sábado, 25 de agosto de 2012

Pescadores de crianças parte 2



Capítulo 11: Instruções para professores e pais

Texto original: Pr. Joab Duarte

A primeira coisa a ser feita, é providenciar para que as crianças venham à sua escola. A grande queixa de alguns professores é que eles não têm alunos. Em Londres, estamos fazendo um levantamento das crianças; essa é uma boa idéia, e deve-se fazer um levantamento em todo lugar, mesmo que seja um vilarejo, uma comunidade rural, e se esforçar para que toda criança que você conseguir possa ir à Escola Dominical. Mas para isso, eu o aconselho a fazê-lo por meios legítimos e certos. Não influencie as crianças com promessas; esse é um plano ao qual fazemos forte objeção, e só é adotado em escolas de natureza tão inferior que até os pais e mães das crianças são suficientemente sensatos para mandá-las até lá. "Mas vocês podem não conseguir mais trabalho, ou, o patrão pode não renovar o contrato da família; ou, se as crianças não vão à escola aos domingos, não podem ir nos dias de semana." Esse é um truque desprezível; só mostra fraqueza, miséria e abominação de uma seita que não pode ter êxito sem usar um sistema tão degradante. E também não seja tão rabugento. Se eu não puder trazer as pessoas até a minha capela usando um casaco preto, usaria um uniforme militar amanhã--eu teria uma congregação de alguma forma. Melhor fazer coisas estranhas do que ter uma capela vazia, ou uma sala de aula vazia. Quando eu estava na Escócia, nós mandávamos um homem com um sino na mão dar a volta nas ruas da vila para conseguir um público, e o plano foi muito bem-sucedido. Não poupe os meios certos, mas faça com que as crianças entrem. Já conheci ministros que saíam às ruas nas tardes do domingo e, conversando com as crianças que estavam brincando ali, as convencia de irem à escola. É dessa forma que agirá um professor sincero; ele dirá: "João, venha à nossa escola; você não imagina que lugar ótimo é." Então, ele consegue que as crianças entrem, e com seu modo bondoso e atraente, conta-lhes histórias e casos sobre meninas e meninos que amaram ao Salvador, e desse jeito a escola se enche. Vá e arrebanhe as crianças. Não há lei contra isso; tudo é justo na guerra contra o diabo.
Em seguida, faça com que as crianças o amem, se puder. "Venham, meninos, ouçam-me." Você sabe como éramos ensinados na nossa escolinha antiga, como ficávamos em pé com as mãos para traz para repetir nossas lições. Esse não era o plano de Davi. "Ah! Como é bom ter um professor assim, um professor que me deixa chegar pertinho dele, um professor que não diz 'Vai', e sim 'Venha!'", pensa a criança. O defeito de muitos professores é que não chamam as crianças para perto deles; mas tentam criar em seus estudantes um tipo de respeito venerável. Antes que possa ensinar crianças, você deve conseguir a chave reluzente da bondade para destravar o coração delas e, assim, assegurar sua atenção. Diga: "Venham, crianças". Nós já conhecemos alguns homens bons que eram detestados por crianças. Você se lembra da história de dois garotinhos que, quando lhes perguntaram se gostariam de ir para o céu, para grande surpresa de seu professor, disseram que realmente não gostariam. Quando lhes perguntaram a razão, um deles disse: "Eu não gostaria de ir para o céu porque o vovô está lá e na certa ele diria: 'Vão andando, meninos; vão embora, vão andando!'" Então, se um menino tem um professor que lhe fala sobre Jesus, mas que está sempre de cara fechada, o que ele vai pensar? "Será que Jesus é como você; se for, eu não iria gostar dele." Depois há outro professor que, se é provocado por um nadinha, dá uns tabefes nas orelhas da criança; e ao mesmo tempo lhe ensina que ela deve perdoar os outros e ser bondosa para com eles. "Bem, "isso é muito bonito, sem dúvida, mas meu professor não me mostra como fazer isso", pensa o garoto. Se você afasta um menino, sua influência sobre ele se foi, pois você não poderá lhe ensinar nada. Não adianta tentar ensinar os que não têm amor para com você; por isso, tente e faça com que o amem, e então aprenderão qualquer coisa com você.
Em seguida, consiga a atenção das crianças. "Venham, crianças, prestem atenção". Se não lhe escutarem, você pode falar, mas falará sem propósito nenhum. Se não escutarem, você executa seu trabalho como uma tarefa sem sentido para você e para seus pupilos também. "Isso é justamente o que não posso fazer", diz alguém. Bem, isso depende de você - se você lhes der algo a que vale a pena prestar atenção, eles certamente o ouvirão. Essa regra pode não ser universal, mas é quase absolutamente segura. Não se esqueça de contar-lhes alguns casos engraçados. As anedotas são muito criticadas por avaliadores de sermões, que dizem que não devem ser usadas no púlpito; mas nós sabemos que não é bem assim, sabemos que uma boa brincadeira pode acordar uma congregação e despertar a atenção das pessoas. Por isso, colete durante a semana boas brincadeiras. Onde quer que estiver, se você é realmente um professor sábio, sempre poderá encontrar alguma coisas para transformar em história para contar às suas crianças. Então, quando estiver perdendo a atenção dos seus alunos, diga-lhes: "Vocês conhecem os Cinco Sinos?" Se esse lugar existir na cidade ou na vila, todos abrirão os olhos imediatamente. Ou, então, você pode perguntar: "Sabem a curva em frente do 'Leão Vermelho'?" Depois, conte-lhes algo que você leu ou ouviu sobre o assunto que prenda a atenção deles à lição. Uma criança disse uma vez: "Pai, eu gosto de ouvir o sr. Fulano pregar porque ele dá tantos exemplos." As crianças adoram exemplos. Faça parábolas, desenhos, e você conseguirá ir em frente. Tenho certeza de que, se eu fosse uma criança, a não ser que me contassem uma história de vez em quando, eu apareceria pouco na escola. E se eu estivesse sentado numa sala de aula quente, eu poderia cochilar, ou brincar com a criança sentada à minha esquerda, e mexer com tanta coisa como os outros, se você não trabalhasse para me interessar. Lembre-se, então, de fazer seus alunos escutarem.

Capítulo 12: Uma lição-modelo para professores

Ensine-lhes moralidade: "Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade. Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança" (Sl 34.13-14). Ora, não ensinamos moralidade como o caminho para a salvação. Deus nos livre de algum dia misturarmos as obras do homem com a redenção que está em Cristo Jesus! "Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus" (Efésios 2.8). Contudo, ensinamos moralidade enquanto ensinamos espiritualidade; e sempre descubro que o evangelho produz a melhor moralidade. Eu prefiro um professor de Escola Dominical vigilante sobre a moral dos meninos e meninas de quem cuidam, que fale com eles particularmente sobre os pecados que são mais comuns entre a criançada. Ele poderá dizer às crianças honesta e convenien-temente muitas coisas que ninguém mais pode dizer, especialmente quando faz com que eles se lembrem do pecado da mentira, tão comum às crianças, ou do pecado do pequeno roubo, da desobediência aos pais, da quebra do dia do Senhor. Preferiria que o professor fizesse muita questão de mencionar esses males um por um; pois pouco adianta falar-lhes sobre males em grande quantidade; é preciso mencioná-los um a um, assim como Davi fez. Primeiro cuide da língua: "Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade" (Sl 34.13). Depois cuide da conduta inteira: "Afaste-se do mal e faça o bem; busque a paz com perseverança" (Sl 34.14). Se a alma da criança não está salva por outras partes do ensino, esta parte pode ter um efeito benéfico sobre a vida dela, e até aí tudo bem. A moralidade, no entanto, por si só, é uma coisa comparativamente pequena. A melhor parte daquilo que você ensina é a piedade divinamente inspirada. Muitas pessoas são religiosas de certo modo, sem serem piedosas. Muitas têm todas as marcas externas da piedade, todo o lado de fora da piedade; a essas pessoas chamamos de "religiosos", mas elas não têm o pensamento certo com respeito a Deus. Pensam sobre seu lugar de culto, seu domingo, seus livros, mas nada sobre Deus. Quem não respeita a Deus, nem ora a Deus, nem ama Deus, é uma pessoa ímpia, qualquer que seja sua religião externa. Trabalhe para ensinar a criança a ter sempre um olho voltado para Deus; faça com que ela grave na memória estas palavras: "Tu me vês, ó Deus." Faça com que se lembre de que cada ato e pensamento dela é visto por Deus. Nenhum professor de Escola Dominical cumpre sua obrigação a não ser que frise sempre o fato de que há um Deus que tudo observa. Deveríamos ser mais piedosos, conversarmos mais sobre a piedade, e a amarmos mais.
A terceira lição é o mal do pecado. Se a criança não aprender isso, ela nunca aprenderá o caminho para o céu. Nenhum de nós sabia o que Cristo Salvador era até sabermos que coisa terrível é o pecado. Se o Espírito Santo não nos ensinar a grande pecaminosidade do pecado, nós nunca conheceremos a bem-aventurança da salvação. Busquemos a graça do Santo Espírito, então, quando ensinamos, para que possamos sempre ser capazes de dar ênfase à natureza abominável do pecado. "O rosto do Senhor volta-se contra os que praticam o mal para apagar da terra a memória deles" (Sl 34.16). Não poupe sua criança; deixe-a saber a que o pecado leva. Não tenha medo, como têm algumas pessoas, de falar claramente sobre as conseqüências do pecado. Ouvi falar de um pai que tinha um filho muito ímpio, e foi levado de modo bem repentino.
Ao contrário do que algumas famílias fariam, o pai, vencendo seus sentimentos naturais, pela graça divina, reuniu seus filhos e lhes disse: "Meus filhos, o irmão de vocês morreu; temo que esteja no inferno. Vocês conheciam sua vida e conduta, viram como se comportou; e agora Deus o apanhou em seus pecados." Então, ele lhes contou solenemente sobre o lugar do infortúnio em que acreditava - sim, quase tinha certeza que ele tinha ido, implorando que eles o evitassem, e fugissem da ira vindoura. Assim, ele foi o meio de levar seus filhos a um pensamento sério; mas tivesse ele agido, como alguns teriam feito, com ternura de coração, mas sem honestidade de propósito, e dito que esperava que seu filho tivesse ido ao céu, o que as outras crianças teriam dito? "Se ele foi para o céu, então não precisamos temer; podemos viver como quisermos." Não, não; eu mantenho que não é falta de cristandade dizer de alguns homens que eles vão para o inferno, quando já vimos que suas vidas eram infernais. Mas, pergunta-se: "Você pode julgar seus semelhantes?" Não, mas posso conhecê-los pelos seus frutos. Eu não os julgo, nem os condeno; eles julgam a si mesmos. Já vi seus pecados irem a juízo de antemão, e não duvido que eles seguirão atrás. "Mas não podem ser salvos na décima primeira hora?" Eu soube de uma pessoa que foi, mas não sei se isso aconteceu com outras pessoas, e não posso dizer que haverá outra algum dia. Seja honesto, pois, com seus filhos, e ensine-os, com a ajuda de Deus, que "o mal matará os maus".
Mas isso não é tudo e você não terá feito o suficiente se não ensinar cuidadosamente a quarta lição--a necessidade absoluta de uma mudança de coração. "O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito contrito" (Sl 34.18). Ah! possa Deus capacitar-nos para conservarmos isso constantemente na mente dos que são ensinados, que é preciso haver um coração quebrantado e um espírito contrito, que boas obras de nada valerão a não ser que haja um arrependimento verdadeiro e total do pecado, e um abandono completo do pecado pela graça e misericórdia de Deus! Se precisar escolher, tenha a certeza de ensinar às crianças os três "r"--ruína, redenção e regeneração. Diga às crianças que a ruína deles veio pela queda e que há salvação para eles somente com o ser redimido pelo sangue de Jesus Cristo, e regenerado pelo Espírito Santo. Conserve constantemente diante deles essas verdades vitais porque assim terá a tarefa agradável de lhes contar o doce assunto da lição do final.
Em quinto lugar, então, fale às crianças sobre a alegria e bênção de ser cristão. "O Senhor redime a vida dos seus servos; ninguém que nele se refugia será condenado. Quem nele confia não ficará desolado" (Sl 34.22). Não preciso falar como você deve tratar deste assunto; pois, você sabe o que é ser cristão. Quando nos aprofundamos neste assunto, nossa mente não pára de trabalhar. Como disse o salmista: "Como é feliz aquele que tem suas transgressões perdoadas e seus pecados apagados!" (Sl 32.1). "Como é feliz o homem que põe no Senhor a sua confiança" (Sl 40.4). Sim, feliz é o homem, a mulher, a criança que confia no Senhor Jesus Cristo e que nele espera. Enfatize sempre este ponto - que os justos são pessoas abençoadas, que a família escolhida de Deus, redimida pelo sangue e salva pelo poder, são pessoas abençoadas aqui na Terra, e que eles serão abençoados para sempre lá no Céu. Faça com que suas crianças vejam que você também pertence a este grupo. Se eles sabem que você está com problemas, se possível, apresente-se diante de sua sala com um sorriso em sua face, para que seus alunos possam dizer: "O professor é um homem abençoado, embora esteja enfrentando problemas". Regozije-se sempre para que seus meninos e meninas saibam que sua religião é uma realidade abençoada. Que esse seja o ponto principal de seu ensino, que embora "o justo passa por muitas adversidades", porém, "o Senhor o livra de todas; protege todos os seus ossos; nenhum deles será quebrado. O Senhor redime a vida dos seus servos; ninguém que nele se refugia será condenado" (Sl 34.19, 20, 22).
Falamos aqui de dei cinco lições, e, com toda instrução que você possa dar a suas crianças, todos precisam estar profundamente conscientes de que não são capazes de fazer nada na aquisição da salvação da criança, mas que é Deus que, do começo ao fim, precisa efetuar toda ela. Você é simplesmente uma caneta; Deus pode escrever com você, mas você não pode escrever nada. Você é uma espada; Deus pode com você matar o pecado da criança, mas você não pode matá-lo. Esteja, portanto, sempre consciente disso, de que primeiro você precisa ser ensinado por Deus e, depois, você precisa pedir a Deus que o use para ensinar; porque a não ser que um professor que lhe seja superior trabalhe com você, e instrua a criança, a criança deve perecer. Não é a sua instrução que pode salvar a alma de suas crianças; é a bênção de Deus, o Espírito Santo, acompanhando seus labores. Possa Deus abençoar e coroar seus esforços com sucesso abundante! Ele o fará se você instar em oração, for constante nas súplicas. Até hoje, nunca o professor ou pregador "trabalhou em vão no Senhor", e muitas vezes se viu que o pão lançado sobre as águas foi encontrado após muitos dias.

