma prova de
graça. Se alguém disser que crianças convertidas não devem ser recebidas na
igreja, eu responderei: como é que o Senhor leva tantos delas para o céu? O
Senhor, em misericórdia infinita, muitas vezes leva as crianças para si, e as
salva das tribulações de uma longa vida e da tentação, não só porque há graça
nelas, mas há muito mais graça do que o normal, que não é necessário demorar;
já estão maduras para a colheita. É maravilhoso ver que uma grande graça pode
habitar o coração de um menino: a piedade infantil não é de modo algum de um
tipo inferior, e por vezes está madura para o céu.
Capítulo 22: O filho da mulher
sunamita (1)
O profeta Eliseu realizou um milagre
muito instrutivo, conforme registrado no Livro de Reis. A hospitalidade da
mulher sunamita havia sido recompensada com a dádiva de um menino; mas, todas
as misericórdias terrestres são de posse incerta, e depois de certo tempo a
criança adoeceu e morreu.
A mãe aflita, mas crente, foi
imediatamente ter com o homem de Deus; por meio dele é que Deus tinha
transmitido a promessa que satisfez o desejo de seu coração, e ela resolveu
declarar a ele o seu caso, para que ele o pudesse expor diante de seu Mestre
Divino, e obter para ela uma resposta de paz. A ação de Eliseu está registrada
nos seguintes versículos:
Então Eliseu disse a Geazi:
"Ponha a capa por dentro do cinto, pegue o meu cajado e corra. Se você
encontrar alguém, não o cumprimente e, se alguém o cumprimentar, não responda.
Quando lá chegar, ponha o meu cajado sobre o rosto do menino". Mas a mãe
do menino disse: "Juro pelo nome do Senhor e por tua vida que, se ficares,
não irei." Então ele foi com ela. Geazi chegou primeiro e pôs o cajado
sobre o rosto do menino, mas ele não falou nem reagiu. Então Geazi voltou para
encontrar-se com Eliseu e lhe disse: "O menino não voltou a si."
Quando Eliseu chegou à casa, lá estava o menino, morto, estendido na cama. Ele
entrou, fechou a porta e orou ao Senhor. Depois deitou-se sobre o menino, boca
a boca, olhos com olhos, mãos com mãos. Enquanto se debruçava sobre ele, o
corpo do menino foi se aquecendo. Eliseu levantou-se e começou a andar pelo
quarto; depois subiu na cama e debruçou-se mais uma vez sobre ele. O menino
espirrou sete vezes e abriu os olhos. Eliseu chamou Geazi e o mandou chamar a
sunamita. E ele obedeceu. Quando ele chegou, Eliseu disse: "Pegue seu
filho." Ela entrou, prostrou-se a seus pés, curvando-se até o chão. Então
pegou o filho e saiu. (2R 4.29-37).
Eliseu teve de se haver com uma
criança morta. É verdade que, neste caso, foi uma morte natural; mas a morte
com a qual você tem de entrar em contato não é uma morte menos real por ser
espiritual. Meninos e meninas estão, tão certamente como adultos, "mortos
em delitos e pecados". Ninguém deve deixar de perceber plenamente o estado
no qual todos os seres humanos se encontram por natureza. A não ser que você
tenha uma clara percepção da ruína total e da morte espiritual das crianças,
você será incapaz de se tornar uma bênção para elas. Vá ao encontro delas, eu
lhe rogo, não como pessoas que dormem e que você pelo seu próprio poder pode
acordar de seu sono, mas, sim, como defuntos espirituais que só podem ser
despertados para a vida por um poder divino. Eliseu visava nada menos do que a
restauração da criança para a vida. Que você nunca se contente com benefícios
secundários, ou mesmo em consegui-los; que lute pelo maior de todos os
propósitos, a salvação de almas imortais. Sua tarefa não é meramente ensinar
crianças a ler a Bíblia, não é simplesmente inculcar os deveres da moralidade,
nem mesmo de instruí-las nas letras da Bíblia, mas sua alta vocação é ser o
meio, nas mãos de Deus, de levar vida do céu a almas mortas.