Capítulo 13: "Venham, crianças"--Três advertências

A primeira delas: lembre-se de quem você está ensinando: "Venham, crianças". Creio que devemos sempre respeitar nossos espectadores. Não quero com isso dizer que devemos nos importar se estamos pregando a pessoas ilustres ou não, ao doutor Fulano de Tal, ao Excelentíssimo Senhor Sicrano, porque à vista de Deus tais títulos são meros detalhes; mas devemos lembrar que estamos pregando a homens e mulheres que têm alma, de modo que não devemos ocupar seu tempo com coisas que não vale a pena ouvirem. Mas quando ensinamos em Escolas Dominicais, a nossa situação é até de maior responsabilidade que a de um ministro, se é que isso é possível. Ele prega a adultos, homens e mulheres de juízo feito que, se não gostam do que ele prega, podem ir a outro lugar; mas você ensina crianças que não têm a opção de ir a outra parte. Se você as ensina de maneira errada, ela crê em você; se você ensinar heresias, ela as recebe; o que você lhe ensinar agora, será lembrado. Você não está semeando, como alguns dizem, em solo virgem, porque há muito já foi ocupado pelo diabo; mas você está semeando num solo mais fértil agora do que será daqui para a frente--solo que produzirá fruto muito melhor do que fará em dias posteriores. Você está semeando num coração novo, e o que você semeia é bem capaz de ficar lá, especialmente se você ensina o mal, pois isso nunca será esquecido. Você está começando com a criança; cuidado com o que você faz com ela. Não a estrague. Muita criança já foi tratada como as crianças indígenas que tiveram chapas de cobre colocadas na testa para que não crescessem. Há muitos que são simplórios agora porque quem cuidou deles quando pequenos não lhes deram oportunidades de ganhar sabedoria, de modo que, à medida que ficaram adultos, não se importaram com ela.
Cuide bem daquilo que você busca; você está ensinando crianças, importe-se com o que você lhes ensina. Coloque veneno na fonte e contaminará todo o ribeirão. Cuidado com o resultado que você busca! Você está torcendo a árvore nova, e o carvalho velho vai estar curvado por isso. Cuide bem, é com a alma de uma criança que você está mexendo; é a alma de uma criança que você está preparando para a eternidade, se Deus está com você. Minha advertência solene vem da parte de todas as crianças. Realmente, se é assassinato administrar veneno a quem está morrendo, deve ser muito mais criminoso dar veneno à vida juvenil. Se é errado conduzir mal um idoso de cabeça branca, deve ser muito mais, dirigir mal os pés dos jovenzinhos na estrada do erro onde pode ser que caminhem para sempre.
A segunda: lembre-se também de que você está ensinando para Deus. "Venham, crianças, ouçam-me, eu lhes ensinarei o temor do Senhor." Se, como professores, você estivesse ensinando geografia, talvez não os ferisse eternamente você lhes dizer que o pólo Norte fica perto do Equador; ou que a extremidade da América do Sul fica pertinho do litoral da Europa; ou que a Inglaterra fica no meio da África. Mas você não está ensinando geografia, nem astronomia, nem está treinando as crianças para uma vida no comércio deste mundo; está, ao contrário, dando o melhor que pode para ensiná-las para Deus. Fira a mão da criança se for o caso, mas por amor de Deus não fira seu coração. Diga o que quiser sobre coisas temporais; mas em assuntos espirituais, eu lhe rogo, tenha muito cuidado com a maneira como você o dirige. Tome cuidado para ensinar apenas a verdade, só a verdade. Com essa responsabilidade, como é sério o seu trabalho! Aquele que trabalha para si, pode fazer como quiser; mas aquele que trabalha para outras pessoas, precisa cuidar de agradar seu mestre; quem é contratado por um monarca precisa tomar cuidado com o modo como desempenha sua obrigação; mas quem trabalha para Deus deve tremer para não fazer sua tarefa malfeita. Lembre-se de que você está trabalhando para Deus, se você é o que professa ser. Ai! temo que muitos estejam longe de ter essa visão séria do trabalho de um professor de Escola Dominical.
E a terceira: lembre-se de que suas crianças precisam de ensino. "Venham, meus filhos, ouçam-me: eu lhes ensinarei o temor do Senhor." Isso faz seu trabalho um tanto mais solene. Se as crianças não precisassem ser ensinadas, eu não teria motivos para me preocupar que você as ensinasse do modo certo. Trabalhos de super-rogação, trabalhos que não são necessários, os homens podem fazer como quiserem, mas esse trabalho é absolutamente necessário. Sua criança precisa ser ensinada. Nasceu na iniqüidade; no pecado sua mãe a concebeu. Ela tem um coração mau; não conhece Deus, e nunca conhecerá o Senhor a não ser que seja ensinada a conhecê-lo. Ela não é como uma terra da qual ouvimos falar, que tem semente boa escondida em seus recessos; em vez disso, ela tem semente má em seu coração. Deus pode semear nele uma boa semente. Vocês professam ser instrumentos dele para espalhar a boa semente no coração dessas crianças; lembrem-se, se essa semente não for semeada, a criança será perdida para sempre, sua vida será uma vida de alienação de Deus; e na sua morte o castigo eterno terá que ser sua porção. Muito cuidado, então, como ensinam, lembrando-se da urgente necessidade do caso. Esta não é uma casa que pegou fogo e que precisa de sua ajuda com o hidrante, nem é um navio naufragado que exige seu remo no bote salva-vidas; mas é um espírito imortal clamando para você em voz alta: "Venha e me ajude." Por isso, eu lhe rogo, ensine o temor ao Senhor, e unicamente isso; tenha ansiedade em dizer, e dizer de verdade: "Eu lhe ensinarei o temor ao Senhor."

Capítulo 14: "Venham, crianças"--O convite do salmista (Salmo 34.11)

Não deixa de ser uma coisa singular o fato de que homens bons freqüentemente descobrem o seu dever quando são colocados nas mais humilhantes posições. Nunca na vida de Davi ele esteve em situação pior do que aquela que sugeriu este salmo. O cabeçalho é: "Salmo de Davi, quando ele se fingiu de louco diante de Abimeleque, que o expulsou, e ele partiu". Esse poema teve a intenção de comemorar aquele evento, e foi sugerido pela situação. Davi foi levado diante do rei Aquis, o Abimeleque da Filistia, e para conseguir escapar, fingiu ser louco, acompanhando sua afirmação de loucura com certas ações muito degradantes que bem poderiam parecer dar mostra de insanidade. Ele foi afastado do palácio, e, como é comum, quando tais homens estão na rua, é provável que um bom número de crianças tenha se reunido em volta dele.
A história triste é contada em 1Samuel 21.10-15. Em dias subseqüentes, quando Davi cantou louvores a Jeová, relembrando como ele se tornou o motivo de riso de criancinhas, ele parecia dizer: "Ah, pela minha tolice diante das crianças nas ruas, eu me reduzi na estima de gerações que viverão depois de mim; agora eu procurarei desfazer o dano--'Venham, meus filhos, ouçam-me, eu lhes ensinarei o temor do Senhor'".
É bem possível que, se Davi nunca tivesse estado numa posição dessas, ele jamais tivesse pensado nesse dever; pois não encontro outro salmo em que ele tenha dito: "Venham, meus filhos, ouçam-me." Ele tinha as responsabilidades de suas cidades, suas províncias e sua nação pressionando-o, e em outras ocasiões pode ter dado pouca atenção à educação dos jovens; mas aqui, levado à posição mais ridícula que um homem pode ocupar, tornando-se alguém privado de pensamento racional, ele se lembra de seu dever. O cristão importante ou próspero nem sempre se lembra dos "cordeiros". Essa responsabilidade geralmente é entregue aos Pedros, cujo orgulho e confiança foram esmagados, e que se alegram de terem na prática uma resposta à pergunta do Senhor: "Tu me amas?".
"Venham, meus filhos, ouçam-me; eu lhes ensinarei o temor do Senhor." A doutrina é que as crianças têm capacidade para que lhes seja ensinado o temor do Senhor.
Os homens, em geral, se tornam mais sábios depois de serem mais tolos. Davi havia sido extremamente tolo e, depois, se tornou verdadeiramente sábio; e, sendo assim, não era provável que ele pronunciasse sentimentos tolos, nem desse instruções que indicariam uma mente fraca. Já ouvimos dizer que as crianças não podem entender os grandes mistérios da religião. Até conhecemos alguns professores de Escola Dominical que cautelosamente evitam mencionar as grandes doutrinas do evangelho, porque acham que as crianças não estão preparadas para recebê-las. Esse mesmo erro também já chegou ao púlpito; pois se acredita hoje, entre certa classe de pregadores, que muitas das doutrinas da Palavra de Deus, embora sejam verdadeiras, não são adequadas para serem ensinadas ao povo, visto que os perverteriam para sua própria destruição. Chega dessas artimanhas sacerdotais! Tudo o que Deus revelou deve ser pregado. Creio e pregarei tudo o que ele revelou, mesmo que eu não seja capaz de entender. Sustento que não há doutrina da Palavra de Deus que uma criança, se for capaz de ser salva, não seja capaz de receber. Às crianças devem ser ensinadas todas as grandes doutrinas da verdade, sem uma única exceção, para que, nos dias vindouros, elas possam retê-las firmemente.
Posso testemunhar que as crianças sabem entender as Escrituras; porque tenho certeza de que, quando eu era apenas uma criança, eu poderia ter discutido muitos pontos complicados de teologia controvertida, já que eu havia escutado ambos os lados da questão afirmados livremente no círculo dos amigos de meu pai. Na verdade, as crianças são capazes de entender algumas coisas bem cedo, que nós mal entendemos mais tarde. Elas têm sobretudo uma simplicidade de fé, e a simplicidade de fé é parecida com a mais alta sabedoria; de fato, nós desconhecemos se há grande distinção entre a simplicidade de uma criança e o gênio da mente profunda. As pessoas que recebem as coisas com simplicidade, como uma criança, muitas vezes terão idéias que alguém que costuma fazer silogismo de todo assunto nunca chegará a ter. Se você deseja saber se as crianças podem ser ensinadas, eu lhe indicarei muitas delas em nossas igrejas, e em famílias piedosas--não crianças prodígios, mas como as que vemos freqüentemente--Timóteos e Samuéis, e garotinhas também, que cedo conheceram o amor de um Salvador. Se uma criança pode se perder, ela também é capaz de ser salva. Se pode pecar, pode, se a graça de Deus a ajudar, crer e receber a Palavra de Deus. Se pode aprender o mal, tenha certeza de que são competentes, sob o ensino do Espírito Santo, para aprender o bem.
Nunca entre na sua classe com a idéia de que as crianças não podem compreendê-lo; porque se você não consegue fazer com que elas o compreendam, é possível que seja porque você mesmo não compreende; se você não ensina as crianças aquilo que quer que elas aprendam, talvez seja porque você não esteja apto para a tarefa; você deve usar palavras mais simples, mais adequadas à capacidade delas, e então descobrirá que não foi um problema da criança, mas sim do professor, se ela não aprendeu. Entenda que as crianças são capazes de salvação. Aquele que, na soberania divina, recuperou um pecador de cabeça branca do erro de seus hábitos, pode mudar uma criancinha para que ela abandone seus maus costumes juvenis. Aquele que, na décima primeira hora, acha homens desocupados e os manda para sua vinha, pode chamar e chama homens no raiar do dia para trabalhar por ele. Aquele que pode mudar o curso de um rio quando já correu muito e tornou-se uma enchente poderosa, pode controlar um riozinho recém-nascido que salta de sua fonte-berço, e fazer com que corra no leito que ele deseja. Ele pode fazer todas as coisas. Pode trabalhar no coração das crianças segundo a sua vontade, pois todas estão sob o seu controle.
Não vou estabelecer a doutrina porque não creio que exista alguém que possa duvidar disso. O meu medo, no entanto, é que muitos não esperam ter notícia de que as crianças estejam sendo salvas. Em todas as igrejas, tenho notado uma espécie de repugnância diante de qualquer coisa que se pareça com piedade infantil. Assustamo-nos com a idéia de um menino pequeno amar a Cristo; e se ouvimos falar de uma menina pequena seguir o Salvador, dizemos que é uma imaginação infantil, uma impressão que vai definhar. Eu lhes rogo, nunca suspeite da piedade dos pequenos. É uma planta muito nova, não a trate com mão pesada. Há algum tempo, me contaram um caso que me parece verídico. Uma menina, de 5 ou 6 anos, que amava Jesus de verdade, pediu à mãe se podia se tornar membro da igreja. A mãe lhe disse que ela era muito nova, e a pobrezinha ficou triste demais. Depois de algum tempo, a mãe, que viu que a piedade estava no coração da criança, falou com o pastor sobre o assunto. O pastor conversou com a criança, e disse à mãe: "Estou completamente convencido da piedade dela, mas não posso recebê-la na igreja, ela é nova demais." Quando a criança ouviu isso, uma melancolia estranha marcou seu rosto, e, na manhã seguinte, quando a mãe foi até sua caminha, ela estava deitada com uma lágrima nos olhos, morta de pura tristeza; seu coração tinha sido partido porque não podia seguir seu Salvador e fazer o que ele lhe mandara fazer. Eu não teria matado essa criança! Tenha muito cuidado com a forma como você trata a piedade juvenil. Seja delicado com ela. Creia que as crianças podem ser salvas tanto quanto você. Eu creio firmemente na salvação de crianças. Quando você vir o coração infantil levado ao Salvador, não se afaste e não use de um tom duro e que desconfia de tudo. Às vezes, é melhor ser enganado do que ser o meio de ofender um desses pequeninos que crêem em Jesus. Deus manda ao seu povo uma crença firme de que botõezinhos de graça merecem todo o cuidado!
Capítulo 15: Os dois incentivos do rei Davi aos pais e mestres
O primeiro incentivo é o do exemplo piedoso. Davi disse: "Venham meus filhos, ouçam-me; eu lhes ensinarei o temor ao Senhor." Você não teme andar nos passos de Davi, teme? Você não fará objeção quanto a seguir o exemplo de uma pessoa que foi muito santo e, depois, muito grande. Será que o pastorzinho, o matador do gigante, o doce salmista de Israel, o poderoso monarca, deixa pegadas em que você é orgulhoso demais para pisar? Oh, não! Você se agradará, eu sei, de ser como Davi era. Se quiser, no entanto, um exemplo ainda superior ao de Davi, ouça o filho de Davi enquanto de seus lábios fluem doces palavras: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas" (Mt 19.14). Estou certo de que você se sentiria incentivado se sempre pensasse nesses exemplos.
Vocês que ensinam crianças não são desonrados por essa ocupação. Alguns poderão dizer: "Você é só um(a) professor(a) de Escola Dominical", mas você é uma pessoa nobre, que tem uma ocupação honrosa, e teve antecessores ilustres. Nós gostamos de ver pessoas de alguma projeção na sociedade se interessando por escolas dominicais. Um grande defeito em muitas de nossas igrejas é que as crianças são deixadas aos cuidados dos jovens; os membros mais velhos, que têm mais sabedoria, lhes dão pouca atenção; e muitas vezes os membros mais endinheirados ficam de lado como se o ensino dos pobres não fosse (mas na verdade é) responsabilidade especial dos ricos. Almejo ver o dia em que os poderosos de Israel serão encontrados cooperando nessa grande guerra contra o inimigo. Nos Estados Unidos, já soubemos de presidentes, juízes, membros do Congresso e pessoas de posições elevadas, não condescendendo, porque eu recuso usar tal termo, mas honrando a si mesmos ao ensinar criancinhas em Escolas Dominicais.
Quem ensina uma classe numa Escola Dominical já ganhou um bom diploma. Prefiro receber um título de professor de Escola Dominical do que um título de mestre, bacharel ou qualquer outra honra conferida por homens. Então, se anime, pois seus deveres são muito honrados. Que o exemplo monárquico de Davi e o exemplo divino de Jesus Cristo o inspirem com nova diligência e crescente ardor, com perseverança confiante e duradoura, a prosseguir ainda mais em seu trabalho abençoado, dizendo como fez Davi: "Venham, meus filhos, ouçam-me; eu lhes ensinarei o temor ao Senhor."
O segundo é o incentivo de grande sucesso. Davi disse: "Venham, crianças, ouçam-me"; ele não acrescentou "talvez eu lhes ensine o temor ao Senhor", e sim, "eu as ensinarei". Ele obteve êxito; ou, se não, outros obtiveram. O êxito das Escolas Dominicais! Se eu começar a falar disso, terei um tema sem fim; portanto, não começarei. Muitos volumes poderiam ser escritos sobre o assunto, e depois de todos escritos, poderíamos dizer: "Suponho que nem o mundo todo poderia caber tudo que poderia ser escrito." Lá em cima, onde as hostes estreladas cantam perpetuamente os altos louvores de Deus, lá onde a multidão vestida de branco lança suas coroas aos pés dele, veremos o sucesso das escolas dominicais. Ali, também, onde milhões de crianças se reúnem domingo após domingo para cantar "Louvai e adorai-o, todas as crianças, Deus é amor", vemos com alegria o êxito das escolas dominicais. E aqui no norte, em quase todos os púlpitos de nossa terra, e ali nos bancos onde os diáconos estão, e membros piedosos se unem a eles em culto, vê-se o êxito das escolas dominicais. E bem longe, do outro lado daquele oceano imenso, nas ilhas do Sul, em terras onde moram aqueles que se curvam diante de blocos de madeira e pedra, há missionários que foram salvos nessas escolas, e os milhares, abençoados por seus esforços, contribuem para aumentar a corrente poderosa do incalculável, e quase disse do infinito, sucesso da instrução da escola dominical. Continuem com seu culto sagrado; muito já foi feito, mas mais será feito ainda. Que todas as suas vitórias passadas os inflamem com novo ardor, que a lembrança de seus triunfos em campanhas anteriores e todos os troféus ganhos pelo seu Salvador no campo de batalha do passado sejam seu incentivo para correr em frente com o dever do presente e do futuro.

A infância e a Bíblia sagrada (2 Timóteo 3.15)

Paulo ensinou o evangelho ao jovem Timóteo; ele não só o fez ouvir sua doutrina como o fez ver sua prática. Não podemos forçar a verdade sobre os homens, mas podemos tornar nosso ensino claro e decidido, de modo que nossa vida seja coerente com ela. A verdade e a santidade são os antídotos mais corretos para o erro e a impiedade. O apóstolo disse a Timóteo: "Permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste."
Ele então enfatizou outro remédio forte que tem sido de grande serventia para o jovem pregador - o conhecimento das Escrituras Sagradas desde criança. Isso foi para o jovem Timóteo uma de suas melhores salvaguardas. Seu treinamento o mantinha como âncora, e o salvava da terrível deriva da época. Moço feliz, de quem o apóstolo pôde dizer: "Desde a infância sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus!"
Para estar preparado para o conflito que vem pela frente, temos só que pregar o evangelho, e viver o evangelho; e também cuidar de ensinarmos às crianças a Palavra do Senhor. E isso é especialmente importante, pois é pela "boca dos pequeninos e das crianças de peito" que Deus silenciará o inimigo. É tolice sonhar que o aprendizado humano precisa ser enfrentado com aprendizado humano, ou que Satanás deve expulsar Satanás. Não. Erga a serpente de bronze onde quer que as serpentes ardentes estiverem picando as pessoas, e os homens olharão para ela e viverão. Tire de casa as crianças, e erga-as ao alto, e volte seus olhinhos para o medicamento divinamente ordenado; pois ainda há vida em um olhar--vida em contraste com os variados venenos da serpente que agora estão envenenando o sangue dos homens. Afinal, não há cura para a escuridão da meia-noite senão o sol do raiar do dia, não há esperança para o mundo em trevas senão naquela luz que ilumina todo homem. Brilhe, ó, sol da justiça, e desaparecerão a névoa, a nuvem da neblina e o escuro. Mantenha os planos apostólicos e confie plenamente no sucesso apostólico. Pregue para Cristo; pregue a Palavra na estação própria e fora de estação: e ensine as crianças. Um dos métodos principais para evitar o joio nos campos delas, é semeá-las cedo com trigo.
O trabalho da graça de Deus em Timóteo começou com instrução bem cedo--"Desde a infância sabes as sagradas letras."
Observe o tempo para a instrução. A expressão "desde a infância" é melhor entendida como sendo "desde criancinha". Não significa uma criança crescida, ou jovem, mas sim uma criança bem pequenina. Desde criancinha Timóteo conheceu os escritos sagrados. Essa expressão é usada, sem dúvida, para mostrar que nunca é cedo demais para começar a preencher a mente de nossos filhos com conhecimento bíblico. Os bebês recebem impressões muito antes de ficarmos cientes do fato. Durante os primeiros meses da vida de uma criança, ela aprende mais do que imaginamos. Aprende bem cedo o amor de sua mãe, e sua própria dependência. E se a mão for sábia, aprende o que significa obediência, e a necessidade de ceder sua vontade a uma vontade superior. Essa pode ser a nota tônica de toda sua vida futura. Se ela aprende obediência e submissão cedo, isso pode evitar mil lágrimas dos olhos da criança, e outras tantas do coração da mãe. Perde-se uma posição de vantagem quando até mesmo a primeira infância é deixada sem esse cultivo.
A Bíblia pode ser aprendida por crianças logo que sejam capazes de entender qualquer coisa. É notável o fato, que tenho ouvido de muitos professores, de que as crianças aprendem a ler pela Bíblia melhor do que por qualquer outro livro. É difícil saber porque isso acontece, talvez seja pela simplicidade da linguagem; mas eu acho que isso é verdade. Um fato bíblico pode ser compreendido e, muitas vezes, um incidente da história comum é esquecido. Há uma adaptação dentro da Bíblia para pessoas de todas as idades, e, sendo assim, ela tem uma adequação para crianças. Erramos quando achamos que precisamos começar com outra coisa e depois chegar às Escrituras. A Bíblia é o livro para o raiar do dia. Partes dela estão acima do entendimento da criança, pois estão acima da compreensão dos mais avançados entre nós. Há profundidades nela em que leviatã pode nadar; mas há também ribeirões em que um cordeiro pode caminhar na água. Mestres sábios saberão conduzir seus pequeninos aos pastos verdes junto às águas de descanso.
Eu notava, na vida daquele homem de Deus cuja falta pesa sobre muitos de nossos corações, o conde de Shaftesbury, que suas primeiras impressões religiosas foram produzidas por uma senhora humilde. As impressões que o fizeram homem de Deus e amigo do homem foram recebidas no quarto de criança. O pequeno lorde Ashley teve uma ama piedosa que lhe falava das coisas de Deus. Ele nos conta que ela morreu antes que ele completasse 7 anos, prova evidente de que cedo na vida seu coração fora capaz de receber o selo do Espírito de Deus, de recebê-lo por meio de uma instrumentalidade humilde. Bendita entre as mulheres foi aquela cujo nome desconhecemos, mas que prestou serviço inestimável para Deus e o homem pelo seu ensino santo da criança eleita. Babás jovens, notem isso.
Dê-nos os primeiros 7 anos de uma criança, com a graça de Deus, e poderemos desafiar o mundo, a carne e o diabo a estragar aquela alma imortal. Nesses primeiros anos, enquanto o barro está macio e moldável, vão longe para decidir o formato do vaso. Não diga que sua posição, vocês que ensinam os novos, fica um inferior àquela das pessoas cuja maior ocupação é com pessoas mais velhas. Não, vocês têm os primeiros tempos deles, e suas impressões, como vêm primeiro, serão duradouras, e que possam ser boas, somente boas! Entre os pensamentos que vêm a um idoso antes de ele entrar no céu, os mais numerosos são aqueles que antes conheceram quando se sentava no colo de sua mãe. Aquilo que fez com que o Dr. Guthrie pedisse um "hino de criança" quando estava morrendo, é apenas um instinto de nossa natureza que nos leva a completar o círculo, dobrando juntas as pontas da vida. As coisas que são caras à infância são as mais queridas da velhice. Livramo-nos de uma parte da serpentina que nos rodeia e atrapalha, e voltamos a nossos seres mais naturais; e por isso os velhos cantos estão sobre nossos lábios, e os velhos pensamentos estão em nossas mentes. Os ensinos de nossa infância deixam impressões definidas e distintas na mente, que permanecem depois que setenta anos já passaram. Cuidemos que tais impressões sejam feitas para os mais altos propósitos.
É bom notar a admirável seleção de instrutores. Não ficamos sem saber quem instruiu o jovem Timóteo. No primeiro capítulo desta epístola, Paulo fala: "Recordo-me da sua fé não fingida, que primeiro habitou em sua avó Lóide e em sua mãe Eunice; e estou convencido de que também habita em você" (2Tm 1.5). Sem dúvida, a avó Lóide e a mãe Eunice se uniram para ensinar o pequeno. Quem deve ensinar as crianças senão os pais? O pai de Timóteo era grego, e provavelmente um pagão, mas seu filho dele foi feliz por ter uma avó venerável, tantas vezes a mais querida de todos os parentes de uma criança. Tinha também uma mãe graciosa, antes uma judia devota, e depois também uma cristã de fé firme, que fez seu prazer diário ser ensinar ao seu próprio filho a Palavra do Senhor. Ó, mães queridas, Deus lhes confiou uma obrigação sagrada muito grande! Com efeito, ele disse a cada uma de vocês: "Leve este menino e cuide dele para mim, e eu lhe pagarei por isso" (Êx 1.8b).
Você é chamada a equipar o futuro homem de Deus, para que ele possa ser equipado para toda boa obra. Se Deus o poupar, você poderá viver para ouvir no futuro esse menino falando para milhares de pessoas, e terá a doce reflexão em seu coração de que os ensinamentos tranqüilos do quarto do menino levaram o homem a amar a seu Deus e a servi-lo. Aqueles que acham que uma mulher presa em casa por sua pequena família não faz nada pensam o contrário do que é verdade. Dificilmente uma mãe piedosa pode deixar o lar para ir a um lugar de culto; mas não pense que ela se perde para o trabalho da igreja; longe disso, ela faz o melhor trabalho possível para seu Senhor. Mães, o treinamento piedoso de seus filhos é sua primeira e mais premente obrigação. Mulheres cristãs, ao ensinar a Bíblia às crianças, estão cumprindo seu papel para o Senhor tanto como Moisés ao julgar Israel, ou Salomão ao construir o templo.