Ressurreição, portanto, é nosso
objetivo! Levantar os mortos é nossa missão. Como realizar um trabalho tão
surpreendente? Se cedermos à descrença, ficaremos confusos pelo fato evidente
de que o trabalho para o qual o Senhor nos chamou está bem além de nosso
próprio poder pessoal. Não podemos levantar os mortos. No entanto, não somos
mais impotentes do que Eliseu, porque ele, por si mesmo, não podia restaurar o
filho da sunamita. Esse fato precisa nos desanimar? Em vez disso, ele não nos
dirige ao nosso verdadeiro poder ao nos cortar nosso poder imaginado? Acredito
que todos nós já sabemos que o homem que vive na fé habita a esfera dos
milagres.
Eliseu não era um homem comum
agora que o Espírito de Deus estava sobre ele, chamando-o para a obra de Deus,
e ajudando-o a realizá-la. E você, professor de oração devotado, ansioso, não
continue mais sendo um ser comum; você já se tornou, de maneira especial, o
templo do Espírito Santo. Deus habita em você, e, pela fé, você entrou na
carreira de um operador de milagres. Você foi enviado ao mundo não para fazer
as coisas que são possíveis aos homens, mas para aquelas impossibilidades que
Deus opera pelo Espírito dele, por meio de seu povo crente. Você deve operar
milagres e fazer maravilhas. Você não deve, portanto, olhar a restauração
dessas crianças mortas, que em nome de Deus você é chamado para reavivar, como
sendo coisa pouco provável ou difícil quando você se lembra quem é que trabalha
através de sua fraca instrumentalidade.
Teria sido bom se Eliseu tivesse
recordado que ele antes foi servo de Elias, e se tivesse, assim, estudado o
exemplo de seu mestre de forma a imitá-lo. Se tivesse, ele não teria mandado
Geazi com um cajado, mas teria feito imediatamente o que foi constrangido a
fazer. Em 1Reis 17, você encontrará a história de Elias levantando uma criança
morta, e verá ali que Elias, o mestre, tinha deixado um exemplo completo para
seu servo; e foi só quando Eliseu o seguiu em todos os aspectos que o poder
miraculoso se manifestou. Teria sido prudente, penso eu, se Eliseu tivesse
imitado logo o exemplo do mestre cujo manto ele vestia.
Com mais vigor, eu lhe digo que
tudo ficará bem se, como professores, imitarmos os modos e métodos de nosso
Mestre glorificado, e aprendermos aos seus pés a arte de ganhar almas. Assim
como ele veio com a maior solidariedade ao contato mais íntimo com nossa
humanidade sofrida, e condescendeu abaixar-se à nossa condição triste, assim
precisamos chegar bem perto das almas com as quais temos de nos ocupar,
sensibilizarmo-nos com elas com o desejo amoroso dele, e chorar por elas com as
lágrimas do Mestre, se nós as queremos ver livres do estado de pecado. Só
imitando o espírito e a maneira do Senhor Jesus é que nós nos tornaremos sábios
para ganhar almas.
Temo que muitas vezes a verdade
que nós libertamos nos seja alheia; como um cajado que seguramos em nossa mão,
mas que não é parte de nós mesmos. Levamos verdade doutrinária e prática, como
Geazi fez com o cajado, e a deitamos sobre a face da criança, mas nós mesmos
não agonizamos em favor de sua alma. Tentamos essa doutrina e aquela verdade,
essa história e a outra ilustração, esse modo de ensinar uma lição e aquele
modo de apresentar uma mensagem; mas enquanto a verdade que nós libertamos for
um assunto alheio a nós e desligada de nosso ser íntimo, ela não terá mais
efeito sobre uma alma morta do que o cajado de Eliseu teve sobre a criança
morta. Não sabemos ao certo se Geazi estava convencido de que a criança estava
realmente morta; ele falou como se estivesse apenas dormindo e precisasse ser
acordada. Deus não abençoará esses professores que não compreendem, no coração
o estado realmente caído de suas crianças. Se você acha que a criança não está
realmente corrompida, se você favorece idéias tolas sobre a inocência da
infância e a dignidade da natureza humana, não deve ficar surpreso se
permanecer estéril e infrutífero.
Observe cuidadosamente o que
Eliseu fez quando foi frustrado em seu primeiro esforço. Quando falhamos em uma
tentativa, nem por isso devemos desistir de nosso trabalho. Se você não tem
tido sucessos até agora, não deve inferir daí que não é chamado para o
trabalho, não mais do que Eliseu poderia ter concluído que a criança não podia
ser restaurada. A lição de sua falta de sucesso não é--cesse a obra, e
sim--mudar o método. Não é a pessoa que está fora do lugar, é o plano que não é
prudente. Se seu primeiro método não foi bem-sucedido, você precisa melhorar o
plano. Examine onde foi que você falhou, e então, mudando seu modo, ou
espírito, o Senhor poderá prepará-lo para um grau de utilidade muito além de
sua expectativa. Eliseu, em vez de ficar desanimado quando viu que a criança
não estava desperta, arregaçou as mangas e se apressou a realizar o trabalho
que tinha pela frente.
Capítulo 23: O filho da mulher
sunamita (2)
Veja onde a criança morta tinha sido
colocada: "Quando Eliseu chegou à casa, lá estava o menino, morto,
estendido na cama." Esta era a cama que a hospitalidade da sunamita havia
preparado para Eliseu, a famosa cama que, com a mesa, o banquinho e a
lamparina, nunca será esquecida na igreja de Deus.
Continuando a leitura,
encontramos: "Ele [Eliseu] entrou, fechou a porta e orou ao Senhor"
(2Re 4.33). Agora, o profeta está no seu trabalho com seriedade, e nós temos
uma oportunidade nobre de aprender com ele o segredo de levantar crianças dos mortos.
Se você voltar para a narrativa de Elias, verá que Eliseu adotou o método
ortodoxo de proceder, o método de seu mestre Elias: "E ele [Elias] disse:
Dê-me o seu filho. Elias o apanhou dos braços dela, levou-o para o quarto de
cima onde estava hospedado, e o pôs na cama. Então clamou ao Senhor: 'Ó Senhor,
meu Deus, trouxeste também desgraça sobre esta viúva, com quem estou hospedado,
fazendo morrer o seu filho?' Então ele se deitou sobre o menino três vezes e
clamou ao Senhor: 'Ó Senhor, meu Deus, faze voltar a vida a este menino'. O
Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu"
(1Re 17.19-24). O grande segredo está na súplica poderosa. "Ele entrou,
fechou a porta [sobre eles dois - kjv] e orou." O velho provérbio é:
"Todo púlpito verdadeiro é erguido no céu", o que significa que o
verdadeiro pregador passa muito tempo com Deus. Se não oramos a Deus por uma
bênção, se o alicerce do púlpito não for edificado em oração particular, nosso
ministério aberto não será um sucesso. Assim é com você; o poder de cada
professor verdadeiro precisa vir do alto. Se você nunca se recolher para orar e
fechar a porta, se nunca rogar junto ao lugar celeste de misericórdia por sua
criança, como pode esperar que Deus o honrará com a conversão dela? É um método
excelente, creio eu, levar as crianças, uma por uma, para o seu quarto e orar
com elas. Você verá suas crianças convertidas quando Deus individualizar seus
casos, agonizar por elas, e levá-las uma de cada vez, e com a porta fechada,
para orar com elas e por elas. Há muito mais influência na oração oferecida em
particular do que em oração dita publicamente na classe - não mais influência
com Deus, é claro, mas mais influência com a criança. Tal oração muitas vezes
será a própria resposta; pois Deus pode, enquanto você está derramando sua
alma, fazer sua oração ser um martelo para quebrantar o coração que meras
mensagens nunca haviam tocado.
Depois de orar, Eliseu adotou os
meios. A oração e os meios devem andar juntos. Meios sem oração pressupõem oração
sem meios: hipocrisia! Ali estava deitada a criança, e ali estava de pé o
venerável homem de Deus! Assista seu proceder singular: ele se abaixa sobre o
corpo e põe sua boca sobre a boca da criança. A boca fria e morta da criança
foi tocada pelos lábios quentes e vivos do profeta, e uma corrente vital de
hálito quente novo foi mandada lá para as passagens da boca do morto que eram
frias como pedra, e para a garganta e os pulmões. Em seguida, o santo homem,
com o ardor amoroso da esperança, colocou seus olhos sobre os olhos da criança,
e suas mãos sobre as mãos da criança; as mãos quentes do velho cobriram as
palmas frias da criança que partiu. Então, ele se estendeu sobre a criança, e a
cobriu com seu corpo todo, como se quisesse transferir sua própria vida àquele
corpo inerte, morreria com ele ou o faria viver. Era uma vez, um caçador de
antílope que estava trabalhando como guia de um viajante cheio de medo; quando
chegaram a uma parte muito perigosa da estrada, ele usou uma tira para amarrar
o viajante a si mesmo firmemente, e disse: "Ou nós dois ou nenhum dos
dois." Com isso, quis dizer: "Viveremos os dois ou nenhum de nós
viverá; nós somos um." Assim, o profeta efetuou uma união misteriosa entre
ele e o garoto, e na sua mente estava resolvido que ou ele gelaria com a morte
da criança ou esquentaria a criança com sua vida.