Capítulo 17: Testemunhas para Deus convertidas na mocidade (1Reis 18.12)

Duvido que Elias tenha apreciado muito Obadias. Ele não o trata com nenhuma consideração, ao contrário, fala com ele mais rispidamente do que se imaginaria de um irmão na fé. Elias era o homem de ação--corajoso, sempre à frente, sem nada a ocultar; Obadias era um crente quieto, verdadeiro e firme, mas numa posição muito difícil, e por isso constrangido a fazer sua obrigação de maneira menos aberta. A fé que tinha no Senhor movia sua vida, mas não o impulsionava a sair da corte do rei. Mesmo depois que Elias soube mais como ele era, nessa entrevista, Elias fala acerca do povo de Deus como se não contasse muito com Obadias e com outras pessoas semelhantes. Ele diz para Deus: "Quebraram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Sou o único que sobrou, e agora também me procuram para matar-me" (1Re 19.14b). Ele sabia muito bem que Obadias estava vivo, e que, embora não fosse exatamente um profeta, era um homem de destaque; mas parece ignorá-lo como se fosse de pequena estatura no grande embate. Talvez porque Elias, homem de ferro, profeta de fogo e trovão, servo poderoso do Altíssimo, desse pouco valor a alguém que não assumisse uma posição de realce e lutasse igual a ele. A tendência de mentes corajosas e zelosas é valorizar menos a piedade discreta, reservada. Servos fiéis de Deus e aceitos por ele podem dar o melhor de si sob grandes desvantagens, contra forte oposição, e não serem reconhecidos, e podem mesmo evitar até o menor reconhecimento; portanto, homens que vivem na luz feroz da vida pública poderão subestimá-los. Esses astros menores ficam perdidos no brilho do homem a quem Deus ilumina como um novo Sol para flamejar na escuridão. Elias flamejava no céu de Israel como um raio com trovão vindo da mão do Eterno, e naturalmente ele seria um tanto impaciente com aqueles cujos movimentos eram mais lentos e menos aparentes. É Marta e Maria de novo, em alguns aspectos.
O Senhor não ama que seus servos, por maiores que sejam, pensem pouco de seus companheiros menores, e me ocorre que ele tenha arranjado as coisas de maneira que Obadias se tornasse importante para Elias quando ele tinha de enfrentar o rei irado de Israel. Solicitou-se ao profeta que se apresentasse a Acabe, e ele o faz; mas julga ser melhor começar mostrando-se ao governador do palácio, para que ele leve a notícia a seu mestre, o rei, e o prepare para a entrevista. Acabe estava nervoso com os resultados terríveis da longa seca e poderia, na sua fúria, tentar matar o profeta, e como tem tempo para reconsiderar, pode se acalmar um pouco.
Elias tem uma entrevista com Obadias, e manda que este vá e diga a Acabe: "Eis aí Elias." Às vezes, o caminho mais curto para atingirmos o nosso objetivo pode dar algumas voltas. Mas é notável que Obadias seja útil para um homem tão superior a ele. Ele, que nunca temeu enfrentar reis, se vê usando como ajudante um indivíduo muito mais tímido do que ele.
Aprendemos mais pela narrativa que Deus nunca se deixa ficar sem testemunhas neste mundo. Sim, e não se deixará ficar sem testemunhas nos lugares piores do mundo. Que moradia horrível para um crente verdadeiro deve ter sido a corte de Acabe! Mesmo que não houvesse outro pecador lá, além daquela mulher Jezabel, ela já seria suficiente para tornar o lugar uma poça de iniqüidade. Aquela rainha sidônia, decidida e orgulhosa, fazia o que queria com o pobre Acabe. Talvez ele jamais tivesse sido o perseguidor que foi se sua esposa não o tivesse instigado; mas ela detestava intensamente o culto de Jeová e desprezava a simplicidade de Israel comparada com o estilo mais pomposo dos sidônios. Acabe devia ceder às suas exigências imperiosas, pois ela não aceitava contradições, e quando seu espírito altivo se levantava ela desafiava toda oposição. Contudo, naquela mesma corte onde Jezabel era senhora, o mordomo era um homem que temia muito a Deus. Nunca se surpreenda por encontrar um crente em qualquer parte. A graça pode viver onde você nunca esperaria vê-la sobreviver por uma hora.
José temeu a Deus na corte do faraó; Daniel foi um conselheiro de confiança de Nabucodonosor; Mordecai esperou na porta do rei Xerxes; a esposa de Pilatos rogou pela vida de Jesus; e haviam santos na casa de César. Ima-gine, então, encontrar diamantes de excelente qualidade no palácio imundo de Nero. Aqueles que temiam a Deus em Roma não só foram cristãos, como foram exemplos para todos os outros cristãos pelo seu amor fraterno e sua generosidade. Certamente, não há lugar nesta terra onde não haja alguma luz: a caverna de iniqüidade mais escura tem sua tocha. Não tema; você pode achar seguidores de Jesus dentro do território do Pandemônio. No palácio de Acabe, você encontra um Obadias que se alegra em manter comunhão com santos desprezados, e deixa a assembléia de um monarca pelos esconderijos de ministros perseguidos.
Essas testemunhas de Deus muitas vezes são pessoas convertidas na mocidade. Ele parece deleitar-se em fazer estes seus porta-bandeiras especiais no dia da batalha. Veja Samuel! Quando Israel se aborreceu com a maldade dos filhos de Eli, a criança Samuel ministrava diante do Senhor. Veja Davi! Quando é apenas um pastorzinho, ele acorda os ecos dos montes solitários com seus salmos e o acompanhamento da música de sua harpa. Veja Josias! Quando Israel se revoltou, foi uma criança chamada Josias que quebrou os altares de Baal e queimou os ossos de seus sacerdotes. Daniel era apenas um rapaz quando se postou pela pureza e por Deus. O Senhor tem hoje - não sei onde--um pequeno Lutero no colo de sua mãe, um pequeno Calvino aprendendo na escola dominical, um jovem Zuínglio cantando um hino a Jesus. Esta era pode se tornar cada vez pior; às vezes, creio que se tornará mesmo, porque muitos sinais apontam para isso; mas o Senhor está preparado para ela.
Os dias são turvos e pressagiam o mal; e esse entardecer pode tornar-se cada vez mais escuro e ser uma noite mais negra que nunca; mas a causa de Deus está segura nas mãos de Deus. Seu trabalho não demorará por falta de homens. Não estenda a mão de Uzias para firmar a arca do Senhor; ela passará em segurança no caminho predestinado de Deus. Cristo não falhará nem ficará desanimado. Deus enterra seus servos, mas sua obra continua viva. Se não houver no palácio um rei que honre a Deus, ainda será encontrado ali um governador que desde a mocidade teme ao Senhor, que cuidará dos profetas do Senhor, e os ocultará até que venham dias melhores. Portanto, tenham coragem, e aguardem horas mais felizes. Nada de valor real está em perigo enquanto Jeová está no trono. As reservas do Senhor estão se apresentando, e seus tambores rufam a vitória.

Capítulo 18: Piedade "desde a juventude" em Obadias

Obadias possuiu piedade cedo--"Eu, que sou teu servo, tenho adorado o Senhor desde a minha juventude" (1Re 18.12). Ah, que todas as nossas crianças cheguem à idade adulta, homens e mulheres, e possam falar a mesma coisa! Felizes são as pessoas que estão em tal situação!
Como Obadias veio a temer o Senhor na juventude, nós não podemos saber. O instrutor por meio de quem ele foi levado à fé em Jeová não é mencionado. Contudo, é razoável concluirmos que ele teve pais crentes em Deus. Por menor que possa parecer a prova, acho que é bastante firme quando eu lhes faço lembrar seu nome. Naturalmente, deve lhe ter sido dado pelo seu pai ou sua mãe, e como significa "o servo de Jeová", creio que indicava a piedade de seus pais. Nos dias em que existia perseguição em toda parte contra os fiéis, e o nome de Jeová estava sendo desprezado porque os bezerros de Betel e as imagens de Baal estavam expostos em toda parte, não acho que pais incrédulos teriam dado ao filho o nome que significasse "o servo de Jeová", se eles não sentissem reverência diante do Senhor. Não teriam sem motivo se exposto aos comentários de seus vizinhos idólatras e à inimizade dos grandes. Numa época em que nomes significavam alguma coisa, eles o teriam chamado de "o filho de Baal", ou de "o servo de Camos", ou de qualquer outro nome que expressasse reverência aos deuses populares, se o temor de Deus não estivesse diante de seus olhos. Para mim, a escolha desse nome revela seu desejo sincero de que seu menino pudesse crescer para servir a Jeová, e nunca dobrar os joelhos diante dos detestados ídolos da rainha sidônia. Quer tenha ou não sido assim, é bem certo que milhares dos crentes mais inteligentes devem sua primeira inclinação para a piedade às doces associações do lar. Quantos de nós poderíamos ter tido um nome como o de Obadias; pois nem bem vimos a luz, nossos pais procuraram nos iluminar com a verdade. Fomos consagrados ao serviço de Deus antes de sabermos que existia um Deus. Muita oração comovida e sincera foi feita sobre nossa fronte infantil e selou-nos para o céu; fomos amamentados na atmosfera de devoção; quase nenhum dia passava sem que insistissem conosco para que fôssemos fiéis servos de Deus, e ainda jovens pediam que buscássemos a Jesus e déssemos nosso coração a ele.
Se Obadias não teve pais cheios de graça, não posso lhes dizer como ele veio a ser um crente no Senhor naqueles dias tristes, a não ser que tenha chegado a ter a companhia de algum professor bondoso, alguma ama gentil, ou talvez um bom servo na casa de seu pai, ou quem sabe um vizinho piedoso, que ousou reunir criancinhas à sua volta e contar-lhes sobre o Senhor Deus de Israel. Alguma santa mulher pode ter instilado a lei do Senhor em sua mente juvenil antes que os sacerdotes de Baal pudessem envenená-la com suas mentiras. Nenhuma menção é feita em relação à conversão desse homem em sua juventude, e não faz mal, faz? Você e eu não queremos ser mencionados se nós somos servos de Deus de coração correto.
Essa piedade juvenil de Obadias teve as marcas da sinceridade. O modo como ele a descreveu é bastante instrutivo. "Tenho adorado o Senhor desde a minha juventude." Quase não me lembro em minha vida toda de ter ouvido a piedade de crianças descrita em conversa comum nesses termos, mas é expressão comum nas Escrituras. Nós dizemos: "A criança querida amava a Deus." Falamos delas "ficarem tão felizes" etc., e não questiono se a linguagem está certa; o Espírito Santo fala do "temor do Senhor" como sendo "o princípio da sabedoria"; e Davi diz: "Venham crianças, ouçam-me: eu lhes ensinarei o temor do Senhor." As crianças receberão muita alegria pela sua fé no Senhor Jesus, mas, essa alegria, se é verdadeira, está cheia de reverência humilde e admiração pelo Senhor.
Nem é preciso que eu lhes fale das vantagens da piedade vir cedo. Vou, no entanto, fazer um resumo. Ser crente em Deus cedo na vida é ser salvo de mil arrependimentos. Esse indivíduo nunca precisará dizer que leva nos ossos os pecados de sua mocidade. Desde cedo, a piedade nos ajuda a formar associações importantes para o resto da vida e também nos salva daquelas que são prejudiciais. O moço cristão não cairá nos pecados que são comuns aos homens novos, e não estragará a saúde de seu corpo com excessos. Provavelmente, se casará com uma mulher cristã, e assim terá uma companheira santa em sua marcha em direção ao céu. Escolherá como compa-nheiros aqueles que serão seus amigos na igreja e não no bar; seus ajudantes na virtude, e não seus tentadores no vício. Muita coisa depende de quem escolhemos como companheiros quando começamos a vida. Se começamos em má companhia, é difícil mudar. O homem levado a Cristo cedo na vida tem essa vantagem, ele é ajudado a formar hábitos santos e é salvo de se tornar escravo dos hábitos contrários. Hábitos logo se tornam parte de sua natureza; formar novos é difícil; mas aqueles formados cedo na vida permanecem na velhice. Tem sentido o verso:
É mais fácil começar,
Conforme Cristo disse;
Quem se acostuma a pecar
Não muda na velhice.
Estou certo de que é assim. E mais, noto que, com freqüência, aqueles que são levados a Cristo quando novos crescem na graça mais rapidamente, mais prontamente do que outras pessoas. Não têm tanta coisa para desaprender, e nem têm um peso tão grande de antigas memórias para carregar. Essas pessoas escapam das cicatrizes e feridas abertas que vêm de ter passado anos a serviço de Satã, porque Deus as traz para sua igreja antes de terem andado longe no mundo.
Por isso, recomendamos a piedade cedo na vida. A graça fica mais bonita nos jovens. Aquilo que não seria notado no homem crescido nos chama a atenção imediatamente quando visto numa criança. A graça numa criança tem uma força convincente; o infiel larga a arma e admira. Uma palavra dita por uma criança fica na memória, e sua naturalidade no jeito toca o coração. Quando o sermão do ministro falha, a oração da criança pode obter vitória. E mais, a religião nas crianças sugere encorajamento àqueles de anos mais maduros; pois outros, vendo o pequeno salvo dizem de si para si: "Por que nós também não vamos achar o Senhor?" Com um certo poder secreto isso abre portas fechadas, e dá uma volta na chave na fechadura da descrença. Onde nenhuma outra coisa pode ganhar entrada para a verdade, o amor de uma criança realiza isso. Ainda é verdade: "Da boca de pequeninos e crianças de peito suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres emudecer o inimigo e o vingador" (Sl 8.3).