O que isso nos ensina? As lições
são muitas e óbvias. Vemos aqui, como num quadro, que se nós queremos trazer
vida espiritual a uma criança, precisamos perceber muito vivamente o estado
dessa criança. Ela está morta, morta. Deus fará com que você sinta que a
criança está tão morta em dívidas e pecados como você esteve um dia. Deus quer
que você entre em contato com essa morte através de dolorosa, esmagadora,
humilhante solidariedade. Para ganhar almas, devemos observar como nosso Mestre
operou; então, como ele operou? Quando ele quis nos erguer da morte, o que lhe
coube fazer? Ele precisou morrer: não houve outro meio. Assim é com você. Se
você quer fazer viver aquela criança morta, você precisa sentir o frio e o
horror da morte dessa criança. É necessário um homem moribundo para levantar
homens moribundos.
Para tirar uma brasa do fogo, você
teria de colocar a sua mão suficientemente perto para sentir o calor do fogo.
Então você tem, mais ou menos, uma idéia precisa da terrível ira de Deus e dos
terrores do juízo que virá, porque se não tiver, vai lhe faltar energia em seu
trabalho, e assim faltará um dos aspectos essenciais do êxito. Na minha
opinião, o pregador nunca fala bem sobre tais tópicos antes que os sinta
pressionando-o como um fardo pesado vindo do Senhor. "Eu preguei em
cadeias", disse John Bunyan, "para homens em cadeias". Pode
crer, quando a morte que está em suas crianças o assusta, deprime e domina, então
Deus está prestes a abençoá-lo.
Assim reconhecendo o estado da
criança, e como que pondo sua boca sobre a boca da criança, e suas mãos sobre
as mãos dela, você precisa em seguida procurar se adaptar até onde for possível
à natureza, aos hábitos e ao temperamento da criança. Sua boca precisa
descobrir as palavras da criança, para que ela entenda o que você quer dizer;
você precisa ver as coisas com os olhos de uma criança; seu coração precisa
sentir os sentimentos de uma criança, para ser seu companheiro e amigo; você
precisa ser um estudante do pecado juvenil, precisa condoer-se das provações
juvenis; precisa, até onde for possível, entrar no espírito das alegrias e
tristezas juvenis. Não pode se irritar com a dificuldade desse assunto, ou
sentir que isso é humilhante. Se é exigido algo difícil, você precisa fazê-lo e
não achar difícil. Deus não ressuscitará uma criança morta por meio de você se
você não estiver disposto a ser todas as coisas para aquela criança, se você
não estiver disposto a tornar-se todas as coisas para aquela criança, para que,
se alguma possibilidade houver, você possa ganhar a sua alma.
O profeta "se estendeu sobre o menino". Era de esperar que estivesse escrito "ele se contraiu"! Afinal, ele era um homem feito, e o outro um mero menino. Não devia ser "ele se contraiu"? Não, "ele se estendeu"; e pode crer, nenhum estender é mais difícil do que para o homem estender-se a uma criança. Quem sabe falar com crianças não é tolo; um simplório está muito enganado se acha que sua tolice pode interessar meninos e meninas. São necessários nossa melhor inteligência, nossos estudos mais zelosos, nossos pensamentos mais sinceros, nossas capacidades mais maduras, para ensinar os nossos pequenos. Você não vivificará a criança até que se tenha "estendido"; e embora pareça estranho, ainda é verdade. O homem mais sábio precisará exercitar todas as suas capacidades se quiser tornar-se um professor bem-sucedido de crianças.
Vemos, então, em Eliseu, uma
percepção da morte da criança e uma adaptação sua ao seu trabalho, mas, acima
de tudo, vemos solidariedade. Enquanto o próprio Eliseu sentia o frio do
corpo morto, seu calor pessoal estava penetrando o corpo morto. Isso por si só
não levantou a criança; mas Deus operou através dele--o calor do corpo do velho
passou para a criança, e tornou-se o meio de vivificá-lo. Que todo professor
pese bem essas palavras de Paulo: Nós "nos tornamos carinhosos entre vós,
qual ama que acaricia os próprios filhos" (1Ts 2.7, ara). "Sentindo,
assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de
Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito
amados por nós" (1Ts 2.8 nvi). Deus abençoará pelo seu Espírito nossa
forte afinidade com a sua própria verdade, e fará com que faça aquilo que a
verdade sozinha falada com frieza não realizaria. Aqui, então, está o segredo.
Você precisa comunicar ao pequeno sua própria alma; você precisa se sentir como
se a ruína daquela criança fosse sua própria ruína.
O resultado do trabalho do profeta
logo apareceu: "O corpo do menino foi se aquecendo" (2Re 4.34b). Como
Eliseu deve ter ficado contente; mas seu prazer e satisfação não diminuíram
seus esforços. Nunca se satisfaça em achar suas crianças num estado apenas esperançoso.
O que você quer não é mera convicção, mas conversão; você deseja não apenas
impressionar, mas regenerar. Vida, vida de Deus, a vida de Jesus. É isso que
seus pupilos precisam ter, e nada menos deve contentá-lo.
"Eliseu levantou-se e começou
a andar pelo quarto." Observe o desassossego do homem de Deus; ele não pode
ficar à vontade. A criança está quentinha (bendito seja Deus por isso), mas não
vive ainda; então, em vez de se sentar à mesa, o profeta caminha para lá e para
cá, com pés inquietos, gemendo, respirando rapidamente, ansiando, nem um pouco
à vontade. Não podia suportar olhar para a mãe desconsolada, nem ouvi-la
perguntar: "A criança já está restabelecida?", mas ele continuou
andando na casa porque sua alma não estava satisfeita. Imite essa inquietude
consagrada. Quando você vir um menino ficando um tanto sensibilizado, não se
sente para dizer: "A criança tem esperança, graças a Deus; estou
perfeitamente satisfeito". Desse jeito, você nunca ganhará a jóia
inestimável de uma alma salva; você deve se sentir triste, inquieto,
preocupado, se você se tornar um pai na igreja.
Depois de um tempo caminhando para
lá e para cá, o profeta novamente "subiu na cama e debruçou-se mais uma
vez sobre a criança". O que é bom fazer uma vez, convém fazer uma segunda
vez. O que é bom duas vezes, é bom sete vezes. Deve haver perseverança e
paciência. Tão certo quanto o calor passou de Eliseu à criança, assim pode
passar o seu frio para a sua classe, a não ser que você esteja num estado de
espírito bem sincero.
Eliseu se estendeu na cama
novamente com muita oração, muito suspiro, muita confiança, e, finalmente, seu
desejo lhe foi concedido. "O menino espirrou sete vezes e abriu os
olhos." Qualquer forma de ação indicaria vida, e deixaria o profeta
contente. A criança "espirrou", alguns dizem, porque morreu com uma
doença da cabeça, pois antes ele disse ao seu pai, "Minha cabeça! minha
cabeça!", e o espirro limpou as passagens de vida que se tinham bloqueado.
Isso não sabemos. Ao entrar novamente nos pulmões, o ar poderia bem forçar um
espirro. O som não era nada muito articulado ou musical, mas indicava vida. É
só isso que devemos esperar de crianças pequenas quando Deus lhes dá vida espiritual.
Alguns membros de igreja esperam muitas coisas mais, mas eu fico satisfeito se
as crianças espirram--se dão qualquer indicação verdadeira de graça, por mais
fraquinha ou indistinta que seja.
Talvez se Geazi tivesse estado lá,
não tivesse achado esse espirro nada demais, porque não havia se estendido
sobre a criança, mas Eliseu ficou contente com isso. Mesmo assim, se você e eu
temos realmente agonizado em oração pelas almas, perceberemos rapidamente o
primeiro sinal de graça, e ficaremos muito agradecidos a Deus mesmo que o sinal
seja só um espirro.
Então, a criança abriu os olhos,
e arriscamos dizer que Eliseu pensou que nunca antes tinha visto olhos tão
lindos. Não sei que espécie de olhos era, castanhos ou azuis, mas sei que
qualquer olho que Deus o ajudar a abrir será para você um olho lindo.
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