Capítulo 19: Obadias e Elias

A piedade jovem conduz à piedade perseverante. Obadias pôde dizer: "Tenho adorado o Senhor desde a minha juventude." O tempo não o havia mudado: qualquer que tenha sido sua idade, sua religião não deteriorara. Todos nós gostamos de novidade, e já vi alguns homens caírem no mal, como se fosse por uma mudança. Não se trata de se queimar até a morte no martírio que é a obra dura; tostar-se perto de um fogo lento é um teste de firmeza muito mais terrível. Continuar com graça durante uma longa vida de tentação é ser gracioso de fato. Pois a graça de Deus converter um homem como Paulo, que está cheio de ameaças contra os santos, é uma grande maravilha; mas a graça de Deus preservar um crente por dez, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta anos, é milagre igualmente grande e merece mais de nosso louvor do que geralmente ganha. Obadias não foi afetado pela passagem do tempo; ele foi visto quando velho o que era quando jovem.
Nem foi ele levado pela moda daqueles tempos maus. Ser servo de Jeová era considerado coisa desprezível, antiga, ignorante, coisa do passado; o culto a Baal era o "pensamento moderno" da hora. Toda a corte andava atrás do deus de Sidon, e todos os cortesãos iam pelo mesmo caminho. Meu lorde adorava Baal, e minha dama adorava Baal, porque a rainha adorava Baal; mas Obadias disse: "Tenho adorado o Senhor desde a minha juventude." Bendito é o homem que não se importa com a moda, pois ela passa. Se por um tempo ela se entusiasma pelo erro, o que faz o homem crente senão permanecer firmemente com o certo? Obadias nem era afetado pela ausência dos meios de graça. Os sacerdotes e levitas tinham fugido para Judá, e os profetas foram mortos ou tiveram de se esconder, e não havia culto público de Jeová em Israel. O templo estava lá longe em Jerusalém; portanto, ele não tinha oportunidade de ouvir qualquer coisa que pudesse fortalecê-lo ou incentivá-lo; contudo, mantinha seu curso.
Além disso, havia as dificuldades de sua posição. Ele era mordomo do palácio. Se tivesse agradado Jezabel e adorado Baal, talvez se sentisse mais seguro em sua posição, pois teria patrocínio real; mas estava ali, governador na casa de Acabe, mas temente a Jeová. Deve ter tido que caminhar muito delicadamente, e vigiar bem suas palavras. Imagino que ele tenha se tornado uma pessoa muito cautelosa, e que tivesse um pouco de medo mesmo de Elias, esperando que não lhe desse uma ordem que pudesse levar à sua destruição. Tornou-se extremamente prudente, e olhava as coisas em volta para nem comprometer sua consciência nem pôr em perigo sua posição.
É preciso ser um homem notavelmente sábio para fazer isso, mas aquele que pode fazê-lo deve ser louvado. Ele não fugiu de sua posição, nem retrocedeu de sua religião. Se tivesse sido forçado a fazer coisa errada, tenho certeza de que teria imitado os sacerdotes e levitas, e fugido para Judá, onde o culto a Jeová continuava; mas sentiu que, sem ceder à idolatria, podia fazer algo a favor de Deus em sua posição avantajada, e assim se determinou a ficar e a lutar até o fim.
Quando não há esperança de vitória, você pode resolver se retirar; mas é um bravo homem aquele que, quando a corneta soa o toque de retirada, não o ouve, que põe seu olho cego à luneta e não pode ver o sinal de cessar fogo, mas segura sua posição contra todas as probabilidades, e causa todo o prejuízo possível ao inimigo. Obadias foi um homem que na verdade "segurou o forte", pois sentiu que quando todos os profetas estavam condenados por Jezabel, era papel dele ficar perto da tigre fêmea e salvar a vida de pelo menos cem servos de Deus do poder cruel dela. Se não pudesse fazer mais, com isso já não teria vivido em vão. Admiro o homem cujo poder decisivo é igual à sua prudência, embora eu tivesse temido muito ocupar um lugar tão perigoso. O caminho que seguia era equivalente a andar na corda bamba com Blondim.
Eu mesmo não gostaria de tentar isso, nem recomendo que alguém tente um feito tão difícil. O papel de Elias é muito mais seguro e grandioso. O curso do profeta era simples; não tinha de agradar, e sim de reprovar Acabe; e não tinha que ser cauteloso, mas agir de um modo ousado e forte pelo Deus de Israel. Quanto parece ser o homem mais importante quando os dois estão de pé juntos diante de todos nós. Obadias cai com o rosto na terra e o chama "Meu senhor Elias"; e estava certo, porque era seu inferior. Mas eu preciso não cair moralmente na veia de Elias para que não precise deter-me com uma parada brusca. Foi um grande feito Obadias poder gerenciar a casa de Acabe com Jezabel nela, e mesmo assim, com tudo isso, ganhar essa comenda do Espírito de Deus, que ele temia ao Senhor grandemente.
Ele perseverou, também, não se opondo ao seu sucesso na vida; e isso é crédito dele. Nada há mais perigoso para um homem do que prosperar neste mundo, e tornar-se rico e respeitável. Naturalmente, nós o desejamos, lutamos por isso; mas quantos que, ao ganhar, têm perdido tudo, quanto à riqueza espiritual! Antes, o homem amava o povo de Deus, e agora diz: "São uma classe vulgar de pessoas." Conquanto pudesse ouvir o evangelho, ele não se importava com a arquitetura do prédio da igreja; mas agora que se tornou crítico de arte, precisa ter uma torre, arquitetura gótica, um púlpito de mármore, trajes sacerdotais, um belo jardim, e toda sorte de coisas bonitas. À medida que encheu o bolso, esvaziou o coração. Ficou longe da verdade e dos princípios ao prosperar quanto aos bens materiais. É um negócio ruim, que em certo tempo ele teria sido o primeiro a condenar. Não há nobreza nessa conduta; é covarde até o último grau.
Deus nos salve dessa situação; mas muitas pessoas não são salvas dela. Sua religião não é matéria de princípios, mas matéria de interesses: não é a busca da verdade, mas uma ansiedade por alta sociedade, seja isso o que for; não é seu objetivo glorificar a Deus, mas obter maridos ricos para as filhas; não é a consciência que os guia, mas a esperança de poder convidar um nobre cavaleiro para jantar com eles, e poder comer na mansão dele depois. Não pense que é sarcasmo meu: falo com tristeza de coisas que deixam a pessoa envergonhada. Ouço falar delas diariamente, embora não me afetem pessoalmente. Vivemos uma época de maldades disfarçadas sob a noção de respeitabilidade. Deus nos envie homens do calibre de John Knox, ou, se preferir, do metal inquebrável de Elias; e se esses provarem ser muito duros e sérios podemos nos contentar com homens como Obadias. É possível que estes sejam mais difíceis de produzir do que os Elias: mas com Deus, todas as coisas são possíveis.
Obadias, com sua graça precoce e decisão perseverante, tornou-se um homem de piedade eminente, e isso é mais admirável considerando o que ele era e onde estava. Piedade eminente em um lorde da corte de Acabe! Essa é mesmo uma maravilha da graça. A religião desse homem era intensa dentro dele. Se ele não fazia o uso aberto dela que Elias fazia, é que não tinha sido chamado para tal carreira, mas ela residia fundo em sua alma, e os outros sabiam disso. Jezabel o sabia, sem dúvida nenhuma. Ela não gostava dele, mas precisava suportá-lo; olhava-o de lado, mas não podia desalojá-lo. Acabe aprendera a confiar nele e não podia passar sem ele, pois provavelmente lhe fornecia um pouco de força de mente. É possível que Acabe gostasse de segurá-lo só para mostrar a Jezabel que ele podia ser teimoso se quisesse, e ainda era um homem.
Qualquer que seja a explicação, é fora do comum que no centro da rebelião contra Deus houvesse alguém cuja devoção a Deus fosse intensa. Como é horrível achar um Judas entre os apóstolos, assim é grandioso descobrir um Obadias entre os cortesãos de Acabe. Que grande graça deve ter estado em operação para manter um fogo desse no meio do mar, tal piedade no meio da mais vil iniqüidade!
A religião de sua juventude tornou-se para Obadias uma piedade confortável depois. Quando ele pensou que Elias estava para expô-lo a grande perigo, pleiteou seu longo tempo de serviço prestado a Deus, dizendo "temo ao Senhor desde a minha mocidade"; assim como Davi, quando ficou velho, disse: "Desde a minha juventude, ó Deus, tens me ensinado, e até hoje eu anuncio as tuas maravilhas. Agora que estou velho, de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus" (Sl 71.17-18a). Será um grande consolo para as pessoas, quando idosas, olharem para uma vida que foi passada no serviço de Deus. Você não confiará nela, não achará que tem mérito; mas bendirá a Deus por ela. Um servo que esteve com seu mestre desde a mocidade não deve ser dispensado da casa quando se torna grisalho. Um mestre correto respeita a pessoa que o serviu muito tempo e bem. Suponha que você tenha tido uma ama que cuidou de você quando era criança, seria capaz de colocá-la na rua quando ela não pudesse mais fazer o seu trabalho? Não, você faria o que pudesse por ela; se pudesse, não a deixaria viver num asilo. Ora, o Senhor é muito mais bondoso e gracioso do que nós, e ele nunca deixará seus velhos servos desamparados.

Capítulo 20: Alguma coisa boa de Abias (1) (1Reis 14.13)

Jeroboão provou ser falso para com o Senhor que o havia colocado no trono de Israel, e o tempo de ser derrubado do trono tinha chegado. O Senhor, que geralmente mostra a vara antes de levantar o machado, mandou doença para a casa dele: Seu filho, Abias, caiu doente. Então, os pais se lembraram de um velho profeta de Deus, e desejaram saber dele o que aconteceria com a criança. Temendo que o profeta denunciasse pragas sobre ele e seu filho se soubesse que quem perguntava era a esposa de Jeroboão, o rei implorou à princesa egípcia com quem ele se casara que se disfarçasse de esposa de fazendeiro e, assim, conseguisse do homem de Deus uma resposta mais favorável. Pobre rei tolo, imaginar que um profeta que podia enxergar o futuro não poderia também ver através de qualquer disfarce com o qual sua rainha pudesse se cercar! Tão ansiosa estava a mãe para saber a sorte de seu filho, que ela saiu do quarto do menino doente para ir a Siló ouvir a sentença do profeta. Foi em vão o seu disfarce! O profeta cego ainda era um vidente, e não só a discerniu antes que entrasse na casa, como viu o futuro de sua família. Ela chegou cheia de superstição para saber sua sorte, mas saiu com o peso da tristeza, tendo ouvido seus defeitos e seu fim.
Nas terríveis novas que o profeta Aías transmitiu a essa esposa de Jeroboão havia só um ponto de luz, só uma palavra de consolo; e parece não ter consolado à rainha pagã. A criança misericordiosamente estava marcada para morrer, "pois é o único da família de Jeroboão em quem o Senhor, o Deus de Israel, encontrou alguma coisa boa" (1Re 14.13).
Vamos olhar o pouco que sabemos do jovem príncipe, Abias. Seu nome era apropriado. Um bom nome pode pertencer a um homem bem mau; mas, neste caso, um nome gracioso foi bem empregado. Ele chamava Deus de seu Pai, e seu nome quer dizer isso. Ab é a palavra para Pai, e Jah é Jeová--Jeová era seu Pai. Eu não teria mencionado o nome não tivesse sua vida tornado isso verdade. Ah, vocês que têm bons nomes bíblicos, tratem de não desonrá-los!
Havia nessa criança "alguma coisa boa para com o Senhor Deus de Israel"; mas o que era? Quem o definirá? Um campo ilimitado de suposições se abre diante de nós. Sabemos que havia nele algo bom, mas que forma esse bem tomou não sabemos. A tradição já fez afirmações, mas como são meras invenções para preencher lacunas, nem vale a pena mencioná-las. É provável que nossas reflexões se aproximem tanto dessas evidências como essas tradições improváveis. Poderemos aprender muito com o silêncio das Escrituras: não nos dizem precisamente qual era a coisa boa, porque qualquer coisa boa para com o Senhor é um sinal suficiente de graça. Embora a da criança não seja mencionada, acreditamos que ela tinha fé no Deus vivo, visto que sem isso nada nele teria agradado a Deus; pois "sem fé é impossível agradar a Deus". Ele era uma criança crente em Jeová, o Deus de Israel: talvez sua mãe tivesse deixado que ele mesmo pedisse para procurar o profeta do Senhor. Muitos falsos profetas estavam por ali no palácio: seu pai poderia não ter mandado ninguém a Siló, se o menino não tivesse pedido. O menino acreditava no grande Deus invisível que fez os céus e a terra, e ele o adorava em fé.
Não me surpreenderia, porém, se, naquela criança, seu amor fosse mais aparente do que sua fé; porque crianças convertidas na maioria das vezes falam em amar Cristo mais do que de confiar nele: não porque não tenham fé interior, mas porque a emoção do amor é mais compatível com a natureza da criança do que o ato mais intelectual da fé. O coração da criança é bem grande, e o amor, portanto, torna-se seu fruto mais notado. Não duvido que essa criança tenha mostrado uma afeição desde cedo para com o Jeová não visto, e uma aversão pelos ídolos da corte do pai. Possivelmente, tenha demonstrado horror do culto de Deus sob a figura de um bezerro. Até uma criança seria capaz de entender que devia ser errado igualar o grande e glorioso Deus a um animal com chifres e patas. Talvez a natureza aguçada da criança também achasse repugnantes aqueles sacerdotes baixos, dos confins da Terra, que seu pai tinha reunido. Não sabemos exatamente a forma que assumiu, mas havia "alguma coisa boa" no coração da criança para com Jeová, Deus de Israel.
Não se tratava apenas de uma boa inclinação que havia nele, nem um bom desejo, mas sim uma virtude substancial, realmente boa. Havia nele uma verdadeira e substancial existência de graça, e isso vai muito além de um desejo passageiro. Qual a criança que nunca, em uma ou outra ocasião, se foi treinada no temor do Senhor, sentiu tremores de coração e aspirações em direção a Deus? Essa qualidade é tão comum como o orvalho da manhã; mas, ai!, também acaba tão depressa como o orvalho. O jovem Abias possuía algo em seu interior suficientemente real e substancial para isso ser chamado de uma "boa coisa"; o Espírito de Deus operara uma obra segura nele, e deixara nele uma jóia valiosa de graça. Admiremos esta coisa boa, embora não possamos descrevê-la com precisão.
Admiremos, também, que esta "coisa boa" estivesse no coração da criança, porque sua entrada é desconhecida. Não podemos dizer como a graça penetrou no palácio de Tirza e ganhou esse coração juvenil. Deus viu a coisa boa, pois ele vê as menores coisas boas em nós, visto que tem um olho rápido para perceber qualquer coisa que se volta para sua direção. Mas como essa obra preciosa chegou à criança? Não nos é dito, e esse silêncio é uma lição para nós. Não é essencial sabermos como uma criança recebe graça. Não precisamos ficar ansiosos para saber quando, onde ou como uma criança é convertida; pode ser até impossível saber, pois o ato pode ter sido tão gradual que não se possa conhecer o dia e a hora. Mesmo aqueles que são convertidos em anos mais maduros não podem descrever sua conversão em detalhe, muito menos podemos manear a experiência de crianças que nunca entraram em pecado externo, mas que o comedimento de uma educação piedosa tem observado os mandamentos desde a sua mocidade, como o jovem da narrativa no evangelho.
Como foi que essa criança passou a ter essa "coisa boa" em seu coração? Até aqui sabemos: estamos certos de que Deus a colocou ali; mas por meio de quê? A criança, com toda probabilidade, não ouviu os ensinamentos dos profetas de Deus; ele nunca foi levado, como o menino Samuel, para a casa do Senhor. Sua mãe era uma princesa idólatra, seu pai estava entre os piores dos homens, e mesmo assim a graça de Deus alcançou seu filho. Será que o Espírito do Senhor operou no seu coração através de seus próprios pensamentos? Teria ele pensado no assunto, e chegado à conclusão de que Deus era Deus, e que ele não precisava adorá-lo como seu pai o adorava, sob a imagem de um bezerro? Até uma criança podia ver isso. Será que algum hino a Jeová foi cantado embaixo do palácio por algum adorador solitário? Tinha a criança visto seu pai naquele dia em que ele ergueu a mão contra o profeta de Jeová no altar de Betel, onde de repente sua mão direita se encolheu ao seu lado? Será que as lágrimas apareceram nos olhos do menino quando viu seu pai assim paralisado no braço de sua força? E será que riu de pura alegria de coração quando pela oração do profeta seu pai ficou bom de novo? Aquele grande milagre de misericórdia fez com que ele amasse o Deus de Israel? Será mera imaginação pensar que isso pode ter acontecido? Uma mão direita mirrada num pai, e esse pai um rei, é uma coisa que é quase certo a criança ter ouvido contar, e se foi restaurada pela oração, a admiração naturalmente encheu o palácio, e era assunto para todos, e o príncipe o ouviria.
Ou será que essa criança pequena teve uma ama piedosa? E se alguma menina como aquela que servia a esposa de Naamã foi a mensageira de amor para ele? Carregando-o para lá e para cá, a babá cantava para ele um dos cânticos de Sião, e lhe contava sobre José e Samuel? Israel não tinha deixado seu Deus há tanto tempo que estivesse sem muitos seguidores fiéis do Deus de Abraão, e talvez por intermédio de um deles suficiente conhecimento tenha sido transmitido à criança para se tornar o meio de passar o amor de Deus à alma dele. Podemos supor, mas não podemos falar que temos certeza, de que tenha sido assim, nem há necessidade disso. Se o sol se levanta, faz pouca diferença quando o dia amanheceu. Que nós, quando vemos nas crianças alguma coisa boa, ficamos contentes com essa verdade, mesmo quando não conseguimos dizer como isso aconteceu. Ao amor eletivo de Deus, nunca faltam meios para desempenhar seu propósito: Ele pode mandar sua graça eficaz para o cerne da família de Jeroboão, e enquanto o pai está prostrado diante de seus ídolos, o Senhor pode achar um verdadeiro adorador para si no filho do próprio rei. "Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por causa dos teus adversários." Teus passos nem sempre são vistos, ó, Deus da graça, mas nós aprendemos a adorar-te em tua obra, mesmo quando não discernimos teu caminho.
Essa "boa coisa" é descrita até certo ponto. Foi uma "coisa boa para Jeová, o Deus de Israel". A coisa boa olhava para o Deus vivo. Nas crianças muitas vezes se encontram coisas boas com respeito aos seus pais: que estas sejam cultivadas - mas não são evidências suficientes de graça. Nas crianças, às vezes, serão encontradas coisas boas no que diz respeito à amabilidade e excelência moral: que todas as coisas boas sejam louvadas e nutridas, mas não são frutos seguros de graça. É em relação a Deus que a coisa boa deve estar para que possa salvar a alma. Lembre-se de como lemos no Novo Testamento sobre o arrependimento no que diz respeito a Deus e sobre a fé em nosso Senhor Jesus Cristo. Como a face da coisa boa se revela é um ponto principal a seu respeito. Há vida em um olhar. Se um homem está viajando para longe de Deus, cada passo que ele dá amplia a distância; mas se seu rosto estiver voltado para o Senhor, ele pode ser apenas capaz do passo cambaleante da criancinha, mas mesmo assim ele está se aproximando mais e mais a cada momento. Havia algo de bom nessa criança em relação a Deus, e esta é a marca mais distinta de uma coisa realmente boa. A criança tinha amor, e havia nela amor para com Jeová. Tinha fé, mas era fé em Jeová. Seu temor religioso era o temor do Deus vivo; seus pensamentos infantis, desejos, orações e hinos diziam respeito ao verdadeiro Deus. É isso que desejamos ver não só em crianças, mas em adultos; desejamos ver seus corações voltados para o Senhor, com a mente e as vontades movendo-se em direção ao Altíssimo.
Nessa querida criança, aquela "coisa boa" criou um caráter exterior tal que ela se tornou muito amada. Estamos certos disso, porque foi dito que "todo o Israel chorou por ele" (1Re 14.18). Ele era provavelmente o herdeiro à coroa de seu pai, e havia corações piedosos em Israel que esperavam ver tempos de reforma quando aquele jovem chegasse ao trono; e talvez mesmo aqueles que não se importavam com religião, mas de algum modo tinham marcado o jovem e observado sua entrada e saída diante deles, teriam dito: "Ele é a esperança de Israel; ainda haverá melhores dias quando aquele menino se tornar homem"; de modo que, quando Abias morreu, só ele de toda sua raça recebeu tanto lágrimas quanto uma sepultura; morreu lamentado, e foi enterrado com respeito, enquanto todos os restantes da casa de Jeroboão foram devorados por cães e abutres.
É uma grande benção quando há uma coisa tão boa em nossos filhos que eles venham a ser queridos em suas esferas. Eles não têm todo o raio de influência que esse jovem príncipe gozava de modo a ter admiração universal; mas, ainda assim, a graça de Deus numa criança é uma coisa muito bela, e atrai aprovação geral. A piedade juvenil é coisa muito tocante para mim; eu vejo a graça de Deus em homens e mulheres com muita gratidão, mas não consigo percebê-la em crianças sem chorar de alegria. Há uma grande beleza nesses botões de rosa do jardim do Senhor; eles têm uma fragrância que não encontramos nos lírios mais lindos. Ganha-se o amor para o Senhor Jesus em muitos corações com essas pequeninas setas do Senhor, das quais a própria pequenez é parte de seu poder de penetrar o coração. Os ímpios podem não amar a graça que está nas crianças, mas visto que amam as crianças nas quais essa graça é encontrada, não conseguem mais falar contra a religião como fariam de outro modo. Sim, e mais, o Espírito Santo usa essas crianças para fins mais elevados ainda, e aqueles que as vêem muitas vezes ficam marcadas com desejos de coisas melhores.

Capítulo 21: Alguma coisa boa de Abias (2)

Ele não usava o filactério largo, mas tinha um espírito manso e quieto. Pode não ter sido grande orador, senão talvez se dissesse dele: "Ele falou coisas boas a respeito do Deus de Israel"; ele pode ter sido um garoto tímido, reservado, quase silencioso, mas a boa coisa estava "nele". E este é o tipo de coisa que desejamos para cada um de nossos amigos, uma obra de graça interior. O ponto importante não é usar a vestimenta, nem usar a fala da religião, mas possuir a vida de Deus dentro de si, e sentir e pensar como Jesus faria por causa dessa vida interior. Pequeno é o valor exterior a não ser que seja o resultado de uma vida interior. A graça verdadeira não é como uma roupa, que pode ser vestida e tirada; mas é uma parte integral da pessoa que a possui. A piedade dessa criança era do tipo verdadeiro, pessoal, interior: possam todas as nossas crianças possuir alguma coisa boa!
Disseram-nos que essa boa coisa "foi encontrada" nela: isso significa que era bem visível, pois a expressão "encontrada" é usada mesmo quando não significa uma grande busca. O Senhor não diz mesmo: "Fui achado por aqueles que não me procuravam" (Rm 10.20)? A piedade zelosa do tipo infantil logo se revela; em geral, uma criança é bem menos reservada nas palavras do que um homem; seus lábios não ficam imóveis por prudência reservada, ao contrário, revelam o coração. Piedade numa criança aparece mesmo na aparência, de modo que pessoas que chegam à casa como visitantes ficam surpresos com as afirmações naturais que revelam o pequeno cristão. Muitas pessoas em Tirza não tinham como não saber que essa criança tinha alguma coisa boa em relação a Jeová. Podiam não se preocupar em entender isso, podiam esperar que isso fosse oprimido na criança pelo exemplo da corte à sua volta, mesmo assim sabiam que estava lá, fizeram essa descoberta sem dificuldade.
Contudo, a expressão tem outro sentido: sugere que quando Deus, o examinador rigoroso, que prova as rédeas dos filhos dos homens, visitou essa criança, ele encontrou nela algo para louvor e glória: "alguma coisa boa" foi descoberta nela por aqueles olhos que não podem ser enganados. Nem tudo que reluz é ouro, mas o que estava nessa criança era o metal genuíno. Ah, que isso possa ser verdade sobre cada um de nós quando formos testados como pelo fogo! Pode ser que o pai do menino estivesse zangado com ele por servir a Jeová, mas qualquer que tenha sido sua tribulação, ele saiu dela incólume.
Para mim, a expressão sugere surpresa. Como essa boa coisa entrou na criança? "Nela foi encontrado alguma coisa boa"--como quando um homem encontra um tesouro num campo. O fazendeiro não pensava em nada senão em seus bois, suas terras e sua colheita, quando de repente o arado deixou à vista um tesouro escondido: ele o achou onde estava, mas não podia saber como esse tesouro chegou até ali. Assim, nessa criança, colocada em posição nada vantajosa, para surpresa de todos, ali se encontrou alguma coisa boa para com o Senhor Deus de Israel. Sua conversão está velada em mistério. Não nos contaram como era a graça em seu coração, nem de onde veio, nem que ações especiais produzia, mas ali estava, encontrada onde ninguém a esperava. Creio que esse caso é típico de muitas das crianças eleitas a quem Deus chama por sua graça nas praças e vielas das grandes cidades. Não pense em anotar a experiência delas, seus sentimentos e sua vida, e somar tudo; não espere saber datas e meios especificamente, mas você precisa aceitar a criança assim como temos de aceitar Abias, alegrando-nos em achar nela uma pequena maravilha de graça com o selo do próprio Deus sobre ela. O velho profeta, em nome do Senhor, atestou o jovem príncipe como um seguidor do Altíssimo de coração puro; e do mesmo modo o Senhor coloca sua marca de graça atestando as crianças regeneradas, e devemos ficar contentes com isso, mesmo que faltem algumas outras coisas. Vamos receber com alegria essas obras do Espírito Santo que nós nem sabemos descrever com precisão.
Tudo o que se diz sobre este caso é que nele havia "alguma coisa boa"; e isso deve ser compreendido como se a obra divina fosse apenas uma centelha de graça, o início da vida espiritual. Não havia nada muito marcante nele, ou seria mencionado com mais clareza. Ele não era um seguidor heróico de Jeová, e seus feitos de lealdade a Deus não estão escritos, porque por razão de seus tenros anos ele não teve nem poder nem oportunidade para fazer muita coisa que pudesse ser escrita. À medida que compreendemos que nele havia "alguma coisa boa", subentende-se que não era uma coisa perfeita, e que não era acompanhada de todas as coisas boas que se pudesse desejar. Faltavam muitas coisas boas, mas "alguma coisa boa" se manifestou, e, portanto, a criança foi aceita e, por amor divino, salva de uma morte ignóbil.
Somos capazes de passar sem ver "alguma coisa boa" numa casa má. Esta foi a maior maravilha de tudo, o fato de haver uma criança graciosa no palácio de Jeroboão. A mãe geralmente domina a casa, mas a rainha era uma princesa do Egito e uma idólatra. Um pai tem grande influência, mas, neste caso, Jeroboão pecou e fez a nação de Israel pecar, mas não pôde fazer seu filho pecar. Toda a Terra sente a influência pestilenta de Jeroboão, contudo, perto de seus pés há um espaço belo que a graça soberana salvou da praga; seu primogênito, que normalmente imitaria seu pai, é o contrário dele--ali estava o herdeiro de Jeroboão, "alguma coisa boa em relação a Jeová, Deus de Israel". Em tal lugar nós não procuramos por graça, e somos capazes de passar sem vê-la. Se você for às praças de nossas grandes cidades, que são magníficas, você verá que fervilham de crianças dos pobres, você não espera encontrar graça onde o pecado existe em abundância. Nos recantos e vielas das grandes cidades, ouvimos blasfêmia e vemos viciados por todo lado, mas nem por isso devemos concluir que ali não há uma criança de Deus; não devemos dizer: "O amor eleitor de Deus nunca caiu sobre qualquer uma dessas crianças". Como podemos saber? Uma dessas criancinhas vestidas pobremente, brincando em cima de uma pilha de pó, pode ter encontrado Cristo por aí, e pode estar destinada a um lugar à mão direita de Cristo. Preciosa é esta jóia, embora fundida no meio dessas pedrinhas. Brilhante é aquele diamante, embora se ache em cima do monturo. Se na criança há "alguma coisa boa em relação ao Senhor Deus de Israel", ela deve assim mesmo ser valorizada porque seu pai é um ladrão e sua mãe bebe demais. Nunca despreze a criança mais maltrapilha.
Na Irlanda, um ministro, que estava pastoreando uma pequena congregação protestante, notou por vários domingos, em pé no corredor perto da porta, um menino muito maltrapilho, que escutava o sermão com avidez. Ele desejava saber quem era o menino, mas o garoto sempre desaparecia logo que o sermão terminava. Ele pediu a um ou dois amigos que vigiassem, mas de alguma forma o garoto sempre escapava, e não podia ser descoberto. Um Domingo, o pastor pregou um sermão que dizia: "Sua própria mão direita e seu braço santo lhe conseguiram a vitória", e depois desse dia sentiu falta do menino. Seis semanas se passaram, e a criança não veio mais, mas um homem desceu das montanhas e rogou ao ministro que fosse ver seu menino, que estava morrendo. Ele vivia num casebre muito pobre. Andaram seis quilômetros na chuva, por terra encharcada e sobre morros, e o ministro chegou à porta do casebre. Ao entrar, o pobre garoto que estava sentado na cama viu o pregador; ele agitou seu braço e exclamou alto: "Sua própria mão direita e seu braço santo lhe conseguiram a vitória". Foi sua última exclamação, seu brado final de triunfo. Quem sabe se não há muitos e muitos casos em que a mão direita do Senhor e seu braço santo lhe conseguiram a vitória, a despeito da pobreza, do pecado e da ignorância que podem ter rodeado o jovem convertido? Então, não desprezemos a graça, onde quer que seja, mas valorizemos com vontade aquilo que facilmente somos capazes deixar passar sem que percebamos.
Nós não podemos entender que as crianças queridas que amam a Deus possam muitas vezes ser chamadas a sofrer. Dizemos: "Ora, se fosse meu filho, eu o curaria e tiraria os sofrimentos dele imediatamente." Mas o Pai Todo-Poderoso permite que seus queridos sofram. A criança piedosa de Jeroboão está prostrada pela doença, e seu pai ímpio não está doente, e sua mãe não está doente; podíamos quase desejar que estivessem, para que fizessem menos maldade. Só um piedoso na família, e ele doente! Por que isso aconteceu? Por que é assim em outros casos? Você pode encontrar um menino cheio de graça que é aleijado, uma menina com a mente voltada ao céu que é tuberculosa: muitas vezes, verá a mão pesada de Deus descansando onde seu amor eterno fixou sua escolha. Há um sentido em tudo isso, e nós conhecemos um pouco disso; e se nada soubéssemos, mesmo assim creríamos na bondade do Senhor. O filho de Jeroboão era como o figo do sicômoro, que não amadurece até que seja machucado: pela sua doença, ele amadureceu rapidamente para a glória. Também, foi pelo bem de seu pai e de sua mãe que ele estava doente. Se estivessem dispostos a aprender pela tristeza, isso poderia ter abençoado muito a eles. Pelo menos os impulsionou a irem ao profeta de Deus. Ah, se pelo menos o impulso os tivesse levado ao próprio Deus! Já aconteceu de uma criança enferma conduzir parentes cegos ao Salvador, e com isso os olhos deles foram abertos.
Há algo ainda mais notável: algumas das crianças mais queridas de Deus morrem ainda novos. Eu teria dito: que Jeroboão morra e sua esposa também, mas que a criança seja poupada. Sim, mas a criança precisa ir; ela é a mais capacitada. Sua partida teve o propósito de atribuir glória à graça de Deus por salvar essa criança, e assim aperfeiçoá-la. Seria a recompensa da graça, pois a criança foi tirada do mal que viria; era para morrer em paz e ser sepultada, enquanto o resto de sua família enfrentaria a morte pela espada e seria entregue aos chacais e aos abutres para serem rasgados em pedaços. No caso desta criança, sua morte precoce foi uma prova de graça. Se alguém disser que crianças convertidas não devem ser recebidas na igreja, eu responderei: como é que o Senhor leva tantos delas para o céu? O Senhor, em misericórdia infinita, muitas vezes leva as crianças para si, e as salva das tribulações de uma longa vida e da tentação, não só porque há graça nelas, mas há muito mais graça do que o normal, que não é necessário demorar; já estão maduras para a colheita. É maravilhoso ver que uma grande graça pode habitar o coração de um menino: a piedade infantil não é de modo algum de um tipo inferior, e por vezes está madura para o céu.

Capítulo 22: O filho da mulher sunamita (1)

O profeta Eliseu realizou um milagre muito instrutivo, conforme registrado no Livro de Reis. A hospitalidade da mulher sunamita havia sido recompensada com a dádiva de um menino; mas, todas as misericórdias terrestres são de posse incerta, e depois de certo tempo a criança adoeceu e morreu.
A mãe aflita, mas crente, foi imediatamente ter com o homem de Deus; por meio dele é que Deus tinha transmitido a promessa que satisfez o desejo de seu coração, e ela resolveu declarar a ele o seu caso, para que ele o pudesse expor diante de seu Mestre Divino, e obter para ela uma resposta de paz. A ação de Eliseu está registrada nos seguintes versículos:
Então Eliseu disse a Geazi: "Ponha a capa por dentro do cinto, pegue o meu cajado e corra. Se você encontrar alguém, não o cumprimente e, se alguém o cumprimentar, não responda. Quando lá chegar, ponha o meu cajado sobre o rosto do menino". Mas a mãe do menino disse: "Juro pelo nome do Senhor e por tua vida que, se ficares, não irei." Então ele foi com ela. Geazi chegou primeiro e pôs o cajado sobre o rosto do menino, mas ele não falou nem reagiu. Então Geazi voltou para encontrar-se com Eliseu e lhe disse: "O menino não voltou a si." Quando Eliseu chegou à casa, lá estava o menino, morto, estendido na cama. Ele entrou, fechou a porta e orou ao Senhor. Depois deitou-se sobre o menino, boca a boca, olhos com olhos, mãos com mãos. Enquanto se debruçava sobre ele, o corpo do menino foi se aquecendo. Eliseu levantou-se e começou a andar pelo quarto; depois subiu na cama e debruçou-se mais uma vez sobre ele. O menino espirrou sete vezes e abriu os olhos. Eliseu chamou Geazi e o mandou chamar a sunamita. E ele obedeceu. Quando ele chegou, Eliseu disse: "Pegue seu filho." Ela entrou, prostrou-se a seus pés, curvando-se até o chão. Então pegou o filho e saiu. (2R 4.29-37).
Eliseu teve de se haver com uma criança morta. É verdade que, neste caso, foi uma morte natural; mas a morte com a qual você tem de entrar em contato não é uma morte menos real por ser espiritual. Meninos e meninas estão, tão certamente como adultos, "mortos em delitos e pecados". Ninguém deve deixar de perceber plenamente o estado no qual todos os seres humanos se encontram por natureza. A não ser que você tenha uma clara percepção da ruína total e da morte espiritual das crianças, você será incapaz de se tornar uma bênção para elas. Vá ao encontro delas, eu lhe rogo, não como pessoas que dormem e que você pelo seu próprio poder pode acordar de seu sono, mas, sim, como defuntos espirituais que só podem ser despertados para a vida por um poder divino. Eliseu visava nada menos do que a restauração da criança para a vida. Que você nunca se contente com benefícios secundários, ou mesmo em consegui-los; que lute pelo maior de todos os propósitos, a salvação de almas imortais. Sua tarefa não é meramente ensinar crianças a ler a Bíblia, não é simplesmente inculcar os deveres da moralidade, nem mesmo de instruí-las nas letras da Bíblia, mas sua alta vocação é ser o meio, nas mãos de Deus, de levar vida do céu a almas mortas.
Ressurreição, portanto, é nosso objetivo! Levantar os mortos é nossa missão. Como realizar um trabalho tão surpreendente? Se cedermos à descrença, ficaremos confusos pelo fato evidente de que o trabalho para o qual o Senhor nos chamou está bem além de nosso próprio poder pessoal. Não podemos levantar os mortos. No entanto, não somos mais impotentes do que Eliseu, porque ele, por si mesmo, não podia restaurar o filho da sunamita. Esse fato precisa nos desanimar? Em vez disso, ele não nos dirige ao nosso verdadeiro poder ao nos cortar nosso poder imaginado? Acredito que todos nós já sabemos que o homem que vive na fé habita a esfera dos milagres.
Eliseu não era um homem comum agora que o Espírito de Deus estava sobre ele, chamando-o para a obra de Deus, e ajudando-o a realizá-la. E você, professor de oração devotado, ansioso, não continue mais sendo um ser comum; você já se tornou, de maneira especial, o templo do Espírito Santo. Deus habita em você, e, pela fé, você entrou na carreira de um operador de milagres. Você foi enviado ao mundo não para fazer as coisas que são possíveis aos homens, mas para aquelas impossibilidades que Deus opera pelo Espírito dele, por meio de seu povo crente. Você deve operar milagres e fazer maravilhas. Você não deve, portanto, olhar a restauração dessas crianças mortas, que em nome de Deus você é chamado para reavivar, como sendo coisa pouco provável ou difícil quando você se lembra quem é que trabalha através de sua fraca instrumentalidade.
Teria sido bom se Eliseu tivesse recordado que ele antes foi servo de Elias, e se tivesse, assim, estudado o exemplo de seu mestre de forma a imitá-lo. Se tivesse, ele não teria mandado Geazi com um cajado, mas teria feito imediatamente o que foi constrangido a fazer. Em 1Reis 17, você encontrará a história de Elias levantando uma criança morta, e verá ali que Elias, o mestre, tinha deixado um exemplo completo para seu servo; e foi só quando Eliseu o seguiu em todos os aspectos que o poder miraculoso se manifestou. Teria sido prudente, penso eu, se Eliseu tivesse imitado logo o exemplo do mestre cujo manto ele vestia.
Com mais vigor, eu lhe digo que tudo ficará bem se, como professores, imitarmos os modos e métodos de nosso Mestre glorificado, e aprendermos aos seus pés a arte de ganhar almas. Assim como ele veio com a maior solidariedade ao contato mais íntimo com nossa humanidade sofrida, e condescendeu abaixar-se à nossa condição triste, assim precisamos chegar bem perto das almas com as quais temos de nos ocupar, sensibilizarmo-nos com elas com o desejo amoroso dele, e chorar por elas com as lágrimas do Mestre, se nós as queremos ver livres do estado de pecado. Só imitando o espírito e a maneira do Senhor Jesus é que nós nos tornaremos sábios para ganhar almas.
Temo que muitas vezes a verdade que nós libertamos nos seja alheia; como um cajado que seguramos em nossa mão, mas que não é parte de nós mesmos. Levamos verdade doutrinária e prática, como Geazi fez com o cajado, e a deitamos sobre a face da criança, mas nós mesmos não agonizamos em favor de sua alma. Tentamos essa doutrina e aquela verdade, essa história e a outra ilustração, esse modo de ensinar uma lição e aquele modo de apresentar uma mensagem; mas enquanto a verdade que nós libertamos for um assunto alheio a nós e desligada de nosso ser íntimo, ela não terá mais efeito sobre uma alma morta do que o cajado de Eliseu teve sobre a criança morta. Não sabemos ao certo se Geazi estava convencido de que a criança estava realmente morta; ele falou como se estivesse apenas dormindo e precisasse ser acordada. Deus não abençoará esses professores que não compreendem, no coração o estado realmente caído de suas crianças. Se você acha que a criança não está realmente corrompida, se você favorece idéias tolas sobre a inocência da infância e a dignidade da natureza humana, não deve ficar surpreso se permanecer estéril e infrutífero.
Observe cuidadosamente o que Eliseu fez quando foi frustrado em seu primeiro esforço. Quando falhamos em uma tentativa, nem por isso devemos desistir de nosso trabalho. Se você não tem tido sucessos até agora, não deve inferir daí que não é chamado para o trabalho, não mais do que Eliseu poderia ter concluído que a criança não podia ser restaurada. A lição de sua falta de sucesso não é--cesse a obra, e sim--mudar o método. Não é a pessoa que está fora do lugar, é o plano que não é prudente. Se seu primeiro método não foi bem-sucedido, você precisa melhorar o plano. Examine onde foi que você falhou, e então, mudando seu modo, ou espírito, o Senhor poderá prepará-lo para um grau de utilidade muito além de sua expectativa. Eliseu, em vez de ficar desanimado quando viu que a criança não estava desperta, arregaçou as mangas e se apressou a realizar o trabalho que tinha pela frente.

Capítulo 23: O filho da mulher sunamita (2)

Veja onde a criança morta tinha sido colocada: "Quando Eliseu chegou à casa, lá estava o menino, morto, estendido na cama." Esta era a cama que a hospitalidade da sunamita havia preparado para Eliseu, a famosa cama que, com a mesa, o banquinho e a lamparina, nunca será esquecida na igreja de Deus.
Continuando a leitura, encontramos: "Ele [Eliseu] entrou, fechou a porta e orou ao Senhor" (2Re 4.33). Agora, o profeta está no seu trabalho com seriedade, e nós temos uma oportunidade nobre de aprender com ele o segredo de levantar crianças dos mortos. Se você voltar para a narrativa de Elias, verá que Eliseu adotou o método ortodoxo de proceder, o método de seu mestre Elias: "E ele [Elias] disse: Dê-me o seu filho. Elias o apanhou dos braços dela, levou-o para o quarto de cima onde estava hospedado, e o pôs na cama. Então clamou ao Senhor: 'Ó Senhor, meu Deus, trouxeste também desgraça sobre esta viúva, com quem estou hospedado, fazendo morrer o seu filho?' Então ele se deitou sobre o menino três vezes e clamou ao Senhor: 'Ó Senhor, meu Deus, faze voltar a vida a este menino'. O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu" (1Re 17.19-24). O grande segredo está na súplica poderosa. "Ele entrou, fechou a porta [sobre eles dois - kjv] e orou." O velho provérbio é: "Todo púlpito verdadeiro é erguido no céu", o que significa que o verdadeiro pregador passa muito tempo com Deus. Se não oramos a Deus por uma bênção, se o alicerce do púlpito não for edificado em oração particular, nosso ministério aberto não será um sucesso. Assim é com você; o poder de cada professor verdadeiro precisa vir do alto. Se você nunca se recolher para orar e fechar a porta, se nunca rogar junto ao lugar celeste de misericórdia por sua criança, como pode esperar que Deus o honrará com a conversão dela? É um método excelente, creio eu, levar as crianças, uma por uma, para o seu quarto e orar com elas. Você verá suas crianças convertidas quando Deus individualizar seus casos, agonizar por elas, e levá-las uma de cada vez, e com a porta fechada, para orar com elas e por elas. Há muito mais influência na oração oferecida em particular do que em oração dita publicamente na classe - não mais influência com Deus, é claro, mas mais influência com a criança. Tal oração muitas vezes será a própria resposta; pois Deus pode, enquanto você está derramando sua alma, fazer sua oração ser um martelo para quebrantar o coração que meras mensagens nunca haviam tocado.
Depois de orar, Eliseu adotou os meios. A oração e os meios devem andar juntos. Meios sem oração pressupõem oração sem meios: hipocrisia! Ali estava deitada a criança, e ali estava de pé o venerável homem de Deus! Assista seu proceder singular: ele se abaixa sobre o corpo e põe sua boca sobre a boca da criança. A boca fria e morta da criança foi tocada pelos lábios quentes e vivos do profeta, e uma corrente vital de hálito quente novo foi mandada lá para as passagens da boca do morto que eram frias como pedra, e para a garganta e os pulmões. Em seguida, o santo homem, com o ardor amoroso da esperança, colocou seus olhos sobre os olhos da criança, e suas mãos sobre as mãos da criança; as mãos quentes do velho cobriram as palmas frias da criança que partiu. Então, ele se estendeu sobre a criança, e a cobriu com seu corpo todo, como se quisesse transferir sua própria vida àquele corpo inerte, morreria com ele ou o faria viver. Era uma vez, um caçador de antílope que estava trabalhando como guia de um viajante cheio de medo; quando chegaram a uma parte muito perigosa da estrada, ele usou uma tira para amarrar o viajante a si mesmo firmemente, e disse: "Ou nós dois ou nenhum dos dois." Com isso, quis dizer: "Viveremos os dois ou nenhum de nós viverá; nós somos um." Assim, o profeta efetuou uma união misteriosa entre ele e o garoto, e na sua mente estava resolvido que ou ele gelaria com a morte da criança ou esquentaria a criança com sua vida.
O que isso nos ensina? As lições são muitas e óbvias. Vemos aqui, como num quadro, que se nós queremos trazer vida espiritual a uma criança, precisamos perceber muito vivamente o estado dessa criança. Ela está morta, morta. Deus fará com que você sinta que a criança está tão morta em dívidas e pecados como você esteve um dia. Deus quer que você entre em contato com essa morte através de dolorosa, esmagadora, humilhante solidariedade. Para ganhar almas, devemos observar como nosso Mestre operou; então, como ele operou? Quando ele quis nos erguer da morte, o que lhe coube fazer? Ele precisou morrer: não houve outro meio. Assim é com você. Se você quer fazer viver aquela criança morta, você precisa sentir o frio e o horror da morte dessa criança. É necessário um homem moribundo para levantar homens moribundos.
Para tirar uma brasa do fogo, você teria de colocar a sua mão suficientemente perto para sentir o calor do fogo. Então você tem, mais ou menos, uma idéia precisa da terrível ira de Deus e dos terrores do juízo que virá, porque se não tiver, vai lhe faltar energia em seu trabalho, e assim faltará um dos aspectos essenciais do êxito. Na minha opinião, o pregador nunca fala bem sobre tais tópicos antes que os sinta pressionando-o como um fardo pesado vindo do Senhor. "Eu preguei em cadeias", disse John Bunyan, "para homens em cadeias". Pode crer, quando a morte que está em suas crianças o assusta, deprime e domina, então Deus está prestes a abençoá-lo.
Assim reconhecendo o estado da criança, e como que pondo sua boca sobre a boca da criança, e suas mãos sobre as mãos dela, você precisa em seguida procurar se adaptar até onde for possível à natureza, aos hábitos e ao temperamento da criança. Sua boca precisa descobrir as palavras da criança, para que ela entenda o que você quer dizer; você precisa ver as coisas com os olhos de uma criança; seu coração precisa sentir os sentimentos de uma criança, para ser seu companheiro e amigo; você precisa ser um estudante do pecado juvenil, precisa condoer-se das provações juvenis; precisa, até onde for possível, entrar no espírito das alegrias e tristezas juvenis. Não pode se irritar com a dificuldade desse assunto, ou sentir que isso é humilhante. Se é exigido algo difícil, você precisa fazê-lo e não achar difícil. Deus não ressuscitará uma criança morta por meio de você se você não estiver disposto a ser todas as coisas para aquela criança, se você não estiver disposto a tornar-se todas as coisas para aquela criança, para que, se alguma possibilidade houver, você possa ganhar a sua alma.

O profeta "se estendeu sobre o menino". Era de esperar que estivesse escrito "ele se contraiu"! Afinal, ele era um homem feito, e o outro um mero menino. Não devia ser "ele se contraiu"? Não, "ele se estendeu"; e pode crer, nenhum estender é mais difícil do que para o homem estender-se a uma criança. Quem sabe falar com crianças não é tolo; um simplório está muito enganado se acha que sua tolice pode interessar meninos e meninas. São necessários nossa melhor inteligência, nossos estudos mais zelosos, nossos pensamentos mais sinceros, nossas capacidades mais maduras, para ensinar os nossos pequenos. Você não vivificará a criança até que se tenha "estendido"; e embora pareça estranho, ainda é verdade. O homem mais sábio precisará exercitar todas as suas capacidades se quiser tornar-se um professor bem-sucedido de crianças.
Vemos, então, em Eliseu, uma percepção da morte da criança e uma adaptação sua ao seu trabalho, mas, acima de tudo, vemos solidariedade. Enquanto o próprio Eliseu sentia o frio do corpo morto, seu calor pessoal estava penetrando o corpo morto. Isso por si só não levantou a criança; mas Deus operou através dele--o calor do corpo do velho passou para a criança, e tornou-se o meio de vivificá-lo. Que todo professor pese bem essas palavras de Paulo: Nós "nos tornamos carinhosos entre vós, qual ama que acaricia os próprios filhos" (1Ts 2.7, ara). "Sentindo, assim, tanta afeição por vocês, decidimos dar-lhes não somente o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida, porque vocês se tornaram muito amados por nós" (1Ts 2.8 nvi). Deus abençoará pelo seu Espírito nossa forte afinidade com a sua própria verdade, e fará com que faça aquilo que a verdade sozinha falada com frieza não realizaria. Aqui, então, está o segredo. Você precisa comunicar ao pequeno sua própria alma; você precisa se sentir como se a ruína daquela criança fosse sua própria ruína.
O resultado do trabalho do profeta logo apareceu: "O corpo do menino foi se aquecendo" (2Re 4.34b). Como Eliseu deve ter ficado contente; mas seu prazer e satisfação não diminuíram seus esforços. Nunca se satisfaça em achar suas crianças num estado apenas esperançoso. O que você quer não é mera convicção, mas conversão; você deseja não apenas impressionar, mas regenerar. Vida, vida de Deus, a vida de Jesus. É isso que seus pupilos precisam ter, e nada menos deve contentá-lo.
"Eliseu levantou-se e começou a andar pelo quarto." Observe o desassossego do homem de Deus; ele não pode ficar à vontade. A criança está quentinha (bendito seja Deus por isso), mas não vive ainda; então, em vez de se sentar à mesa, o profeta caminha para lá e para cá, com pés inquietos, gemendo, respirando rapidamente, ansiando, nem um pouco à vontade. Não podia suportar olhar para a mãe desconsolada, nem ouvi-la perguntar: "A criança já está restabelecida?", mas ele continuou andando na casa porque sua alma não estava satisfeita. Imite essa inquietude consagrada. Quando você vir um menino ficando um tanto sensibilizado, não se sente para dizer: "A criança tem esperança, graças a Deus; estou perfeitamente satisfeito". Desse jeito, você nunca ganhará a jóia inestimável de uma alma salva; você deve se sentir triste, inquieto, preocupado, se você se tornar um pai na igreja.
Depois de um tempo caminhando para lá e para cá, o profeta novamente "subiu na cama e debruçou-se mais uma vez sobre a criança". O que é bom fazer uma vez, convém fazer uma segunda vez. O que é bom duas vezes, é bom sete vezes. Deve haver perseverança e paciência. Tão certo quanto o calor passou de Eliseu à criança, assim pode passar o seu frio para a sua classe, a não ser que você esteja num estado de espírito bem sincero.
Eliseu se estendeu na cama novamente com muita oração, muito suspiro, muita confiança, e, finalmente, seu desejo lhe foi concedido. "O menino espirrou sete vezes e abriu os olhos." Qualquer forma de ação indicaria vida, e deixaria o profeta contente. A criança "espirrou", alguns dizem, porque morreu com uma doença da cabeça, pois antes ele disse ao seu pai, "Minha cabeça! minha cabeça!", e o espirro limpou as passagens de vida que se tinham bloqueado. Isso não sabemos. Ao entrar novamente nos pulmões, o ar poderia bem forçar um espirro. O som não era nada muito articulado ou musical, mas indicava vida. É só isso que devemos esperar de crianças pequenas quando Deus lhes dá vida espiritual. Alguns membros de igreja esperam muitas coisas mais, mas eu fico satisfeito se as crianças espirram--se dão qualquer indicação verdadeira de graça, por mais fraquinha ou indistinta que seja.
Talvez se Geazi tivesse estado lá, não tivesse achado esse espirro nada demais, porque não havia se estendido sobre a criança, mas Eliseu ficou contente com isso. Mesmo assim, se você e eu temos realmente agonizado em oração pelas almas, perceberemos rapidamente o primeiro sinal de graça, e ficaremos muito agradecidos a Deus mesmo que o sinal seja só um espirro.
Então, a criança abriu os olhos, e arriscamos dizer que Eliseu pensou que nunca antes tinha visto olhos tão lindos. Não sei que espécie de olhos era, castanhos ou azuis, mas sei que qualquer olho que Deus o ajudar a abrir será para você um olho lindo.

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